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Aposentadoria: Uma viagem utópica para o tempo futuro?

Aposentadoria: Uma viagem para o tempo futuro – 

Por: Padre Joacir S. D´Abadia

O dia inteiro passou chuvoso, de neblina baixa, pouco vento soprava o rosto de quem estivesse ao largo. O friozinho intenso envolvia a todos, pincipalmente os magricelos, os quais sentem mais frio do que qualquer outra pessoa. E o que mais tarde se sucedeu, foi uma chuvarada muito mais forte, forçando magros e gordos a se esconderem como qual podia.

Com uma mochila eum uma das mãos, uma sombrinha fechada e uma camiseta molhada na outra mão, vinha caminhando uma senhora. Seu interesse em participar de um grande sossego debaixo daquela cabana foi contemplado na medida em que colocou seus pés lá dentro. Um lugar enxuto onde poderia descansar da grande fadiga das águas torrenciais.

Sentada em uma cadeira que ficava defronte a outras várias, linearmente postas uma ao lado da outra, de forma que erigiam um corredor que dava para uma enorme sala, tida como “repouso.” Era mesmo um ponto de apoio para repousar da lida diária dos muitos frequentadores daquele recinto de descanso, onde estava sentado um jovem que, do seu lugar, observava aquela senhora que chegava rápida, livrando-se da chuva fria.

Dirigindo-se a ela, o jovem inquiriu: “Olá! Qual o nome de vossa graça?” Graciosamente, a senhora respondeu: “Leda”. Ao qual foi enviado seu currículo informando que trabalha em muitas coisas e que no momento seu labor se fada em ser vendedora. Arriscou listar seus outros ofícios, deixando à frente o atual e mais atraente, visto que trazia os dados para o contato com as pessoas, o que para ela tornava-se uma realização de vida.

Aquele encontro, todavia, deixava a ambos satisfeitos porque não era só aquela vendedora que gostava de fazer amizades, mas também o jovem, que logo quis saber mais detalhes da vida da senhora:

__ Dona Leda, a senhora não é aposentada?

Ao jogar essas palavras no ar, ele logicamente não saberia da resposta que teria para sua pergunta, e nem mesmo a reação da vendedora, por chamá-lo com dois pronomes de tratamento. Enquanto aguardava pela resposta, ele por um momento imaginou que “Dona” ou “Senhora” talvez pudesse chateá-la. Mas seu alívio veio em seguida:

__ Não, meu filho. Preciso esperar o tempo certo pra eu me aposentar.

Tudo bem, o tempo não pára. Logo Dona Leda estará em traquilo gozo dos seus direitos pelo tempo de trabalho ou mesmo pela idade, pensou o jovem. Com isso, por fim, perguntou:

__ Então a senhora deve ter contribuído com o INSS?

Dona Leda respondeu:

__ Meu filho, esse tal de INSS é uma empresa onde eu devo pagar meus impostos? Pois minha água, luz e celular estão todos pagos.

__ Não, Dona Leda, o INSS é um futuro tão distante que quando se chega nele não mais existirá chuva, frio, nem energia para fazer contato com as pessoas, nem saúde para vender seus produtos, em suma.

Otoniel Fernandes Velho Chico

 

 

ANOTE AÍ:

Joacir

 

Padre Joacir Soares D´Abadia – Pároco de Alto Paraíso de Goiás. Filósofo. Autor, dentre outros, do mais recente livro “A Incógnita de Cully Woskhin. Palavra e Prece. 2018. PAra mais informação de excelência, curta a página do Padre Joacir no Facebook: Joacir S. d’Abadia 

As imagens utilizadas neste artigo são reproduções de quadros do grande pintor cerratense Otoniel Fernandes: www.otonielartebrasil.com.br/blog.html

 

 

 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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