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Cultura popular é feita na base da teimosia, diz militante quilombola

Cultura popular é feita na base da teimosia, diz militante quilombola

Selma Dealdina avalia que falta apoio para as comunidades quilombolas

Por Alex Rodrigues/Agência Brasil

Aiuê de São Benedito. Festa da Capina. Marambiré. Suça…Graças ao interesse e ao empenho de grupos populares, um amplo conjunto de manifestações culturais tradicionais ainda pode ser apreciado por todo o Brasil. Identificadas exatamente por suas “práticas cotidianas de resistência na manutenção e reprodução de seus modos de vida”, as comunidades remanescentes de antigos quilombos tornaram-se uma das últimas trincheiras não só a preservar, mas também a vivenciar muitas destas tradições transmitidas de geração em geração.ebcebc

Segundo a secretária executiva da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq), Selma dos Santos Dealdina, os folguedos, os ciclos festivos, as danças típicas e outras formas de expressão cultural cumprem um importante papel de coesão social, sendo um componente fundamental para o processo de identificação e reconhecimento das comunidades quilombolas. Além disso, respeitadas suas características, podem tornar-se uma fonte de renda a mais para as comunidades. Tanto que a Conaq pretende pedir apoio federal para mapear os eventos que ocorrem nos quilombos de todo o país a fim de divulgá-los e, assim, atrair quem, por exemplo, se dispuser a acompanhar parte do Ciclo do Marabaixo, em Macapá; dançar ao som dos tambores durante uma das muitas festas dedicadas a Santa Bárbara ou a provar dos pratos típicos da comunidade quilombola Kalunga, em Cavalcante (GO), durante a Romaria de Nossa Senhora da Abadia.

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Ciclo do Marabaixo 2023 celebra as tradições das comunidades negras do Amapá – Gabriel Penha/ Fundação Marabaixo

“A cultura popular é feita na base da militância”, disse Selma à Agência Brasil na última terça-feira (23), quando participou de cerimônia alusiva ao Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento, promovida pelo Ministério da Cultura e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Oriunda de uma comunidade quilombola capixaba, Selma é organizadora do livro Mulheres Quilombolas, Territórios de Resistências Negras Femininas (Editora Jandaíra).

Agência Brasil: Durante a cerimônia, você mencionou que é muito difícil organizar eventos culturais “para o povo preto” em geral, especialmente para as comunidades quilombolas. Quais são estas dificuldades?
Selma Dealdina: São muitas. A gente diz que a cultura popular, tradicional, é feita na base da teimosia. Na maioria dos casos, falta apoio adequado por parte dos espaços públicos, das prefeituras, dos governos estaduais. Até há editais [de apoio financeiro], mas a questão é como chegar para grupos tradicionais de comunidades que muitas vezes não têm sequer energia elétrica, que dirá acesso à internet, e pedir para os integrantes desses grupos se inscreverem nos editais e concorrerem à obtenção de verbas públicas. É necessário levar em conta se as pessoas que deveriam ser beneficiadas por determinada ação entendem [e têm condições de cumprir] os trâmites burocráticos, a exigência de um monte de documentos.

Agência Brasil: Neste sentido que você diz que eventos de cultura popular são feitos na base da teimosia?
Selma Dealdina: Sim. No sentido de que, nesses casos, a cultura é feita na base da militância, por pessoas que, muitas vezes, gastam do pouco que ganham com suas atividades profissionais para comprar as roupas, paramentos e utensílios necessários. Insisto: há editais, mas quem não tem acesso à informação segue na invisibilidade. Isso é uma realidade não só nas comunidades quilombolas, mas basta verificarmos quantos grupos, quantas manifestações de comunidades quilombolas, receberam recursos públicos, seja dos governos municipais, estaduais ou federal. É um número insignificante. Justamente porque essas comunidades têm dificuldade de obter as informações necessárias. E mesmo assim as pessoas seguem fazendo cultura, à sua maneira.

Agência Brasil: O que a Conaq e as comunidades quilombolas têm proposto aos órgãos públicos para corrigir essas desigualdades?
Selma Dealdina: Além de denunciar a histórica falta de apoio e a dificuldade de as pessoas acessarem as formas de incentivo à produção cultural, a Conaq agora tem uma proposta de mapear as diversas manifestações existentes. A ideia é criar um calendário das festas que acontecem nas comunidades quilombolas. Praticamente todos os dias há uma festa ocorrendo em algum lugar do país. Nossa proposta é reunir as informações disponíveis em uma publicação. Para que as pessoas possam saber, por exemplo, que todo mês de maio acontece, na comunidade quilombola de Monte Alegre, em Cachoeiro de Itapemirim [ES], a festa Raiar da Liberdade, que este ano completou 135 anos de existência. Possam saber da festa do Quilombo Mesquita, de Cidade Ocidental [GO]; do bloco afroquilombola existente no Quilombo Acre, de Cururupu [MA]. Cultura nós temos. O que precisamos é que as ferramentas [de estímulo] cheguem à ponta e, com isso, os grupos populares, tradicionais, consigam se manter, preservando o saber e o fazer popular.

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Apresentações e debates marcam a festa Raiar da Liberdade no quilombo Monte Alegre – Secult/Governo do Espírito Santo

Agência Brasil: Este levantamento já está sendo feito?
Selma Dealdina: Pretendemos apresentar o projeto aos representantes do Ministério da Cultura, durante o encontro nacional que realizaremos de 14 a 18 de junho. Deixando claro que este levantamento precisa ser feito por gente das próprias comunidades que, além de tudo, recebam a capacitação necessária. A ideia não é contratar alguns pensadores iluminados de fora da comunidade e mandá-los para os quilombos com seus modos de olhar as manifestações culturais de cada grupo. O olhar de quem vivencia o dia a dia das comunidades quilombolas pode até ser apaixonado, mas é mais apurado para [captar] os vários significados e importância dos fatos.

