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4 de Fevereiro, Dia Mundial da Luta Contra o Câncer: Seguir sonhando, Seguir lutando!

4 de Fevereiro, Dia Mundial da Luta Contra o Câncer: Seguir sonhando, Seguir lutando!

Chego a este 4 de fevereiro, “Dia Mundial Contra o Câncer”, nessa minha luta pessoal contra a doença, que já vai para o terceiro ano.

Depois de dois processos pesados de quimioterapia e de uma cirurgia punk de mastectomia bilateral radical com esvaziamento de axila, estou, agora, na metade de um tratamento radioterápico de 28 sessões.

A radioterapia dá um cansaço danado na gente. No meu caso, o corpo vem pesando mais do que na químio, onde já parecia ter virado chumbo. Pés e mãos, e de vez em quando também braços e pernas, seguem dormentes, dificultando até mesmo o mais simples dos meus fazeres, que é escrever.

Quando isso acontece, dá uma frustração danada, e eu por vezes choro.  Nessas horas o que me salva são os versos do Thiago de Mello: “Faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar.” Mas são só nesses momentos de impacto físico que o câncer afeta mais diretamente o meu emocional.

O resto do tempo, procuro pensar pouco no lado difícil do tratamento, e penso menos ainda na possibilidade de um revertério. Do jeito que  dá, vou levando, um dia de cada dia.  Uso meu tempo para ler,  escrever, editar minha revista, a Xapuri, e ver gente, para não me sentir tão sozinha. Procuro, ao tornar público esse meu caminhar, quebrar o tabu que ainda cerca o câncer.

Nasci e cresci em uma casa onde as conversas sobre situações difíceis eram fechadas sempre com ditados populares. “O que não tem remédio, remediado está”, dizia  minha mãe, já encantada.

Meu velho pai, em vida um realista esperançoso, ao seu modo sempre nos ensinou que  “Não há mal que não traga um bem”. O  bem que o câncer me traz é o aprofundamento desse sentimento de imensa gratidão.

Gratidão à minha parentagem de sangue, que me cuida todo dia. Anteontem mesmo, quando meu coração sangrava pela morte da Marisa, essa querida companheira, o primeiro telefonema que recebi foi de minha neta Paloma, e de meu neto Nilo, pra dizer que me amavam, e que estavam solidários comigo nesse momento de dor.

É uma chamada dessas, no meio de uma manhã chuvosa, que  me faz  pensar no significado da famosa frase “Não tem preço”.

Gratidão à minha parentagem de sangue e de luta, que me anima quando o passo afrouxa. Incrível como tem sempre alguém de prontidão para um papo, pra tomar um café, pra me oferecer casa e comida, pra me dar um mão no trabalho, pra me respeitar na minha preguiça de rezar, pra recomendar novas leituras, ou pra  fazer um rango diferente quando a náusea me faz enjoar de tudo.

Gratidão a essa multidão de anjos e anjas que, nesse tempo todo, vem me mandando causos, histórias de vida, receitas,  remédios, energia boa, santos e orações das mais variadas crenças. São essas manifestações de carinho que me fazem seguir com fé, acreditando, pelo menos em parte,  “que a fé não costuma faiá”.

Gratidão à minha médica, Patrícia, que, além de aplicar em mim o melhor tratamento alopático disponível, me enche  de afeto e “me deixa” aventurar  nessa minha fascinante descoberta da medicina de raiz, dessa medicina do Cerrado e da Floresta que há milênios salva vidas, e, creio eu, tem sido fundamental na minha cura.

Por fim, esse não é o meu melhor 4 de fevereiro. Ontem fiz três ressonâncias, porque na tomografia da semana passada apareceram umas tais de lesões líticas em toda a parte superior do meu corpo.

Perguntei ao médico que me atende na radioterapia, o que pode ser isso. Evasivo, ele me disse: “Pode ser qualquer coisa”. Insisti, e o Dr. Luiz Gustavo, da forma mais gentil possível, me disse: “Sim, pode ser inclusive câncer”.

Enquanto o resultado não vem,  prefiro acreditar nas outras possibilidades – um efeito colateral da radioterapia, uma deterioração óssea decorrente da idade, afinal já sou uma idosa, já entrei na sexta década de vida.  

Mas mesmo se tiver que enfrentar mais tranqueira pela frente, o bem-te-vi que vejo agora cantando feliz dessa minha janela de luz do bem-querer, me faz seguir dando “gracias a la vida, que me ha dado tanto”.

Então, daqui desse meu espaço de aconchego, com imensa gratidão à vida e a quem me acompanha neste meu viver, neste Dia Mundial da Luta Contra o Câncer, mando meu carinho e meu compromisso de luta e de esperança: Seguir Sonhando. Seguir Lutando!

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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