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Espionagem cubana impôs uma série de vexames aos EUA

Como a espionagem cubana impôs uma série de vexames aos EUA

“Eles ultrapassaram a KGB em termos de habilidade comercial, motivação e resistência à penetração. Eles nos venceram”, diz um ex-chefe da contraespionagem da CIA

Por André Cintra/Portal Vermelho

A revelação do caso Victor Manuel Rocha, em dezembro, forçou os Estados Unidos a, enfim, reconhecerem o óbvio: o país, governo após governo, subestimou a espionagem cubana, sofrendo uma série de derrotas e vexames atípicos. Ex-embaixador dos EUA na Bolívia, Rocha, considerado um conservador, foi preso em Miami sob a acusação de ter colaborado com Cuba por 40 anos. Colombiano naturalizado norte-americano, ele era um espião da Dirección General de Inteligencia, a célebre “la Dirección”.

O governo cubano não se pronunciou a respeito, mas a denúncia soa verídica por uma razão nada complexa: é historicamente raro que um agente engane o governo dos EUA por uma única década – quem dera quatro. A CIA (Central Intelligence Agency), todo-poderoso serviço norte-americano de inteligência, sai da história um pouco mais desmoralizada.

Não havia razão para tanto alarde da grande mídia internacional. O documentário televisivo 638 Ways to Kill Castro (“638 maneiras de matar Castro”), exibido pelo Channel 4, do Reino Unido, em 2006, fazia uma revelação contundente o bastante para comprovar a eficiência dos serviços de inteligência de Cuba: de 1959 a 2008, Fidel Castro, o líder da Revolução Cubana, foi alvo de nada menos que 638 planos para assassiná-lo.

Segundo Fabián Escalante, segurança pessoal de Fidel e coordenador do serviço de contrainformação cubano, a imensa maioria desses planos fracassados foi patrocinada pela CIA. O livro escrito por Escalante sobre o tema foi a base para o documentário. Segundo ele, até a máfia chegou a ser contratada para colaborar com a investida. Dos 638 planos, 197 foram elaborados no governo Ronald Reagan (1981-1989) e 184 na gestão Richard Nixon (1969-1974) – dois mandatos do Partido Republicano.

Ainda que os números possam estar inflacionados, a pergunta mais elementar a se fazer é: como Cuba conseguiu proteger Fidel desses ataques por 49 anos? A CIA foi bem-sucedida no assassinato de líderes latino-americanos como Rafael Trujillo na República Dominicana e Jacobo Árbenz na Guatemala, além de ter se envolvido diretamente em golpes no Brasil (1964), na Bolívia (1971) e no Chile (em 1973). Por que Fidel e Cuba não caíram?

Outro caso público notório é o dos “cinco cubanos” – Antonio Guerrero, Gerardo Hernández, Fernando González, Ramón Labañino e René González –, que formaram a Rede Vespa. Agentes cubanos de inteligência, eles foram condenados e presos em Miami, sob falsas acusações de conspiração e terrorismo.

Os “cinco”, uma vez disfarçados de exilados do regime socialista e instalados nos EUA, conseguiram prevenir mais de 170 atividades terroristas. A ação deles foi decisiva para desmascarar e vencer uma onda de ataques lideradas, sobretudo, pelo ex-agente da CIA Posada Carriles na década de 1990. De volta a Cuba, após cumprirem penas de 15 a 17 anos, eles foram condecorados como “Heróis da República”.

Carriles e os Estados Unidos queriam aterrorizar o regime porque o turismo havia se firmado como uma fonte crescente de recursos para Cuba após o fim da União Soviética e do chamado “período especial”. A Rede Vespa não apenas deteve a ofensiva como mandou um recado para a Casa Branca: a inteligência cubana era muito mais sofisticada do que previam – ou queriam admitir – os “especialistas” norte-americanos.

Para isso, tanto os serviços de espionagem quanto os de contraespionagem precisam entregar resultados confiáveis, de modo permanente, estável e seguro. A longeva proteção à vida de Fidel também dependeu do êxito desses serviços.

Mas os jornais norte-americanos e estrangeiros preferiram relativizar as notícias mais favoráveis a Cuba, chegando a pôr em xeque até a veracidade de alguns dados. As tentativas de atentados à vida de Fidel seriam uma fantasia anti-EUA. Os “cinco heróis” deveriam ser mesmo terroristas, já que foram julgados e derrotados no Judiciário norte-americano. A narrativa da CIA sobre esses fatos era dada como verdade absoluta.