Agência Brasil: Além da valorização e divulgação da produção cultural quilombola, uma iniciativa como esta tem potencial de fomentar o turismo e a geração de renda local?
Selma Dealdina: Muito. Principalmente quando se trata de festas maiores, como a que acontece no Quilombo do Campinho da Independência, em Paraty [RJ]. Eventos assim geram ganhos para além da comunidade quilombola. Porque essas festas cumprem um ritual comunitário, motivando quem deixou a comunidade a visitá-la, mas também atraem outras pessoas que prestigiam os eventos. Então, há quem se hospede na cidade, quem coma nos restaurantes, use aplicativos ou táxis. Na própria comunidade quilombola há os ambulantes; há a venda de produtos e do artesanato feito por moradores. E estes, ao receberem, vão fazer suas compras no mercadinho, na padaria, movimentando a economia local. Nestas comunidades, R$ 10 mil em circulação já representa muito, principalmente porque é uma quantia que fica com quem efetivamente faz a festa. O mais importante, no entanto, é que estas festas e manifestações culturais tradicionais são uma oportunidade para as pessoas conhecerem a História do Brasil.

Agência Brasil: Em que sentido?
Selma Dealdina: Nós, brasileiros, não conhecemos a história dos quilombos e a exata importância dos negros e das negras para a construção deste país. O que estudamos nas escolas até há pouco tempo era uma mentira que só nos últimos tempos começamos a reescrever. A invisibilidade e a negação da participação negra na história faz com que as pessoas desconheçam a real história do país. E a situação dos quilombos é um exemplo disso. Boa parte das pessoas conhece um pouco sobre Zumbi dos Palmares, se tanto. E os que vieram resistindo após isso? E [a líder quilombola do século 18] Teresa de Benguela? [A abolicionista do século 19] Adelina, a Charuteira? Todas as pessoas importantes que não conhecemos?

Agência Brasil: Como a preservação dos costumes e das festas tradicionais pelas comunidades quilombolas dialoga com as ações de regularização dos territórios remanescentes de quilombos?
Selma Dealdina: Todas essas manifestações são levadas em conta durante a produção dos relatórios antropológicos. A história da comunidade é contada a partir das suas festas, do cemitério e da igreja locais, das pessoas mais velhas… Ela é contada sempre a partir de um fato, de um momento histórico, de uma luta que a comunidade travou. Ou seja, não é possível contar a história das comunidades quilombolas desassociadas de suas manifestações culturais, sem levar em conta os elementos históricos de organização social. Seja uma ladainha, uma reza, um forró ou um jogo de futebol – inclusive, não conheço nenhuma comunidade quilombola que não tenha ao menos um campo de futebol.

Agência Brasil: Ao contribuir para valorizar a cultura de determinado grupo e, em alguns casos, proporcionar renda, eventos tradicionais podem estimular as pessoas, principalmente os jovens, a permanecerem em suas comunidades?
Selma Dealdina: Ajudam, mas esta questão é bastante complexa. Não há, hoje, como manter um jovem no quilombo sem lhe oferecer determinados bens e serviços. Tem que preservar certas formas de manifestação da cultura local, mas também tem que ter internet no quilombo. Tem que ter uma escola de qualidade – e é importante dizer que há quilombos onde existem campus universitários. É necessário levar em conta que, assim como há quem queira ir para as cidades, há também os jovens que querem ficar [na comunidade], trabalhar na roça, viver do campo, mas sem abrir mão de ter um celular, um bom sinal de internet. E há aí uma outra questão, que é o direito de quem permanece em sua comunidade de origem a acessar os bens culturais aos quais quem está nos grandes centros urbanos têm acesso. Para isso, é preciso tornar a cultura um direito cidadão de fato. É necessário uma política de Estado. Até porque, isso impede que o governo A ou B desmanche o que seus antecessores criaram. Além disso, a cultura tem que ser transversal. Se nos quilombos há espaços como os Cras [Centro de Referência de Assistência Social], Creas [Centro de Referência Especializado de Assistência Social], associações, igrejas e escolas públicas, eles têm que ser utilizados como ferramentas de acesso público à cultura onde possam ser feitas apresentações de peças teatrais, shows musicais e outros eventos que a comunidade também quer ver.

Agência Brasil: Falamos bastante sobre a importância da cultura, mais qual é, atualmente, a principal reivindicação do movimento?
Selma Dealdina: Nossa principal luta continua sendo pela titulação dos territórios quilombolas. E não é de hoje. Há mais de 1,7 mil processos parados no Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária]. A demora na titulação dos territórios agrava o conflito no campo. Estamos falando de mais de 6,5 mil quilombos no Brasil, espalhados por mais de 1,6 mil municípios de 24 das 27 unidades federativas do país. Há quilombos urbanos que sofrem com a expansão imobiliária em torno das comunidades, que é o caso do Quilombo Sacopã, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul do Rio de Janeiro. Sem a titulação dos territórios quilombolas, não há como fazer muita coisa, mesmo havendo políticas públicas importantes. Como o Estado vai nos dar sementes se não tivermos terra para plantar? Como vamos construir novas casas para a comunidade que cresce se não há mais terras? E aí, voltamos ao fazer cultural que, como eu disse no começo, ocorre na base da teimosia, da resistência. Porque se você corre o risco de ser expulso a qualquer momento do seu território, todas as manifestações tradicionais associadas a aquele lugar, a aquele grupo de pessoas, tende a se acabar.

Fonte: Alex Rodrigues/Agência Brasil            Capa: Antônio Cruz/Agência Brasil/Reprodução


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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