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Deu Lula de novo, com a força do povo!

Deu Lula de novo, com a força do povo!

“Nossa voz foi ouvida. Nosso sorriso se abriu. Nossa esperança voltou. Nossa luta não vai parar. Deu Lula de novo, com a força do povo.” Assim o jornalista Mauricio Falavigna encerra seu primeiro artigo pós-vitória do Presidente Lula no blog https://recontaai.com.br/, logo depois do segundo turno das eleições de 2022. Lúcido e emocionante, o texto de Falavigna traça o roteiro da resistência democrática do povo brasileiro que levou Lula, pela terceira vez e com o maior número de votos de nossa história, a voltar à presidência do Brasil em 1 de janeiro de 2023. Vale a pena conferir. (Kleytton Morais)…

Por Kleytton Morais e Mauricio Falavigna 

Foi a segunda vez em que um ex-presidente, após um intervalo de seu governo, concorreu à Presidência da República. E ganharam nas duas ocasiões, com a memória se associando à esperança, com a benção dos trabalhadores e dos excluídos, como um ato de resistência popular contra uma elite entreguista e escravagista. Não por acaso, Lula e Getúlio são símbolos da massa – e alvos de ódio dos setores mais conservadores, privilegiados e subservientes ao capital externo.

Algumas similaridades entre as eleições. Em 1945, Getúlio foi deposto por militares e não pôde participar das eleições. O queremismo levou milhares às ruas exigindo seu nome no pleito, mas militares e STF impediram. Inúmeras manifestações, décadas depois, protestaram contra o golpe, a saída de Dilma e a prisão de Lula, impedido de concorrer em 2018. E quem ganhou as eleições foram militares, um general lá e depois um capitão. Ambos contaram, em sua trajetória ao poder, com o beneplácito norte-americano

Durante o governo Dutra, Getúlio articulou-se com outros partidos, gerando polêmica entre seus apoiadores – se Alckmin foi uma aliança controversa, se o PSB foi alvo de críticas de militantes petistas, Getúlio trouxe o PSP de Ademar de Barros (que indicou Café Filho para ser vice) e conseguiu apoios individuais importantes do PSD e da própria UDN para sua candidatura. Assim como agora, São Paulo concentrava a maior rejeição a um governo popular e trabalhista.

O PSD, o apoio que seria mais natural, insistiu em uma candidatura própria, Cristiano Machado, em papel semelhante ao de Ciro, deu origem ao termo “cristianizado”: foi abandonado pelo próprio partido. A direita concentrou-se na continuidade militar com o Brigadeiro Eduardo Gomes. A plataforma de campanha era antitrabalhista – ele queria acabar com o salário mínimo – e entreguista, pregando que empresas estrangeiras explorassem nosso petróleo. A campanha de Vargas concentrou-se em temas sociais, garantias trabalhistas, desenvolvimento e nacionalização da Petrobras.

Os grupos políticos eram similares, como não poderia deixar de ser. De 1951 a 1964 e de 2016 para cá, as forças conservadoras apelaram para todas as suas armas. As grandes riquezas, empresários, Forças Armadas, mídia e lideranças religiosas atacaram opositores com todo o vigor. O mais revelador entre essas semelhanças é que, apesar da diferença de contextos, o temário não saiu de cena. A luta entre Capital e Trabalho voltou a ser explícita, o combate à desigualdade e à miséria estão na ordem do dia, o privatismo voltou ao embate contra a presença do Estado, a atuação militar na política é sentida, setores estratégicos como energia elétrica e petróleo voltam a ser palcos de disputas.

Mas o feito de Lula foi ainda maior, sua volta foi mais árdua. Em primeiro lugar, porque a extrema direita assumiu o governo. Uma mídia corporativa muito mais complexa facilitou a desestabilização de Dilma e garantiu uma eleição fraudada, com Lula preso. O Judiciário abriu as portas aos militares. Os grandes noticiários engajaram-se na criminalização do PT e de Lula. Uma farsa imensa como a Lava Jato foi criada como arma perene contra a “corrupção” – e para minar indústrias nacionais. A presença do capital externo hoje é muito maior, com lobbies no Congresso e valores que dominam o jornalismo e a indústria do entretenimento. O lado conservador da sociedade foi armado legalmente, a eliminação de esquerdistas foi incentivada. As PM’s hoje são um exército de reserva, uma espada suspensa sobre a cabeça de pobres. Pastores neopentecostais se espraiam pelas periferias e pelo Brasil profundo, conquistando mentes e almas com um discurso moralizante, antipolítico, que prega a subserviência de mulheres e pobres, que demoniza o desenvolvimento e a esquerda.

Temos um lugar comum a que todos os brasileiros remetem, o de “não termos memória”. Mas foram eleições em que a memória, afetiva e pragmática, levou as massas a sentirem seu voto, seu candidato, depositando suas esperanças e, lá no fundo, suas pequenas vinganças.

E não “assistimos calados”, outra frase feita de alguns intelectuais inconformados. Na eleição de hoje, em um ambiente dominado pelo radicalismo das elites, assumindo espírito e práticas fascistas, os sem voz saíram vencedores. A maior estratégia de comunicação da campanha deste governo, mais que as conhecidas notícias falsas semeadas em aplicativos, redes, rádios, tevê e templos, foi a intimidação. Ameaças de demissões e espancamentos tornaram-se homicídios nos últimos dois meses. Assassinatos, agressões, armas sacadas na ruas, campanhas que chegaram ao homicídio para forjar falsos atentados, superando qualquer facada mal compreendida…

E aqui cessam as similaridades e comparações. Até porque Lula teve algo que Getúlio não conheceu. Ele é inspiração e fruto do maior partido de esquerda latino-americano, com uma militância persistente, que não sucumbiu a seis anos de ataques, humilhações públicas, perdas de direitos, que insistiu em se manter altiva, mesmo sob o domínio da mentira e da violência. Da vigília em Curitiba à festa na Paulista, um caminho foi traçado. 

Um caminho de resistência, de perseverança e de lutas políticas incessantes que levaram Lula ao lugar que lhe pertencia moralmente desde 2018. Será preciso superar os donos do país, a elite do atraso, os senhores de engenho, os rentistas privilegiados e seus cães da mídia. Mas a partir de amanhã. Hoje, 30 de outubro, o desejo de construirmos novamente um País renasceu, para a incredulidade de uma parcela considerável dessa gente. Há apenas dois anos, nos davam por mortos e calados. Hoje mostramos que estamos vivos e na luta.

Nossa voz foi ouvida. Nosso sorriso se abriu. Nossa esperança voltou. Nossa luta não vai parar. Deu Lula de novo, com a força do povo.

Kleytton Morais é Presidente do Sindicato dos Bancários. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri. 

Mauricio Falavigna é jornalista do Reconta Aí e colaborador eventual da Revista Xapuri. 

Block

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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