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Até mesmo a Asa-Branca bateu asas do sertão!

A asa-branca (Patagioenas picazuro Temminck, 1813) é uma ave pertencente à família Columbidae, amplamente distribuída nas regiões do Brasil, exceto nas matas densas da Amazônia.

Seu nome popular deve-se as faixas brancas presentes em suas asas, sendo esta uma característica marcante dessa espécie. Além disso, o que chama bastante atenção é a construção do ninho por parte do casal, onde ambos fornecem os cuidados necessários ao filhote até o momento do primeiro voo.

Na Caatinga, a alimentação da asa-branca baseia-se em sementes de gramíneas e pequenos frutos como a quixaba, fruto da quixabeira (Sideroxylon obtusifolium (Roem& Schult.) T. D. Penn.), a favela da faveleira (Cnidoscolus quercifolius Pohl), entre outros.

Dessa forma, compreende-se o quanto essa ave contribui para dispersão de sementes de espécies que apresentam diversos usos no Semiárido brasileiro, tais como medicinal, alimentação humana e animal. Assim, essa relação direta entre as aves e a flora leva-nos a entender que sem flora não há aves, sem aves não há caatinga e sem caatinga não há vida.

Dona de um canto apreciado pelos/as sertanejos/as e beleza exuberante, essa ave ficou bastante conhecida por inspirar Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira na composição de uma das mais conhecidas canções populares, estabelecendo-se uma relação entre o hábito de migração da asa-branca e a necessidade dos/as sertanejos/as deixarem suas casas durante as grandes secas no Semiárido brasileiro em busca de alimento e água.

Asa-Branca

Quando oiei a terra ardendo

Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação Que braseiro, que fornaia
Nem um pé de prantação
Por falta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão Por farta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Depois eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração Depois eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração Hoje longe, muitas légua
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar pro meu sertão Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar pro meu sertão
Quando o verde dos teus óio
Se espaiar na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coraçãoEu te asseguro não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração
 Asa-Branca: letra e  música de Luiz Gonzaga
 
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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