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Escola Agrícola Municipal Lucila Saad Batista: Patrimônio Educacional de Formosa

Conta a memória oral que a Escola Agrícola de foi criada em 1988, no último ano de gestão do prefeito José Saad. Também se sabe, pelo relato do formosense Heli Dourado, à época deputado estadual, que aqueles 55 hectares da Fazenda Campo Limpo, alocados para a escola, vieram de terras tomadas pela União de um proprietário estrangeiro, que as comprou ilegalmente.

“Descoberta compra, vetada pela Constituição Federal, a União destinou a área para promover um grande assentamento da . Foi aí que, como deputado, juntamente com o prefeito Zezito, incluímos no projeto a Escola Agrícola, para atender as famílias de assentados que começavam a se instalar no local”, conta Heli.

“Garantida a terra, conseguimos recursos da União para a construção dos primeiros prédios de um projeto pioneiro, que deveria ter até mesmo um internato para alojar estudantes de outras regiões de Formosa e de outros municípios goianos. Zezito deixou a estrutura montada para que a escola pudesse funcionar já no ano seguinte, na gestão do prefeito Jair de Paiva”, conclui Heli.

OS TEMPOS DE ILÍDIA E DE LUCILA

Duas mulheres fizeram a Escola Agrícola acontecer: Ilídia de Paiva, a primeira diretora, e Lucila Saad Batista, a primeira técnica agrícola. Ilídia, professora recém-aposentada, foi “convocada” para colocar a escola de pé. “Chamei a Ilídia pra cuidar da , abrir o internato. E o Clarival de Miranda, meu secretário de Administração, escolheu a Lucila que, em pouco mais de um ano, tornou a escola autossuficiente na produção da merenda escolar. Com elas não existia dia nem hora, só o agora”, lembra Jair.

“O desafio era enorme. Nem eu nem a Lucila entendíamos nada de ensino agrícola. Saímos de Formosa, de ônibus, para visitar as escolas-modelo de Ipameri e Urutaí. Na volta, montamos uma equipe mínima e botamos a mão na massa. Eu era a gerentona, era chamada de dama de ferro, dizem que eu era brava mesmo.  Mas felizmente muitos de nossos ex-alunos são hoje agrônomos, juízes, professores. A grande maioria seguiu carreira, o que era raro para crianças pobres da zona rural naqueles tempos”, diz Ilídia com orgulho.

“As duas formavam um time imbatível. Ilídia conseguia mobilizar as melhores cabeças e produzir resultados acadêmicos excepcionais. Já Lucila era a alma da escola, a amiga de todo mundo, a que conseguia tudo com a sua frase clássica: “Tá bom, se você não puder ajudar, eu mesma faço”. “É muito justo que a Escola Agrícola tenha hoje seu nome porque, sem a garra de Lucila, a Escola Agrícola não existiria”, diz Clarival.

“Lucila partiu cedo, num trágico acidente no caminho de Brasília, onde também dava aulas, infelizmente não pôde acompanhar os resultados do nosso trabalho, mas, por mim e por ela, eu sinto um orgulho danado quando encontro um ex-aluno nosso dizendo do quanto a Escola Agrícola foi importante na vida dele”, completa a primeira diretora, Ilídia de Paiva.

A HORTA ORGÂNICA MUNICIPAL DE FORMOSA

Depois da gestão bem-sucedida de Ilídia e de Lucila, embora viesse sendo gradualmente debilitada – o internato acabou, os prédios foram fechados, o provimento de verduras para a alimentação escolar deixou de existir –, por mais de uma década a escola conseguiu manter sua horta como instrumento educacional de prática agrícola.

As coisas mudaram de vez há cerca de doze anos, quando a área de oito hectares onde funcionava a horta foi informalmente cedida pela Administração Municipal a um casal de agroecologistas para a implantação de uma horta orgânica. Para Robertinho Marques, tratorista, funcionário da escola desde a sua fundação, há quase 30 anos, o que era para ser um avanço acabou virando uma grande dificuldade.

“No tempo da Lucila a gente trabalhava dia e noite, atendia as escolas, produzia excedente pra vender na Feira e ajudar nas despesas da horta, e ainda tinha aluno aqui, mexendo na terra, fuçando pra todo lado. Depois, o espaço fechou, ficou só pra pesquisa, e a produção reduziu tanto que não dava mais pra atender nem as creches”, explica Robertinho.

Ângela Maria Marques de Araújo, professora da escola há 23 anos e diretora em parte desse período, corrobora: “A relação foi ficando complicada. A escola sempre soube pelos funcionários das visitas ilustres, mas nunca recebeu um único relatório sobre os experimentos ali produzidos”.

Ângela agrega: “Além de receber alimentos insuficientes para a merenda escolar, a horta, que era para ser pedagógica, passou a negar o acesso aos alunos. Ante o risco de perder a condição de escola agrícola por falta do espaço para a prática estudantil, o jeito foi criar outra horta, e esquecer daquele pedaço da escola. Foi o que fizemos, para ter um mínimo de paz e seguir com o projeto”.

