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Bananeiras passaram a dar jacas?

Bananeiras passaram a dar jacas?

Por Fernando Brito

O Valor traz hoje em sua capa a manchete que afirma que o ministro da Economia Paulo Guedes assume Pró-Brasil e amplia o programa para criar empregos.

E você já leu em inúmeros lugares e declarações que Jair Bolsonaro, com o “Renda Brasil”, vai dobrar o Bolsa Familia, em valor e alcance.

Tudo muito bom, desde que você esqueça o que realmente pensa esta gente que cansou de apontar o Bolsa Família como um programa populista, que estava tornando os brasileiros vagabundos que não queriam trabalhar, mas viver do auxílio e de que era melhor emprego sem direito do que direitos sem emprego.
O que houve? Uma epifania? Uma conversão milagrosa destas mentes à ideia de que o progresso econômico se funda na elevação do poder de compra da população e dos seus níveis de bem-estar?
Ou a direita brasileira descobriu que, fazendo política social seu grau de apoio se eleva e torna sua continuidade no poder mais fácil ou até inevitável.
Bananeiras passaram a dar jacas?
Não seria impossível, se de fato a realidade de uma crise tivesse transformado as mentes que dirigem governo e economia, bem como as que formam sua base de apoio social e empresarial.
Mas não é assim e não é pela elevação do poder de compra da população e pela redução dos níveis de pobreza e atraso que eles medem o sucesso de políticas econômicas.
Não, isto para eles é apenas uma necessidade provisória para que as eternas máquinas de acumulação possam seguir a funcionar em meio a situações de carnificina econômica como a que vivemos.
Não é preciso ir longe no tempo para lembrar como, na crise de 2008/2009 eles não hesitaram em retirar os santos de seus altares neoliberais e apoiarem a intervenção do Estado na economia, a licença para crescer o endividamento público e a ortodoxia fiscal.
Mudou-se algo? Uma década depois, toda a recuperação da economia não tinha recuperado os níveis de emprego, de equidade na distribuição de renda, a superação do atraso econômico das periferias.
Há diferenças, porém, numa e noutra situação.
Cuidamos, em meio àquele temporal, de ampliar os investimentos em infraestrutura, aproveitando a “licenciosidade fiscal” que os tempos concediam, para elevar o poder de compra do trabalho, realimentando pelo consumo a produção e fazendo a roda da economia girar.
Foi possível, assim, dar um passo à frente na situação em que nos encontrávamos no pré-crise e criar um estado de ânimo positivo para a vida nacional, que começaria a ser desmontado pelo embrião do moralismo “padrão Fifa” (juro, dá vontade de ao rir lembrar que a Fifa já foi modelo para algo assim) e a transformação do dilema social em um embate entre “honradez” e “sem-vergonhice”, que desembocaria no surgimento da ideia dos “homens santos” que, vemos agora, são demoníacos.
Agora, o quadro é diferente: não há projetos – sequer projetos, que dirá investimentos – estruturantes, não há planos para setores essenciais da ação social do Estado (Educação e Saúde, essencialmente), seja em que escala for: emergencial, de médio ou de longo prazo. O crescimento da dívida pública, que soma até o mês passado 9,7 desde o início do ano em relação ao PIB ( o dobro dos 4% apurados em 2009) vai chegar perto dos 20% e nos deixou pendurados na dependência de juros baixíssimos para poder rolar as contas públicas.
Se fosse um remédio, poder-se-ia dizer que a terapia é apenas a de analgésicos, mas com inevitáveis efeitos colaterais de médio e longo prazo.
Recordo apenas aos que ficam perplexos com a situação que não há milagre em economia, mas programas de desenvolvimento, investimentos, elevação de renda persistente, agregação de valor à produção e tudo o que faz desensenvolvimento e justiça caminharem como o par de trilhos do progresso. O resto é prestidigitação, farsa, truque para enganar incautos.
O santos que foram tirados no altar neoliberal não foram quebrados. Estão apenas no armário, esperando que se lhes esqueça a crueldade para serem de novo entronizados.
O deus ex-machina do mercado e do dinheiro continua acima de todos.
Fonte: Tijolaço

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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