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A guerra e a guerra de Frans Krajcberg

A guerra e a guerra de Frans Krajcberg

Documentário sobre o artista plástico e ecologista que adotou o Brasil como pátria passeia por sua luta pela natureza com trágica atualidade

Ao longo dos 96 anos de sua vida, Frans Krajcberg (1921-2017) jamais se esqueceu dos horrores da guerra. Judeu nascido na Polônia, teve a família assassinada barbaramente pelos nazistas e se engajou às tropas aliadas, forjando personalidade inconformada, questionadora – e formadora de sua obra como artista plástico, escultor, gravurista e fotógrafo.

Lutar, na verdade, seria seu destino.

Chegou ao Brasil em 1948, para a primeira Bienal de São Paulo, e encontrou o cenário da batalha definitiva de sua vida: a defesa inegociável do meio ambiente. Escolheu morar em lugares ermos, no contato mais íntimo possível com a natureza – de uma caverna em Itabirito (MG) à famosa casa na árvore em Nova Viçosa (BA).

Toda a coerência de um artista corajoso e único sustenta a narrativa de “Frans Krajcberg – Manifesto”, documentário de Regina Jehá que chega aos cinemas nesta quinta-feira (10), exibindo trágica atualidade. Ao longo de 96 minutos, ele revê a própria trajetória, desfiando memórias e reflexões, enquanto prepara obras para expor no salão principal da 32ª Bienal, em São Paulo.

“Olha como é lindo, como é exuberante. Eu que plantei tudo isso aqui”, relata, à câmera de Regina, sentado na varanda da casa, diante da vista opulenta da casa em Nova Viçosa. Num outro momento, dirigindo uma caminhonete, ele lamenta a devastação nas franjas da estrada – “plantaram eucalipto, que não gera vida; ali não tem nem mosquito”, ensina – e celebra a única árvore de pé, graças a protesto liderado por ele. Frans avisa que sempre a cumprimenta ao passar. “Boa tarde!”, grita, acenando com a mão para fora da janela.

O documentário atravessa quatro décadas da vida do artista transformado em relação ao pintor influenciado por Léger, Mondrian e Chagall, que chegou aqui. Incomodado com a dimensão pictórica, Frans investiu no relevo e na escultura, reformulando a ideia de representação ou interpretação da natureza. Passou a usar troncos de árvores, raízes aéreas de mangue, num mergulho revolucionário e sem volta.

Naturalizado brasileiro em 1956, viajou pelos rios da Amazônia com os amigos Sepp Baendereck e Pierre Restany, durante 21 dias de 1978, percorrendo a região do Alto Rio Negro – e cristalizou a certeza da luta pelo meio ambiente. A expedição foi inteiramente documentada por fotos e desenhos de Sepp, fotos e filmagens de Krajcberg e pelo diário pessoal de Restany, que escreveu o Manifesto do Rio Negro (ou Manifesto do Naturalismo Integral), assinado pelos três.

“A Amazônia constitui hoje, sobre o nosso planeta, o ‘último reservatório’, refúgio da natureza integral”, defende o texto. “Um contexto tão excepcional como o do Amazonas suscita a ideia de um retorno à natureza original. A natureza original deve ser exaltada como uma higiene da percepção e um oxigênio mental: um naturalismo integral, gigantesco, catalisador e acelerador das nossas faculdades de sentir, pensar e agir.”

“Fiz o filme sob esses parâmetros”, explica Regina Jehá, cineasta paulista ligada à causa amazônica. “Frans conduziu vida e obra caminhando sempre juntas. O documentário é um manifesto dessa filosofia”, resume ela, que venceu a resistência do próprio artista para produzir.

“Eles queimam a floresta para dar espaço ao gado” denuncia Frans, numa entrevista em 1986 que poderia ter sido feita hoje. “Não pode. A riqueza disso aqui…”, lamenta, melancólico. Mas ele não desistiu. Denunciou queimadas florestais pelo Brasil todo; bateu na exploração mineral em Minas Gerais; atacou o desmatamento da Amazônia e a destruição da Mata Atlântica, incansavelmente. Lutou até morrer contra a destruição da natureza, bradando pela preservação do planeta e da humanidade.

“Ele era um lobo solitário”, atesta Regina. A produção sobre levou dois anos (entre 2016 e 2018) para ser concluída. Contou com imagens captadas para outro filme, “Poeta dos vestígios” (1998), de Walter Salles, e de entrevistas feitas por João Meirelles para um livro sobre o artista. O escritor, aliás, é autor da ideia do documentário.

E como Frans Krajcberg estaria hoje, diante das barbaridades que dominam o noticiário? “Que bom ele não estar aqui vendo isso”, resigna-se Regina, com um sorriso triste. “Mas ele deve estar feliz com o filme”, acrescentando, lembrando uma das frases definidoras do artista: “Só vai ter sentido se falar da minha luta”.

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal Sportv. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

Fonte: Projeto Colabora


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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