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De Paraguaçu e Caramuru à necessária decolonização

De Paraguaçu e Caramuru à necessária decolonização

Por Iêda Vilas-Bôas      

Nesse tempo em que ser indígena representa, ao mesmo instante, ser resistência e ameaça aos vis interesses de garimpeiros, desmatadores, exploradores e grileiros é necessário refletir sobre a história e agir para que mudanças imediatas aconteçam.

Ainda lateja em nossas cabeças o discurso preconceituoso e xenofóbico do chefe máximo do governo: “aos indígenas nem um centímetro de terra, digo, nem um milímetro”, e este texto tem a pretensão de fazer homenagem a uma mulher indígena, e nos dá a exata dimensão da colonização ocorrida neste país de riquezas e belezas mil.

Trago, pois, a saga de Catarina Paraguaçu Álvares, nascida na Bahia, em 1503 e ali também falecida em 26 de janeiro de 1583. Teve vida longa essa linda representante do povo Tupinambá.  O seu verdadeiro nome era “Guaibimpará” – Mar Grande, segundo consta em certidão de seu batismo (30 de julho de 1528 em Saint-Malo, na França, e encontrada no Canadá). O nome Paraguaçu – “Água Grande” foi trocado já por sua união com Diogo Álvares e assim, ficou conhecida e retratada no poema épico Caramuru de frei Santa Rita Durão.

Paraguaçu merece destaque por sua latente atuação na fundação da cidade de Salvador. Apesar de ter se afastado da cultura de seu povo, pôde mostrar seu valor feminino, sua inteligência e astúcia e ainda demonstrou, naqueles idos, que uma indígena podia liderar e ser amada. Paraguaçu cortou mares e aportou na França de Catarina de Médicis e daí veio sua outra alcunha e graça.

Antes disso tudo, precisou que um navio naufragasse em costas brasileiras, na localidade de Maiririquiig (atual largo da Mariquita, no bairro do Rio Vermelho) em solo baiano e sobrevivesse Diogo Álvares Correia, o Caramuru. Esse apelido foi dado pelos indígenas ao encontrarem o sobrevivente em uma loca, escondido, se assemelhando com um caramujo ou ainda a um peixe moreia.

À primeira vista, seu fim estaria perto, pois os Tupinambás praticavam o canibalismo. Esse ritual fazia parte da cultura desse povo. Ao se alimentarem de um branco ou de inimigos, acreditavam que a força do guerreiro sacrificado também passaria a habitar neles. Porém, o naufrago carregava uma espingarda e o Cacique Taparica resolveu poupar o moço. Ofereceu sua mais bela filha ao português e ganhou a arma de presente. Daí para frente estabeleceu-se uma amistosa relação entre os Tupinambá e Caramuru.

Essa história já foi contada em série na TV e no filme Caramuru A Invenção do Brasil, de Guel Arraes. Depois de ser acolhido pelos Tupinambá e seu Cacique Taparica, que habitava o local, ele teve a oportunidade de conviver com os indígenas e se envolveu com as nativas. Conta-se que teve filhos com muitas delas, incluindo Moema, irmã mais velha de Paraguaçu que foi por Caramuru abandonada, para depois levar Paraguaçu para a França e desposá-la segundo costumes europeus.

Caramuru passou a integrar a tribo e a praticar sua cultura e costumes, representou importante papel e mostrou seu valor de guerreiro fiel ao enfrentar outra tribo e ajudar os Tupinambá a vencer uma batalha na ilha do Medo/Baía de Todos os Santos, perto da capital baiana. Como prêmio e presente: o direito de se casar com a filha do cacique.