Eis que, agora, emerge a história de Manuel Rocha. Afinal, como uma “ilhota” em gravíssimas dificuldades econômicas e sob um criminoso bloqueio desde 1961 consegue impor uma situação tão vexatória à CIA e aos Estados Unidos? Como foi possível que, por 40 anos, um espião se infiltrasse no governo norte-americano e fornecesse informações tão privilegiadas a Cuba?

Rocha serviu aos EUA em diversos órgãos federais, como o Departamento de Estado, o Conselho de Segurança Nacional e o Comando Sul do Exército, além da embaixada na Bolívia. Por um descuido, sua identidade secreta foi desvendada em 2022: ele se encontrou em Miami com um membro do Departamento Geral de Inteligência de Cuba e confidenciou sua origem.

O suposto “cubano”, porém, era agente disfarçado do FBI (Federal Bureau of Investigation), o departamento federal de investigação dos EUA. Toda a conversa entre eles foi gravada. “O que foi feito fortaleceu a Revolução – fortaleceu-a imensamente! Não podemos colocar isso em perigo”, disse Rocha ao falso cubano. Ao ser preso, ele era acusado de conspirar, servir ilegalmente como agente a governo estrangeiro e usar passaporte obtido mediante falsas declarações. Nos bate-papos gravados, ele chamou os EUA de “inimigo”, e Fidel, de “comandante”.

Conforme o procurador-geral Merrick Garland, que divulgou o caso em dezembro, os “postos” de Rocha espião no governo lhe garantiram “capacidade de influenciar até a política externa nos EUA”. Tratava-se, segundo Garland, de “uma das infiltrações de maior alcance e mais duradouras no governo dos EUA por um agente estrangeiro”.

Leal à Revolução Cubana, Manuel Rocha, hoje com 73 anos, vendia-se como um direitista. Na Bolívia, como embaixador, foi filmado fazendo um discurso duríssimo contra a candidatura presidencial do líder dos produtores de folha de coca Evo Morales. “Como representante dos EUA, quero recordar ao eleitorado boliviano que vocês podem eleger a quem desejarem, para fazer com que que a Bolívia volte a ser um importante exportador de cocaína. Isto deixará em perigo o futuro da assistência à Bolívia”, disparou o diplomata.

Isso foi em 2002, e Evo só venceria a eleição seguinte, em 2005. Assim como o líder dos cocaleros aproveitou o discurso para reforçar seu discurso anti-imperialista, Rocha se notabilizou junto a setores mais radicais da direita norte-americana. Antes da Bolívia, ele já havia servido como diplomata em países como Argentina, Cuba e República Dominicana, de modo mais discreto.

Há sempre o recurso de classificar um espião bem-sucedido como um gênio, uma figura fora de série. O problema é que não se sabe a dimensão da lista de norte-americanos que já espionaram ou ainda espionam para Cuba. Em 2001, o FBI anunciou a prisão de uma dessas espiãs, a lendária Ana Montes. Desde 1985, ela trabalhava na Agência de Inteligência de Defesa (DIA) dos EUA. Sua missão: ser a principal analista para questões políticas e militares relacionadas a Cuba. Ao longo de 16 anos, a agente recebeu dez prêmios especiais da CIA.

Na realidade, Ana já servia a Cuba desde que entrou na DIA, de onde extraiu informações confidenciais para repassar para “la Dirección”. Segundo Peter Lapp, agente do FBI que a investigou, “ela está entre os espiões mais importantes que o governo dos EUA prendeu desde a 2ª Guerra Mundial e é uma das que causaram mais danos na história moderna”. Pela “traição”, Ana foi condenada a 25 anos de prisão.

Com o caso Manuel Rocha, a inteligência cubana volta aos holofotes. “É provável que eles sejam o serviço de inteligência mais difícil contra o qual já trabalhei. Eles são muito bons”, declarou à BBC James Olson, ex-chefe da contraespionagem da CIA. “Eles ultrapassaram a KGB (o serviço secreto da ex-União Soviética) em termos de habilidade comercial, motivação e resistência à penetração. Eles nos venceram.”

Fonte: Portal Vermelho Capa: Reprodução


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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