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Carrefour compra carne oriunda do desmatamento e da grilagem

Carrefour compra carne de frigoríficos ligados a desmatamento e grilagem de terras no Pará

Apontado como o “maior devastador da Amazônia”, Bruno Heller é responsável pelo desmatamento de 6,5 mil hectares de floresta, grilagem de terras e porte de arma.

Por Marina Rossi, Daniel Camargos* e Hyury Potter/ Repórter Brasil 

Apontado pela Polícia Federal (PF) como o “maior devastador da Amazônia”, Bruno Heller foi preso no início do mês durante a chamada “Operação Retomada”, organizada pela polícia para investigar um esquema de invasão de terras da União e desmatamento para criação de gado na Floresta Amazônica. As autoridades apuraram que, sozinho, Bruno foi responsável pelo desmatamento de 6,5 mil hectares de floresta, o equivalente a quase quatro Ilhas de Fernando de Noronha (PE). Após a prisão, o fazendeiro foi solto no dia seguinte e responderá o processo em liberdade.

Segundo o inquérito policial, eram feitos cadastros fraudulentos junto ao Cadastro Ambiental Rural (CAR) de áreas próximas às fazendas da família Heller em nome de terceiros, principalmente de parentes. As fazendas, localizadas no município de Novo Progresso (PA), eram então desmatadas e voltadas para a criação de gado. O território grilado fica próximo à Terra Indígena (TI) Baú e são sobrepostas ao Assentamento Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Terra Nossa em cerca de 1,9 mil hectares.

O assentamento, palco da ampliação das grilagens e do roubo de madeira na região, foi também cenário das mortes dos líderes comunitários Rodrigues dos Santos, o Bigode, e Aluísio Sampaio, conhecido como Alenquer. Em 2018, após denunciar extração ilegal de madeira dentro de seu lote, Bigode desapareu. Alenquer passou a exigir publicamente a investigação do desaparecimento e também foi assassinado. Hoje, a atual liderança, Maria Márcia Elpídia de Melo, vive sob a proteção do governo federal após sobreviver a uma tentativa de assassinato.

A família Heller é notificada desde 2007 pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para a retomada das terras griladas. Anterior a isso, desde a década de 1990, a família já acumula 43 autuações ambientais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que vão de desmatamento ilegal à compra de gado de áreas protegidas, somando R$ 27 milhões em penalidades. Apenas Bruno recebeu cerca de metade das multas.

Como estratégia para burlar a fiscalização, Bruno colocou parte das terras no nome da esposa, filhas, irmãos, sobrinhos e outros parentes. Tatiana Heller, que teve a propriedade passada para o seu nome em 2008, quando tinha 17 anos, já recebeu três multas do Ibama apenas em 2023, totalizando R$ 5 milhões em penalidades por comprar e comercializar mais de 1.600 cabeças de gado criadas na Floresta Nacional do Jamanxim, unidade de conservação federal em Novo Progresso.

Outro método utilizado pelos fazendeiros é a chamada “lavagem de gado”, quando bois criados em locais irregulares são repassados para áreas consideradas “ficha limpa” e, posteriormente, vendidos para grandes frigoríficos. Segundo a Repórter Brasil, a família possuí seis fazendas uma ao lado da outra, sendo a Formosa I, II, III, IV, V e VI. Informações de trânsito de animais mostram que gados criados na fazenda Formosa II, multada por desmatamento ilegal e com suspeita de grilagem, foram transferidos em 2021 e 2022 para a Formosa V e a Formosa VI, livres de implicações ambientais.

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Imagem: Hyury Potter/dados de Planet Explore, CAR do Pará e Qgis de agosto de 2023.

No nome das filhas de Bruno, as fazendas venderam animais para o frigorífico Vale Grande, do grupo Frialto, fornecedor de carne para a rede francesa de supermercados Carrefour. As transações foram realizadas no mesmo período da “lavagem de gado” e a venda de carne para o Carrefour, de acordo com o aplicativo “Do Pasto ao Prato”, ocorreu nos anos de 2021 e 2023.

Procurado pela Repórter Brasil, o Carrefour afirmou examinar “minuciosamente o extenso banco de dados de fazendas que fornecem carne a todos os frigoríficos que abastecem o Grupo e confirmou a ausência de qualquer propriedade vinculada ao denunciado mencionado ou a indivíduos com o mesmo sobrenome”. Em nota, a Frialto reconheceu o problema da triangulação de gado, mas disse não haver ferramentas para “monitoramento de fornecedores indiretos”. Já a defesa de Bruno e Tatiana Heller afirmou apenas se manifestar após a conclusão das investigações, “oportunidade em que os fatos serão devidamente esclarecidos e devidamente comprovada a inocência de Bruno”.

Fonte: Repórter Brasil. Foto:  Incra / Reprodução.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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