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Brevidade

Brevidade – Bolo de Avó

Brevidade – Bolo de avó –  Tempos idos. Tempos findos. Costumes que ficam. Cultura que permanece. A gastronomia é campo seguro, solo fértil pra essa permanência. Na cozinha, do forno e fogão até a mesa, pratos diversos, de raízes fincadas séculos atrás, seguem saciando a fome e entremeando animadas prosas.

Por Lúcia Resende

É verdade que já se foi o tempo em que era a cozinha o espaço central do diálogo nas residências. Findou-se o hábito de sentar no rabo do fogão a lenha pra “quentar frio”, de assar ovo, batata-doce ou mandioca no borralho, de prosear em volta de uma mesa, enquanto uma diligente cozinheira cuidava das massas, dos quitutes, dos chás, do café. Tempo distantes em que a matriarca da casa cuidava de abastecer a mesa, enquanto ela mesma participava dos muitos causos que ali se contavam.

Logo cedo, ainda escuro, na mesa de madeira rústica estavam os quitutes. O leite vinha do curral, e o café ficava no bule esmaltado, na chapa quente do fogão, porque garrafa térmica não existia. Mais tarde, na volta do dia, era hora da merenda, e o ritual se repetia. Bolos, biscoitos, pães de doce e de sal, presença obrigatória.

Com o tempo, algumas receitas ficaram bem mais fáceis de produzir, e uma delas é um bolo de poucos ingredientes, mas de sabor delicioso: a brevidade. O nome só pode ter sido colocado por ironia, porque quando não havia eletricidade e tampouco a batedeira elétrica, o apreciado quitute exigia paciência e muita determinação. Bater, bater, bater à mão. Bater muito e por muito tempo. Uma demora enorme e necessária, pois que senão era só gosto de ovo.

A receita que trazemos vem do Triangulo Mineiro, da fazenda Aldeia dos Índios, em São Francisco de Sales. Literalmente um bolo de avó. Era feita por Enézia Cândida de Oliveira, nos primórdios do século XX, reproduzida por suas filhas e noras. Hoje, permanece nas mesas pelas mãos de netas e bisnetas (e de algum neto ou bisneto, talvez!). Mas da dificuldade fica só a memória, pois é rápido e fácil. E delicioso, pode apostar!

INGREDIENTES

5 gemas

5 ovos inteiros

1 prato fundo pelo vinco de açúcar

1 prato fundo cheio (não de “topete”) de polvilho doce

1 pitadinha de sal

Raspas de limão (para variar e conforme a preferência, pode-se substituir por baunilha, cravo, canela)

MODO DE FAZER

Bata os ovos e o açúcar na batedeira até misturar bem. Desligue, junte o polvilho aos poucos, com cuidado, misturando com uma colher. Acrescente a pitadinha de sal e as raspas de limão. Ligue novamente a batedeira e bata até que, ao desligar, comece a formar bolhas (uns 10-15 minutos). Coloque nas formas untadas (só até a metade, porque cresce muito) e asse em forno médio por cerca de 40 minutos. É preciso ter cuidado para não ressecar (o bolo não pode dourar). Na dúvida, é só espetar um palito e retirar. Se sair limpo, está assado.

Sirva acompanhado de um bom café. Bom apetite!

Obs.: As claras que sobram podem ser aproveitadas para fazer suspiro, glacê real, pudim de claras… mas isso é papo para outra edição.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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