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Como sobreviver a 2020

Como sobreviver a 2020

Por Tatiana Dias
Editora Sênior

 

Se você está lendo isso aqui, provavelmente está como eu: exausto, se sentindo bombardeado por notícias avassaladoras e com uma certa sensação de impotência diante do avanço da extrema-direita e tudo de podre que ela carrega: perseguição a opositores, intimidação da imprensa, normalização da violência contra minorias.

Também não é fácil se definir como “esquerda” ou “progressista” hoje em dia. Primeiro pelo motivo óbvio: qualquer coisa que seja minimamente identificada com valores progressistas vira, aos olhos da extrema-direita, um alvo. Depois porque, diferente do outro lado do espectro político, nós parecemos mais desorganizados, mais difusos, presos em disputas internas.

Num cenário desses, como se preparar para 2020, um ano eleitoral que definirá o fim ou a consolidação desse sistema de poder nefasto que tomou o país?

No ano passado, o Intercept lançou uma seção chamada Saídas à Esquerda justamente para discutir essas contradições e apontar possíveis caminhos. Você pode ler entrevistas com a socióloga Sabrina Fernandes e com o governador Flávio Dino, o enorme e complexo perfil da deputada Tabata Amaral e as reflexões de Rosana Pinheiro-Machado. Spoiler: não há fórmulas ou respostas prontas. Mas há perguntas e caminhos – e um deles diz que, primeiro, a mudança acontece por dentro.

Ok, sei que é um clichê falar isso. Mas vou tentar torná-lo mais concreto com a ajuda de textos que nós publicamos ao longo de 2019.

Em agosto, o psicanalista Christian Dunker publicou um pequeno manual sobre como ser feliz em tempos sombrios. Mais do que um guia de autoajuda, o texto é um tratado bem pragmático que faz com que a gente reconheça nossa parcela de culpa na situação política que estamos vivendo e coloque os pés no chão. Ser feliz nesses tempos passa por reconhecer onde erramos, o que deixamos de fazer e como podemos melhorar. “Autocrítica e vergonha são melhores companheiros para escrever a história do que culpa ou esperança”, escreveu Dunker. O psicanalista diz que cada um encontrará o momento do fim do luto e o novo começo – e ele “virá do trabalho alternado de decifração do passado e de criação de futuros mais longos do que quatro anos”.

“Passar tempo com pessoas queridas, cultivar alguma gratidão, qualificar prazeres e sabores podem, lentamente, transformar o medo e culpa na raiva e coragem necessárias para mudar a si e ao mundo. Experimente intensamente o momento presente, em sua infinita tragédia e devastação. Lembre-se de cada passo que nos trouxe até aqui, agora com sobriedade e distância”, escreveu.

Quem já viveu tempos parecidos, em situações parecidas, parece saber do que Dunker fala. O jornalista polonês Piotr Pacewicz  já foi duramente perseguido pelo governo de esquerda na Polônia nos anos 1980 – e hoje, sob o regime de extrema-direita, a situação é ainda pior. O que ele acha? Que vai passar.

Para Pacewicz, que conversou com a gente em outubro, há uma diferença grande entre esperança e otimismo. O segundo é mais racional – e é difícil se apegar a ele. Já a esperança, não. “A minha experiência de vida me diz que você deve manter a esperança porque alguma coisa vai acontecer”, ele contou à editora Paula Bianchi.

“No final dos anos 1980, quando eu estava nessa revista clandestina, nossa circulação estava caindo, nosso apoio estava caindo, as pessoas estavam cansadas de todos esses protestos que não davam em nada, do movimento Solidariedade e tudo o mais… Havia uma apatia social no ar. E de repente nós entramos no próximo estágio da transformação, e da clandestinidade começamos a participar de mesas redondas, de conversas. Participamos de um evento em 1989 em que começamos a negociar com o comunismo como fazer a transição. Foi uma surpresa tão grande que ninguém acreditava que isso estava realmente acontecendo. Você deve sempre manter a esperança em mundo melhor”, ele disse.

A Rosana Pinheiro-Machado é nossa campeã em textos de esperança. Mas não são opiniões ingênuas ou simplistas. São baseadas nas pesquisas dela sobre a nova direita e novas formas de resistência – que nos ensinam muito sobre possíveis caminhos para seguir fazendo diferente. Ela criticou, por exemplo, o fogo amigo contra Tabata Amaral – e levou porrada por isso. Em outro texto, publicado em dezembro, propôs cancelar a cultura do cancelamento que predomina à esquerda, e que acaba segregando em vez de integrar – coisa que a direita faz muito bem.

“Penso que, nas redes e fora delas, uma grande parte da esquerda está mais fechada do que aberta. Repele mais do que acolhe. Cancela mais do que dialoga”, ela escreveu. E continua: “ampliar as bases de diálogo é um dever político – um imperativo histórico de nossos tempos. Infelizmente, o que temos observado é a prevalência do clubismo, revanchismo e cancelamento de membros. Estamos nos fechando enquanto deveríamos estar tentando abrir frentes”.

E como fazer isso? Nós publicamos um capítulo do livro dela que dá algumas pistas. O texto mostra que, apesar de todo o horror, coletivos e movimentos progressistas estão se articulando e fortalecendo – ainda que a gente não veja. Iniciativas de educação, de troca de livros, de formação política de base.

Rosana acredita que, nesses tempos de individualismo atroz e autoritarismo, estar junto também é resistir. “Juntos nos fazemos vivos e lutamos contra a vontade de morte, arma e tortura. Estamos respirando, com nossos sentidos e senso de justiça aguçados. Do colapso, reconstroem-se mundos e modos de vida. Enquanto estivermos em pé, nossa utopia se chamará esperança, a esperança se transformará em luta, e a luta será o próprio amanhã maior e melhor”.

Fonte: The Intercept Brasil

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Uma resposta

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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