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Após 8 anos de luta, escola deixa de homenagear traficante de escravos

Após 8 anos de luta, escola deixa de homenagear traficante de escravos

Novo nome homenageia a escritora Carolina Maria de Jesus

Por Daniel Mello/Agência Brasil

O antigo nome da Escola Municipal de Ensino Fundamental Espaço de Bitita – Infante Dom Henrique – foi ocultado por um plástico que cobre a placa do estabelecimento, na zona norte paulistana. O novo nome, que aparece improvisado escrito na lona preta, é resultado de uma luta da comunidade escolar que começou em 2015.

Foi naquele ano que, após uma votação aberta a toda a comunidade do bairro do Canindé, ficou decidido que o nome da escola passaria a homenagear a escritora Carolina Maria de Jesus, que morou na região. A autora, quando escreveu seu livro mais famoso – Quarto de Despejo, provavelmente viu a construção da escola, inaugurada em 1960, a poucos metros do local onde ficava a favela onde vivia.

A escolha de um novo nome foi decidida após debates a respeito do antigo Infante Dom Henrique, um nobre português que participou do estabelecimento do tráfico de pessoas escravizadas da África. “Ele foi fundador do tráfico negreiro no mundo”, diz o diretor da escola, Cláudio Marques Neto, sobre o personagem histórico.

Persistência

Um projeto de lei, que alterava o nome da escola para homenagear Carolina de Jesus, chegou a ser aprovado na Câmara de Vereadores de São Paulo em 2017. Esse primeiro projeto, no entanto, foi vetado pelo então prefeito João Doria naquele mesmo ano. Segundo Cláudio Neto, a decisão foi justificada pelo fato de já existir uma escola com o nome da escritora e também com o argumento de que Dom Henrique seria um nome de “tradição” no bairro.

Para contornar a burocracia, foi apresentado então o nome Espaço de Bitita, em referência ao apelido de infância da escritora, que é lembrado no livro Diário de Bitita. A lei que determina essa mudança foi sancionada pelo prefeito Ricardo Nunes no último dia 6 de junho.

“A lição pedagógica mais importante para nós é que, às vezes, para mudar uma realidade você precisa ter persistência”, destaca o diretor sobre o processo. De acordo com ele, a alegria foi tanta que uma festa está sendo planejada para comemorar o rebatismo da escola. “A gente tem esses pais e mães que são muito engajados, que participam da escola, então foi uma festa”, diz sobre as manifestações que chegaram presencialmente e por mensagens de whatsapp.

Para Neto, a luta pela mudança faz parte da construção do “tipo de conhecimento” que a escola propõe. “Você deixa de contar a história do ponto de vista do dominador e passa a contar do ponto de vista das pessoas simples do lugar”.

“Pensei que era uma pessoa boa”

A mudança foi considerada bem-vinda entre os alunos. “Fiquei surpreso, porque pensei que era uma pessoa boa”, disse Pedro Brito, aluno do 8º ano, quando foi informado a respeito da história do Infante Dom Henrique. “Se não é [uma pessoa boa], por que deixar o nome [na escola] e representar uma pessoa que é ruim?”, questiona o jovem de 14 anos.

“A Carolina Maria de Jesus foi uma mulher muito forte”, afirma, com uma ponta de orgulho, Emanuelly Ferreira, que tem 13 anos e também cursa o 8º ano.

Para a historiadora especialista em patrimônio cultural, Debora Neves, dificuldades como a enfrentada pela comunidade da escola Espaço de Bitita para conseguir a alteração do nome, tem a ver com “uma burocracia instrumentalizada que barra o avanço desses debates”. Segundo ela, isso acontece “porque são temas que ainda estão muito presentes na nossa sociedade. Tem a ver com a dificuldade de a gente encarar o passado como ele efetivamente é. O nosso passado não é simpático, não é bonito”.

No entanto, apesar dos obstáculos, Deborah acredita que movimentos como o que ocorreu no Canindé devem se multiplicar. “Esse é um processo que não vai ser interrompido, porque as pessoas estão cada vez mais se apropriando daquilo com que elas convivem no cotidiano e querem se sentir pertencentes a esses espaços”, enfatiza.

O caminho percorrido pela comunidade na zona norte é, na avaliação da historiadora, o melhor trajeto para trabalhos como esse, começando pelo reconhecimento e debate. “De modo geral, as pessoas não sabem quem são os patronos dessas escolas, prédios públicos, de ruas. Então, o primeiro passo é justamente despertar essa curiosidade”.

Estação

Em maio, a Justiça de São Paulo impediu que o metrô mudasse o nome da futura Estação Paulo Freire, prevista para ser inaugurada em 2026 na Linha Verde, para Fernão Dias. O primeiro nome faz referência ao patrono da brasileira e o segundo a um bandeirante que viveu no século 17.

A empresa sustenta que a alteração foi feita após uma pesquisa de opinião. A estação ficará localizada na Avenida Paulo Freire, na zona leste paulistana.

Nesse caso, a historiadora vê o processo como insuficiente. “O processo participativo envolve discussão, debate, leituras, escutas, estudos. Enfim, não é só abrir um formulário e as pessoas votam sim ou não”, destaca Deborah.

Fonte: Agência  Capa: Rovena Rosa/Agência Brasil


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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