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Carta para o grandão

Carta para o grandão

Carta para o grandão

05 de julho de 2022. Um mês após o assassinato de Bruno Pereira e Dominic Phillips no rio Itaquaí, Vale do Javari…

Por Beto Marubo

O acampamento está pronto, feito com palhas de cocão. Ouço o barulho das folhas das grandes árvores vindo do leste. Os macacos zogue-zogue anunciam o amanhecer. A terra enlameada do acampamento logo estará vazia, pois as equipes da expedição seguirão viagem rio acima. Os igarapés nas margens dos rios Curuçá e Itaquaí estão secos, onde um bando de queixadas passou ontem. A anta assobia solitária pelo alto rio Jaquirana. A jacutinga canta triste pelas cabeceiras do Jutaí e lá pelas bandas do rio Ituí. Os isolados estão tocando suas flautas, feitas com ossos de macaco preto. Os Korubo estão querendo retornar às suas terras no rio Coari. Os Matis voltaram às pazes com os Korubo, e agora planejam tomar cipó tatxik nas cabeceiras do rio Branco.

Ah, Grandão! Meus parentes Marubo estão nos convidando para tomar rapé nas cabeceiras do rio Kumãya. Os Kamamary querem tomar ayahuasca (rami) nas aldeias do rio Itaquaí. Os Mayoruna querem planejar andanças pelos seus territórios ancestrais, no alto rio Jaquirana. Infelizmente, com a sua passagem, nós conseguimos! Conseguimos que todos vejam as nossas mazelas. Expomos quão esquecidos nos encontramos, nós, povos indígenas do Vale do Javari. Um monte de pessoas no Brasil e ao redor do mundo inteiro estão falando sobre você, Grandão, e sobre o Dom. Agora o mundo inteiro sabe que, no Vale do Javari, reina a omissão, a inação e a política negacionista, a ausência total do Estado em nossa terra, mesmo após um mês do seu assassinato. Sabem até que a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) perseguia e continua perseguindo você. O atual presidente desse país tentou de todas as formas desconstruir a sua história, mas ela se manterá por gerações, pois nós, povos do Vale do Javari, sabemos que você morreu por nós, pela nossa terra. Nunca vamos nos esquecer disso.

A sua luta continuará através de nós e de nossas gerações. Já arrumei a minha mochila. Já até calcei as minhas botas – aquelas que você tanto desdenhava, mas elas são boas, são impermeáveis. Afiei o meu facão – aquele que você também achava pesado demais para uma expedição. Já tomamos o café amargo. Já aconteceu uma primeira rodada de rapé. Todos estão prontos para a partida. Temos de seguir viagem, Grandão. Daqui a pouco o sol ficará quente demais. Há muitos troncos de árvores espalhados em nosso trajeto. Teremos de seguir, tristes, sem a sua companhia. Fique bem, prossiga a sua expedição pelas matas da minha terra.

Vamos nos falando pelos sonhos da ayahuasca.

Oshatso, Grandão!

Foto de capa: Beto Marubo e Bruno Pereira/Arquivo pessoal

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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