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Não haverá democracia no Brasil sem Lula

Não haverá democracia no Brasil sem Lula

Não adiantam as especulações sobre o espólio de Lula. Não haverá espólio simplesmente porque ou Lula participa diretamente na disputa presidencial ou não haverá democracia no Brasil. Com Lula preso ou impedido de se candidatar, o processo politico estará castrado. Nenhum outro candidato tem a força indispensável para enfrentar a brutal ofensiva da direita contra a democracia, contra os direitos da massa da população e contra a soberania popular.

Por Emir Sader 

A prisão de Lula completa o golpe, que derrubou Dilma Rousseff e tenta tirá-lo da vida política nacional. Prendê-lo foi a forma mais direta de impedir que ele siga suas pregações por todo o país, como único líder político que faz isso em escala nacional, diretamente, em todos os rincões, para todos setores populares. Essas pregações são indispensáveis para o combate à alienação da massa da população, à sua falta de organização, falta de representação política.

A retomada das Caravanas é condição indispensável para derrotar a direita golpista, seu governo e suas politicas antipopulares, antidemocrática e antinacionais. Para isso é fundamental, é requisito indispensável a liberdade imediata do Lula.

Não haverá derrota do regime de exceção, se a perseguição ao Lula não for revertida. Se Lula nao for libertado e puder ser candidato. E só com a liderança do Lula e sua capacidade de mobilização popular, será possível essa derrota.

A direita conseguiu reverter a situação politica de maneira violenta e brutal. Derrubou uma presidenta reeleita e prendeu o Lula. Ninguém pode garantir que estará a salvo desse tipo de operação, se fizer parte, de uma ou outra forma, da esquerda. Ciro Gomes comete erro irreparável ao colocar sua candidatura supostamente acima da luta pelos direitos do Lula. Aparece como um individualista, que só pensa na sua carreira. Dane-se a democracia, dane-se o Brasil. Está irremediavelmente condenado ao anonimato. Não tem a confiança da esquerda e tampouco da direita.

Os que se jogam na luta pela libertação do Lula, incluído a Manuela e o Boulos, se situam no campo popular, mais além das suas ambições como candidatos. Sabem que o futuro das forças democráticas, tanto os partidos, quanto os movimentos sociais, se joga agora e através do destino do Lula.

No Chile, por exemplo, os setores mais radicalizados da esquerda, em particular o MIR, acreditavam que, com o golpe que finalmente derrubou a Salvador Allende, o espaço da esquerda ficaria livre para eles. Se equivocaram radicalmente. A repressão não poupou a ninguém – partidos, grupos políticos menores, sindicatos, movimentos sociais, impondo uma brutal derrota à toda a esquerda.

O lawfare se exerce da forma mais escandalosa contra o Lula. Já não há mais Estado de direito. O que há são conveniências politicas, como o voto da ministra Rosa Weber escancarou. A impunidade de Sergio Moro é o fim do Judiciário no Brasil. Enquanto ele continuar a fazer o que bem entender, da forma mais arbitrária possível, fazendo das atribuições que ele reivindica instrumento do seu poder pessoal.

A velha mídia segue comportando-se da forma canalha como sempre. Passou a ter como seu objetivo fundamental participar da perseguição ao Lula. Não importa se com isso se destrói a democracia no Brasil. Elas não vivem de democracia. Colocam o pouco prestigio que ainda tem às infâmias contra o Lula e contra o PT. Se considera vitoriosa pela derrubada da Dilma e pela prisão do Lula. Se condenam definitivamente ao repudio de todos os que prezam minimamente a democracia. Fracassaram em construir uma candidatura com um mínimo de apoio popular e se contentam em tentar manter o Lula fora da disputa eleitoral.

No Congresso, os chacais só pensam na sua reeleição. Abandonam o governo e seus projetos, sabem que não serão ninguém e podem até ser presos, se não preservam seus mandatos. Reduziram o tempo de campanha para dificultar ainda mais a renovação do Congresso. São ratazanas que tem ser repudiadas o tempo todo durante a campanha eleitoral.

A luta pela libertação do Lula e pelo seu direito a ser candidato é a luta de todas as forcas democráticas, conscientes de que não haverá democracia no Brasil sem Lula, livre e candidato a presidente.

Lula democracia sader pbFoto: lula.com.br

 

 


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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