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A morte e a dignidade de um camponês do Araguaia

A morte e a dignidade de um camponês do Araguaia

Como responsável pelas entrevistas para o documentário Camponeses do Araguaia – a Guerrilha vista por dentro, dirigido por Vandré Fernandes, pude compreender melhor os sentimentos do povo que conviveu com os guerrilheiros.

Por Osvaldo Bertolino/Fundação Maurício Grabois

Os entrevistados foram convidados a falar na passagem pela região da Caravana da Anistia, do Ministério da Justiça, em junho de 2009, sem prévia comunicação. Tomamos o cuidado de fazer uma seleção mesclando moradores dos locais em que atuaram os três destacamentos – A, B e C –, distantes um do outro, para termos uma média dos relatos.

O documentário revela a forte ligação dos camponeses com os guerrilheiros e seus sentimentos em relação aos propósitos da Guerrilha. O principal deles é a dignidade, a compreensão de que é possível ter uma vida com direitos e respeito, ideal que julgavam impossível antes da Guerrilha. Afirmam com orgulho que aprenderam a respeitar os guerrilheiros pela solidariedade e pelo despertar que eles trouxeram com a demonstração de que a opressão de classe não é uma imposição irremovível.

Falam, à sua maneira, desses sentimentos manifestando repugnância pelo que fizeram os facínoras que foram à região perseguir os guerrilheiros e seus amigos. Uma simples relação de amizade era suficiente para que fossem torturados e, muitas vezes, assassinados. Muitos perderam suas propriedades, roubadas ou destruídas. Mulheres foram abusadas e escravizadas, crianças foram sequestradas. A quantidade de mortos, de forma bestial, além dos guerrilheiros, ainda está por ser aferida.

Nas entrevistas, chegavam de forma humilde, com suas pastinhas de documentos, esperançosos de alguma reparação – algumas indenizações concedidas seriam suspensas por uma liminar do juiz José Carlos Zebulum, resultado de uma ação popular provocada por um assessor do então deputado estadual pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro (PP-RJ) –, expressando sentimentos e revolta. Falaram com a alma, revelando detalhes de modo geral até então pouco conhecidos tanto em relação aos guerrilheiros quanto aos criminosos da ditadura militar.

Um deles, Antônio Alves de Sousa – conhecido como Antônio Precatão –, falou das agruras sofridas – inclusive o roubo de sua propriedade – com indignação serena e contundente. Preso quando buscava mandioca em sua propriedade para alimentar a esposa “de resguardo”, acusado de ajudar a guerrilheira Dina – Dinalva Oliveira Teixeira –, foi amarrado com a cordinha em que carregava um facão de trabalho e levado de helicóptero para a base militar de Xambioá. Sob o sol escaldante da região, sofreu torturas o dia todo, agredido inclusive com seu próprio facão.

A resposta de Precatão era sempre a mesma: só dizia o “acontecido”, com ele e seus vizinhos. “Mentir não vou”, afirmou. Laçado pelo pescoço e arrastado pela mata, foi deixado amarrado ao lado de uma colônia de “formiga de fogo”, alimentada com açúcar, para ser picado em todo o corpo. Foi se juntar a outros camponeses – uns 20, segundo ele – igualmente torturados com choques elétricos e afogamentos. Foram 5 dias de tormenta, inclusive o uso do “anjinho”, armação metálica côncava, com parafusos em volta, que aperta a cabeça. “Vocês podem me matar, estou nas mãos de Deus e de vocês, mas só digo o acontecido”, narrou.

Precatão faleceu dia 17 de maio, aos 84 anos de idade, em Xambioá.

A prefeita da cidade, Patrícia Evelin, divulgou a seguinte nota de pesar:

Recebemos com imensa tristeza a notícia do falecimento do histórico morador de Xambioá, Antônio Alves de Sousa, conhecido por Antônio Precatão.

O senhor Antônio foi um dos camponeses que conviveu com os “paulistas” na época da Guerrilha do Araguaia e por isso chegou a ser torturado e ter direitos cerceados por longos anos. É um dos símbolos da resistência contra a tortura em nossa região. Colaborou com diversas pesquisas, realizou diversos debates como uma das importantes personalidades da luta pela elucidação da história da Guerrilha do Araguaia.

Externamos nosso sentimento de pesar nessa hora triste e rogamos ao Pai Celestial que conceda aos amigos e familiares conformação nesse momento de dor.

Patrícia Evelin

Prefeita de Xambioá 

Fonte: Osvaldo Bertolino/Fundação Maurício Grabois. Capa: Reprodução/Maurício Grabois


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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