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Egle Vannuchi Leme, Presente!

Egle Vannuchi Leme, Presente!

Por: Camilo Vannuchi

Faleceu neste sábado, 9 de fevereiro, aquela que ficou conhecida como mãe de Alexandre Vannucchi Leme. Alexandre tinha 22 anos e cursava Geologia na USP em 1973, quando foi assassinado sob tortura no DOI-Codi de São Paulo. A equipe que o torturou e matou respondia ao comando de Carlos Alberto Brilhante Ustra. “Mandei teu amigo para a Vanguarda Popular Celestial”, admitiu o coronel ao receber na sala de tortura, pouco depois, um colega de Alexandre, Adriano Diogo. Enquanto Adriano era torturado, funcionários do DOI-Codi jogavam água no chão e puxavam com rodo os restos de sangue de Alexandre.

O corpo de Alexandre foi ocultado de sua família e enterrado como indigente no cemitério Dom Bosco, em Perus. Dias depois, jornais divulgaram a versão oficial: Alexandre fora atropelado por um caminhão ao tentar fugir da polícia, no Brás. No dia de sua morte, a versão era outra. Carcereiros correram todas as celas do DOI-Codi em busca de instrumentos cortantes afirmando que um preso havia acabado de se suicidar, cortando os pulsos.

Egle Vannucchi Leme e seu marido José iniciaram ali o périplo habitual, em busca do direito secular de enterrar seus mortos. Agentes da polícia política e agentes do serviço funerário, vinculados à prefeitura, sabiam a identidade do cadáver que enterraram às pressas, sem nenhum rito, em vala comum. Sem isso não seria possível constar seu retrato, seu nome e sua filiação em matéria publicada no jornal sobre o atropelamento fictício. A opção foi por tirar-lhe os documentos e sumir com tudo. Apenas 10 anos depois, em 1983, José e Egle conseguiram localizar o corpo e fazer o traslado dos restos mortais para Sorocaba, sua terra. Seu filho deixava de ser um desaparecido da ditadura para se tornar um morto da ditadura. Em 2013, Alexandre foi anistiado in memoriam.

Egle foi uma dessas tantas mulheres que, tendo sobrevivido aos anos de chumbo, dedicou sua vida a buscar, investigar, decifrar, batalhar, exigir. Uma mulher como Clara e Clarice, como Ilda e Zuzu, como Ana e Eunice, mães e esposas que construíram a luta por memória, verdade e justiça.

Hoje os três da foto estarão reunidos. Que eles possam mandar de lá as melhores vibrações e permanecer vigilantes. No Brasil de 2019, até no céu é preciso estar atento e forte.

Egle Vannuchi 1

ANOTE: Texto e foto da página do Camilo Vannuchi no Facebook.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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