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Em busca da Terra Sem Males

Em busca da Terra Sem Males

A semana começa cinzenta, enfumaçada. Também com tanto fogo, destruindo a floresta. Uma camada espessa de fumaça paira no ar. Aos menos avisados, pensa que são nuvens de chuva. Mas não, é fumaça mesmo. Respiramos com dificuldades nestes dias. Isso tudo com a conivência e omissão do ministro do Meio Ambiente (MMA), Ricardo Salles, no seu claro desejo de atender aos interesses do agronegócio, madeireiros e garimpeiros. Um ministro do meio ambiente contrário ao meio ambiente, já que defende o projeto de Lei (PL) 191, que viabiliza a abertura das terras indígenas à mineração, ao agronegócio e ao garimpo…

Por Chico Machado

As populações indígenas resistem o quanto podem. Não tem sido fácil a sua incansável luta. Tem sido assim desde o início da colonização, quando o europeu invadiu as suas terras no desejo ávido de riquezas. A terra sempre lhe pertenceu. São eles os verdadeiros cuidadores da Casa Comum, mantendo uma relação harmônica e respeitosa com a mãe natureza. Tudo ao seu redor é sagrado e dali advém aquilo de que necessitam para viver. Um povo marcado para morrer, já que os olhos gananciosos dos donos do capital estão todos voltados para as suas terras.

O Brasil não conhece os povos originários, sua cultura milenar e toda a riqueza de sua ancestralidade. Tal como o colonizador, os trata pela terminologia genérica de “os Índios”. Mal sabem que cada etnia é única, com a sua especificidade, sua língua, seus costumes, seus traços culturais, suas pinturas corporais, seu jeito próprio de se relacionar com o seu entorno. Pouco conhecemos da vida dos povos originários até porque os livros de História que temos entre nós, não foram escritos por eles. E para piorar ainda mais a situação, está entranhada em nós, uma perversa herança colonial que trata estes povos como preguiçosos, atrasados e mal cheirosos.

Cada povo é um povo. E as especificidades que cada um, projeta uma riqueza cultural tão grande, contribuindo enormemente para a cultura brasileira. Para se ter uma ideia, o povo Iny (Karajá), por exemplo, possui uma ramificação de gênero dentro da sua própria língua materna iny rybè [iˈnə̃ ɾɨˈbɛ], que significa “a fala dos iny”). Ou seja, os homens falam de um jeito, e as mulheres de outro. E eles se entendem muito bem. Apanhei bastante para transitar dentro desta língua. Mesmo com tanta riqueza, além de não conhecermos, ainda tem os projetos que almejam a destruição destes povos, como a ditadura militar que, alardeava aos quatro ventos, que até o ano 2000 não teríamos mais “índios” entre nós, pois todos estariam integrados à comunhão nacional e se transformariam em brasileiros.

Tudo o que os povos originários almejam é viver como sempre viveram em suas terras. Todos eles acalentam o sonho de viverem numa “Terra Sem Males”, na mesma perspectiva dos Guarani, que tinham dentro de si o “Mito da Terra Sem Males”. Este era o lugar onde não haveria fome, doenças e guerras. Um lugar perfeito, o paraíso que todos sonhavam alcançar. Na verdade, este mito foi um dos principais instrumentos de resistência, utilizados pelo povo guarani, contra o domínio do colonizador espanhol e português com a sua ganância de forma cruel e sanguinária.

Tendo a causa indígena como uma de suas principais causas, nosso bispo Pedro, em parceria com Pedro Tierra, tratou de nos presentear, em 1980, com uma obra que se tornou bastante conhecida. “Missa da Terra Sem Males.” A parte musical ficou por conta de Martín Coplas. Uma obra prima, retratando o sonho e a utopia Guarani de busca deste lugar onde viveriam em plenitude. “…mártires indefesos pelo Remo de Deus feito Império, Pelo Evangelho feito decreto de Conquista. Vítimas dos massacres que ficaram com nome glorioso na mal contada História, na mal vivida Igreja…” Quem não leu ou assistiu, precisa fazê-lo.

O sangue indígena corre veloz nas nossas veias. Por mais que não reconheçamos, o nosso coração pulsa nas batidas da essência indígena. Todavia, vivemos a valorizar e cultuar o europeu e viramos as costas para toda a riqueza do legado indígena entre nós. De saber que no Brasil, todo mundo tem sangue indígena: uns nas veias, outros na alma e outros ainda nas mãos, ensanguentadas com tantas mortes destes povos. Por si só, a causa indígena é a causa de todos nós. Defender os povos originários é defender a nossa própria sobrevivência.

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Réquiem para o Cerrado – O Simbólico e o Real na Terra das Plantas Tortas

Uma linda e singela história do Cerrado. Em comovente narrativa, o professor Altair Sales nos leva à vida simples e feliz  no “jardim das plantas tortas” de um pacato  povoado  cerratense, interrompida pela devastação do Cerrado nesses tempos cruéis que nos toca viver nos dias de hoje. 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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