Paraguaçu enfeitiça o navegante Diogo Álvares Correia que, caído de amores, a toma como legítima esposa. Dessa forma, passa a ser a mãe dos primeiros mestiços entre brancos e índios legitimamente reconhecidos no Brasil. Forma a primeira família miscigenada brasileira. Ela facilmente se adapta à cultura colonizadora e ajuda o marido na tarefa de fundar Salvador; abriu igrejas e protegeu conventos. Em testamento existente até hoje no Mosteiro de São Bento da Bahia, legou todos seus bens aos monges beneditinos. Os restos mortais de Paraguaçu estão na Igreja e Abadia de Nossa Senhora da Graça, em Salvador.

Existe também uma imagem de Catarina Paraguaçu que se encontra aos pés do Caboclo do Dois de Julho, monumento localizado na Praça do Campo Grande no centro de Salvador. Comprova-se, portanto, a real significância da indígena para a construção da capital baiana.

A índia tupinambá Catarina Paraguaçu, nascida na Ilha de Itaparica, tem o seu nome definitivamente ligado à história da formação do Brasil, que começa na Bahia. A importância da índia nas plagas baianas pode ser medida pelas referências à sua figura em Salvador.

Catarina Paraguaçu, então, foi levada à aldeia onde Caramuru morava, ficava no atual bairro da Barra, e lá passou a morar, tornando-se esposa de Caramuru. Em 1528, Catarina Paraguaçu teria sido a primeira brasileira a ser batizada pela Igreja Católica com o nome de Catherine du Brésil. Era o início de uma história de amor, de conquista, mas também de renegação cultural e de menosprezo pelos costumes indígenas. Ela deixou também a crença em Tupã e passou a ser uma dedicada devota à fé cristã e à Virgem Maria. Existe uma tela a óleo no Arquivo Público do estado da Bahia de Manoel Lopes Rodrigues, que retrata a devoção de Paraguaçu aos costumes religiosos católicos.

Depois, em 1534, com a implantação das capitanias hereditárias, o donatário Francisco Pereira Coutinho passou a ameaçar a convivência dos índios e os negócios de Caramuru, cuja influência sobre os índios havia diminuído consideravelmente. Porém, o estrago cultural era irreversível haja vista que os Tupinambá tiveram contato com outro tipo de poder e para os portugueses o valor dos indígenas era bem ínfimo. Sequer eram considerados como seres pensantes.

Em 1549, Tomé de Sousa foi designado Governador-geral do Brasil pelo rei de Portugal e aportou na Barra, em Salvador, para oficializar a fundação da cidade. Nesta história Paraguaçu, como indígena e como mulher, também não seria bem-vinda.

O casal passou a ser vítima de diversos tipos de explorações europeias, eles foram despejados de sua terra no bairro da Graça em Salvador e obrigados a se mudarem para um terreno em uma área mais afastada. Foram jogados no esquecimento social e conheceram o preconceito e a pobreza. Paraguaçu continuou firme ao lado do esposo, de seu amor. Foi exemplo de mãe e mulher de força. Diogo sucumbiu, ela partiu muitos anos mais tarde.

Fica para todas as brasileiras e todos os brasileiros uma profunda reflexão sobre a necessária decolonialidade. Precisamos resgatar a importância dos povos indígenas. Valorizarmos suas múltiplas culturas. Encontrar um caminho para resistir e desconstruir padrões estabelecidos pelos que nos impingiram, inclusive, a mudança de nosso idioma original e materno.

Conceitos e perspectivas foram impostos aos povos indígenas de maneira a deixá-los subalternos e humilhados durante quase seis séculos. E continua vigente a sanha de destruição dessas culturas e povos. Que possamos pensar a decolonização como processo de libertação, que pensemos uma modernidade diferentemente da que foi realizada e que saibamos respeitar o que não é igual.

Por uma nova postura territorial, ambiental e governamental, que respeite nossa ancestralidade indígena. E para Catarina Paraguaçu, um salve! 

ieda villas boasIêda Vilas-Bôas (1963–2022) – Escritora. Conselheira da Revista Xapuri. Partiu desse mundo em 08.04.2022. 

 

 


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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