Fabiano Rabelo de Mendonça, presidente do Conselho Municipal de Educação, confirma ter havido, no ano de 2014, um debate no Conselho sobre uma possível perda da condição de Escola Agrícola pela ausência de estudantes nas práticas da horta orgânica. Não nos foi possível, entretanto, localizar a Ata ou qualquer outro documento referente a essa reunião.

TRANSIÇÃO TRAUMÁTICA

A 17 de janeiro de 2017, o novo prefeito municipal, Ernesto Roller, determinou o retorno da horta para a gestão da própria escola. “Foi uma decisão necessária, a Administração não tinha como justificar a cessão informal daquele espaço público, nem a alocação de mais de 30 servidores para uma atividade privada e, do ponto de vista da educação municipal, excludente, onde não cabiam os alunos da própria escola”, explicou Ernesto.

Nas semanas seguintes, a diretora da escola, Luzia Dias da Costa Oliveira, executou a reintegração de posse e a adequação do espaço para a volta das práticas pedagógicas. Dentre suas primeiras ações, Luzia promoveu uma “limpeza” da área e solicitou da Superintendência Municipal de autorização para a poda de algumas árvores. A autorização, assinada pelo superintendente Ian de Moraes Thomé, chegou no dia primeiro de fevereiro.

Antes mesmo da resposta do superintendente, denúncias graves sobre o desmonte da horta com qualificação de crime ambiental circularam na internet. A escola foi acusada por Lucieli Cantuária, ex-gestora da horta, de derrubar as barreiras de proteção natural, destruir os corredores ecológicos e, mais grave ainda, de utilizar na área de produção orgânica.

Nas semanas que se seguiram, a Xapuri buscou apurar os fatos. Entrevistado por telefone, o prefeito Ernesto Roller informou que tornou público, no dia 15 de fevereiro, o Termo de Ajuste de Procedimento 001/2017, com o seguinte teor:

“… A Horta Municipal de Formosa sofreu uma denúncia com relação a um procedimento à base de glifosato para controle de capim do gênero Brachiaria. Em uma vistoria realizada pela Superintendência de Meio Ambiente, foi confirmada a veracidade da denúncia. O local onde foi realizado o procedimento é uma área coberta pelo referido capim [fora da área de produção orgânica] e corresponde a uma Área de Preservação Permanente – APP, que será reflorestada com do (…) Diante de todas as colocações ficou deliberado em reunião com o Prefeito Municipal Ernesto Guimarães Roller e com o Secretário de Assuntos Econômicos e Meio Ambiente, Gustavo Marques de Oliveira, que serão adotados os seguintes procedimentos: a) Reflorestamento Integral da Área de Preservação Permanente – APP; b) Isolamento total da área de 0,431 hectares, onde foi aplicado o herbicida; c) Proibição de pessoas e animais dentro do perímetro isolado; d) Medida de punição corretiva ao funcionário responsável pelo procedimento, alertando-o sobre o objetivo da horta, quais procedimentos podem e não podem ser realizados dentro do seu perímetro; e, e) Garantia de que o produto utilizado não irá afetar a produção futura de hortaliças, e que o fato ocorrido não irá se repetir.”

OS TEMPOS DE LUZIA

Desde 2015, uma enérgica professora de nome Luzia tornou-se diretora da Escola Agrícola por meio do voto direto. De lá pra cá, Luzia explica que vem se dedicando a colocar nos trilhos o projeto original da Escola.

“Comecei por retomar a construção de parcerias, especialmente com os chacareiros da região. Muitas dessas famílias tiveram todos os seus filhos estudando aqui e por décadas foram parceiras nossas, era preciso fazer um esforço para trazê-las de volta para o nosso convívio. ”

A chacareira Terezinha , cujos três filhos foram alunos da escola, aplaude a iniciativa: “Com Luzia, todo mundo está voltando a ajudar a escola. Nos tempos da [horta] orgânica, a gente parou de ajudar porque o pessoal de lá vinha aqui, buscava caixas e caixas de verdura e entregava nas escolas como se fosse produção deles. A gente não gostou e caiu fora. ”

Em dois anos, Luzia explica que conseguiu transformar o prédio abandonado do internato em escola infantil; retomou a produção da lavoura – hoje, com a ajuda dos produtores da região, planta milho e feijão em cerca de 22 hectares; e começou a produzir peixes e leite para a merenda dos 450 alunos matriculados no ano de 2017. “Nossa tarefa agora é aprender mais sobre para aumentar a produção orgânica da horta e, assim, gerar mais alimentos saudáveis para nossas creches, escolas e hospitais, ” completa Luzia.

Para o professor Neudson Rosa Gonçalves, coordenador técnico da escola, com a volta da horta, os tempos de Luzia serão tempos de prosperidade e de bonança: “Nossos alunos voltarão a brilhar no universo acadêmico, como nos tempos de dona Ilídia. Nossa horta voltará a gerar excedentes, como nos tempos de Lucila. Seremos felizes de novo. ” Assim se espera.

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Fotos: Iasmin Reis

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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