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Cora Coralina

Desde Goiás, Cora Coralina: Todas as Vidas

: Todas as Vidas [desde Goiás]

Vive dentro de mim

uma cabocla velha

de mau olhado,

acocorada ao pé do borralho,

olhando pra o fogo.

Benze quebranto.

Bota feitiço.

Ogun. Oxixá.

Macumba, terreiro.

Ogã, pai-de-santo…

 

Vive dentro de mim

a lavadeira do Rio Vermelho.

Seu cheiro gostoso

d´água e sabão

Rodilha de pano.

Trouxa de roupa,

pedra de anil.

Sua coroa verde de São-Caetano.

 

Vive dentro de mim

a mulher cozinheira,

Pimenta e cebola,

Quitute bem feito.

Panela de barro.

Taipa de lenha.

Cozinha antiga.

Toda pretinha.

Bem cacheada de picumã.

Pedra pontuda.

Cumbuco de coco.

Pisando alho-sal.

 

Vive dentro de mim

a mulher do povo.

Bem proletária.

Bem linguaruda,

desabusada, sem preconceitos,

de casca-grossa,

de chinelinha,

e filharada.

 

Vive dentro de mim

a mulher roceira.

__ Enxerto da terra,

meio casmurra.

Trabalhadeira.

Madrugadeira.

Analfabeta.

De pé no chão.

Bem parideira.

Seus doze filhos.

Seus vinte netos.

 

Vive dentro de mim

a mulher da vida.

Minha irmanzinha…

tão desprezada,

tão murmurada.

Fingindo alegre seu triste fado.

 

Todas as vidas dentro de mim:

Na minha vida __

A vida mera das obscuras.

CORA CORALINA 

A poetisa e contista Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, a nossa Cora Coralina, nasceu na Cidade de Goiás, a 20 de agosto de 1889 e faleceu em Goiânia, capital do estado de Goiás, em 10 de abril de 1985

Cora Coralina publicou seu primeiro livro Poemas dos Becos de Goiás e outras Estórias Mais, em junho de 1965,  aos 76 anos de idade. Mesmo assim, a mulher que, de profissão, foi doceira, é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras.

Desde sua “Casa Velha da Ponte”, onde viveu sua fase temporã de escritora famosa, Cora produziu uma literatura rica nas vivências de seu cotidiano entre os becos de Goiás, e, com isso, fez história longe dos modismos urbanos.

 cora-cora

Foto: www.refletirpararefletir.com.br

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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