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Carta para Agna: reflexões sobre o amor humano

Carta para Agna – reflexões sobre o amor humano

No ano de 2009, uma aluna me questionou a respeito do amor humano,  ela dizia não acreditar no amor porque ele era imperfeito. Na ocasião,  fiz uma busca nas minhas anotações de sala de aula e cheguei a escrever uma carta para entregar àquela aluna, porém como eu não tinha o contato e nem o endereço dela, eu publiquei a carta em um jornal e em um site, esperando conseguir chegar a ela e sanar sua dúvida…

Por Padre Joacir d´Abadia 
 
Após 12 anos,  eu encontrei aquela jovem num  restaurante, em uma festa de aniversário a que fui convidado.  Estávamos sentados na mesma mesa,  que cabia umas 20 pessoas.  Nos cumprimentamos, mas eu não tinha a certeza de que se tratava da mesma pessoa. Naquele momento,  eu me recordei da pergunta da jovem e da pesquisa que fiz.
 
Quando se fala de uma “imperfeição do amor humano”, não se está dizendo que o amor humano não existe. Aliás, ele é afirmado, mesmo sendo imperfeito. Veremos aqui a “imperfeição do amor humano” segundo as aulas do Teólogo Padre André Moffatt, que foi,  por mais de trinta anos, professor no Seminário Arquidiocesano de Brasília.
 
Uma primeira verdade que nos chega é a de que nenhum amor humano serve como referencial para a graça entendida como relação de amor, porque o amor humano é imperfeito.
 
Daqui, Agna, eu inicio minha reflexão esperando ajudar a amenizar um pouco a sua inquietação a respeito da relação amorosa humana.
 
Antes de tudo, devemos dizer que a graça (vida divina em nós; uma ação eficaz de Cristo em nós) pode ser vista como uma relação de amor entre Deus e o ser humano. Pois o amor procede de Deus – o amor Ágape  – como expressão do amor fundado sobre a fé e por ela plasmado (Deus Caritas Est, 7)). Temos amor, não que o mereçamos, mas porque nós o recebemos de Deus: “Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor é de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus” (1 Jo 4, 7).
 
Deus é amor, é caridade, porque Ele não está sozinho, não é solitário, pois o amor precisa de dois termos. O amor de Deus não é dualidade, é Trindade: “Pai, Filho e Espírito Santo”. A dualidade é imperfeita e pode ser cominho para o egoísmo. É por isso que o matrimônio deve estar sempre aberto às terceiras pessoas, que são os filhos.  As relações “duais” tendem ao egoísmo com grande facilidade.
 
Em Deus são as relações que constituem a pessoa, daí que temos na Trindade um exemplo perfeito de relação amorosa. A relação de amor essencial é a vida trinitária, esta Deus quis comunicar ao homem, tornando-o partícipe da mesma por meio de Cristo, cuja humanidade foi posta numa relação de filiação com Deus graças à união hipostática (as duas naturezas de Jesus Cristo: a humana e a divina).
 
A pessoa é incomunicável, pode-se no máximo comunicar alguma coisa de si por palavras e por atos, pois o nosso ser profundo é incomunicável. Quanto ao homem, não é a relação que o faz pessoa, mas a sua relação com Deus, isto, claro, do ponto de vista teológico.
Para compreendermos a graça como relação de amor faz-se necessário olhar o amor em si, o amor trinitário (a graça incriada).
 
Isso porque, Ágape na Primeira Carta de São João Deus é amor em si mesmo: “Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor” (1 Jo 4, 8); e em seu “Filho no Espírito” Deus nos comunica o seu amor: “Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 4, 10).
 
A definição de Deus como amor corresponde ao ser mesmo de Deus. O fato de Deus ser amor faz com que Ele não seja solitário, Deus é amor porque Ele é Trindade. Deus é amor porque Nele há relações de pessoas, o Pai implica o Filho, o Filho implica o Pai. Negar o Pai é negar o Filho, porque os dois são correlativos.
 
