“O básico era o choque…” Depoimento de Dilma Rousseff sobre a tortura 

Fui interrogada dentro da Operação Bandeirantes (Oban) por policiais mineiros que interrogavam sobre processo na auditoria de Juiz de Fora e estavam muito interessados em saber meus contatos com Ângelo Pezzuti, que, segundo eles, já preso, mantinha comigo um conjunto de contatos para que eu viabilizasse sua fuga.

Por Dilma Rousseff

Eu não tinha a menor ideia do que se tratava, pois tinha saído de BH no início de 69 e isso era no início de 70. Desconhecia as tentativas de fuga de Pezzuti, mas eles supuseram que se tratava de uma mentira. Talvez uma das coisas mais difíceis de você ser no interrogatório é inocente. Você não sabe nem do que se trata (…)

Não se distinguia se era dia ou noite. O interrogatório começava. Geralmente, o básico era choque […] Se o interrogatório é de longa duração, com interrogador ‘experiente’, ele te bota no pau de arara alguns momentos e depois leva para o choque, uma dor que não deixa rastro, só te mina.

Muitas vezes também usava palmatória; usava em mim muita palmatória. Em São Paulo usaram pouco esse ‘método’. No fim, quando estava para ir embora, começou uma rotina. No início, não tinha hora. Era de dia e de noite. Emagreci muito, pois não me alimentava direito (…)

Quando eu tinha hemorragia, na primeira vez foi na Oban (…), foi uma hemorragia de útero. Me deram uma injeção e disseram para não bater naquele dia. Em Minas, quando comecei a ter hemorragia, chamaram alguém que me deu comprimido e depois injeção. Mas me davam choque elétrico e depois paravam (…)

Minha arcada girou para o lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu. […] Só mais tarde, quando voltei para São Paulo, o Albernaz [capitão Alberto Albernaz, do DOI-Codi de São Paulo] completou o serviço com um soco, arrancando o dente (…)

A pior coisa que tem na tortura é esperar, esperar para apanhar. Eu senti ali que a barra era pesada. E foi. Também estou lembrando muito bem do chão do banheiro, do azulejo branco. Porque vai formando crosta de sangue, sujeira, você fica com um cheiro (…)

O estresse é feroz, inimaginável. Descobri, pela primeira vez, que estava sozinha. Encarei a morte e a solidão. Lembro-me do medo quando minha pele tremeu. Tem um lado que marca a gente pelo resto da vida.”

Dilma Rousseff – presa política, torturada pela ditadura militar, ex-presidenta do Brasil. Excertos de relato feito em 2001 ao Conselho Estadual de Direitos Humanos (Conedh) de Minas Gerais e de depoimentos e entrevistas diversas, registradas pela mídia nacional. Dilma foi presa em São Paulo no dia 16 de janeiro de 1970. Condenada em primeira instância a seis anos e um mês de prisão, e teve os direitos políticos cassados por dez anos. Depois, conseguiu redução da pena junto ao Superior Tribunal Militar (STM) e deixou a prisão no final de 1972. Foto interna: Brasil de Fato. 


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