Nós conhecemos o amor de Deus por nós porque Ele nos revelou o seu amor por meio do Seu Filho no Espírito. Cristo manifesta o amor de Deus por nós: “Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). Deus manifesta o seu amor por nós comunicando-nos o seu Filho e o seu Espírito.
 
Quando Deus nos manifesta o seu amor, ele nos manifesta  esse amor do modo que Ele é, o amor em si mesmo. Deus nos comunica o seu amor pela unção do Espírito Santo: “Aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele; e nisto reconhecemos que ele permanece em nós, pelo Espírito que nos deu”. (I Jo 3, 24). Deus se comunica e se comunica do jeito que Ele é: Pai, Filho e Espírito Santo.
 
Uma vez que Deus nos revelou o seu amor, nós cremos que Ele é amor porque Ele nos revelou isto. Não é evidente que Deus é amor, nós cremos que Ele é amor, e isto Ele nos deu a conhecer no seu Filho. É Cristo que nos revela a face amorosa de Deus. Portanto, a verdade de que Deus é amor nos vem pela fé.
 
Se eu participo da vida trinitária eu tenho que atuar como Deus atua. A nossa relação de amor com Deus confirma a verdade fundamental “Deus é amor” (1 Jo 4, 8. 16).
 
Assim, como Deus nos comunicou o seu amor, enviando o seu Filho e o Espírito Santo, devemos amar os nossos irmãos e irmãs: “Amados, se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros” (1 Jo 4, 11). Ou seja, “amamos, porque Deus nos amou primeiro” (1 Jo 4, 19).  Desse modo, mesmo que amamos de forma imperfeita precisamos amar.
 
Pois bem! Nós só podemos amar as pessoas porque o amor de Deus é Trindade (é relação de amor entre as Pessoas Divinas: Pai, Filho e Espírito Santo). Nessa relação de amor somos chamados a ser filho no Filho, participando com Ele da dinâmica Trinitária.
 
E a jovem? E a carta? E pergunta dela? Como também nosso relacionamento com as pessoas é imperfeito, eu saí do aniversário sem saber se aquela criatura era verdadeiramente quem havia me perguntado a respeito do amor.
 
Contudo, depois de um mês, a partir daquele nosso  encontro, eu tive a confirmação de minha dúvida: sim, se tratava da mesma jovem. Restava, por fim, entregar a carta ou saber se ela já havia lido no jornal, uma vez que a aniversariante me deu esperança de que nos colocaria em contato.
 
Contava eu que este encontro não me fizesse esperar por mais 12 anos! Mas, como as ações humanas são imperfeitas, não tenho dúvidas de que poderia esperar por mais tempo! No entanto, eu estava enganado: o tempo chegara.
 
Recebi, logo pela manhã, uma mensagem por meio do WhatsApp, dizendo: “Olá Pe. Joacir d’Abadia, sua bênção! Sou a Agna, prima de Aline, a moça da carta [risos]. Eu li sua carta no jornal, lembro que fiquei encantada, muito bem escrita! E o senhor tinha razão, não posso negar mais: o Amor realmente existe! Eu tinha aquela  carta em meus registros de lembranças até há pouco tempo, mas algumas coisas aqui  em casa molharam e a carta mofou, junto com muitas coisas”.
 
Fiquei, por um instante, sem palavras ao receber aquela mensagem. Meu coração pulsou descompassado, minha respiração ficou ofegante e, com a boca seca, fiquei imaginando como é sápido o resultado de uma longa espera! A carta, todavia, havia sido lida, acolhida a partir do jornal; molhou, mofou e desapareceu, respondeu uma dúvida, mas, por sorte, conseguiu imprimir na vida da jovem Agna, uma certeza: “o Amor realmente existe!”.

Padre Joacir Soares d’Abadia, filósofo autor de 12 livros e no mês de março vai lançar mais 3 novos livros: “O Humano do Padre”, “Aos cuidados da sabedoria” e “Vivás-Vasti: o contemplador”. Arte interna: Movidesk. 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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