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Notas sobre feminismos brancos em missão salvacionista

Nada de novo no font: Notas sobre feminismos brancos em missão salvacionista –

Por Raial Orotu  Puri –

Nesses últimos dias, como não raro acontecer, um assunto tem rodado e se repetido nas conversas e debates que travei, e em algumas notícias que chamaram minha atenção nos últimos dias.

Acredito que pode ser um texto difícil de ser lido por algumas pessoas, mas penso que para mim é indispensável escrevê-lo. Como dizem, a falta de posicionamento, as vezes, é a pior forma de posicionamento.

Nesse sentido, sinto a necessidade de tecer algumas considerações sobre determinadas militâncias que acabam perpassando a nossa existência, que acaba sempre sendo necessariamente plural em termos de vivências e experiências.

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Ocorre que nas últimas semanas, volta e meia um assunto tem rondado meu cotidiano, tanto o virtual quanto aquele das relações do plano do real.

Nada de novo no front, a propósito, posto que minha vida se desenrola em um mundo onde machismo, racismo e violência são presenças constantes.

O que há, talvez, de novo em tudo isso é que nesse interim houve também o realce de algo que sempre esteve nas entrelinhas da minha percepção, mas que a partir de algumas manifestações mais contundentes demonstrou de forma clara e precisa como certas vertentes e certas militâncias feministas são também territórios onde a exclusão, violência, racismo e silenciamento também se mostram presentes.

Quero destacar aqui que um dos pivôs desse embate se deu a partir do conhecimento que tive, e da divulgação que fiz de uma Nota escrita pela Comissão Kunhá’Gué Règuá, dando voz às parentas da Tekoa Itakupe acerca da situação por elas enfrentada em face daquilo que chamaram de “feminismo genocida”.

Sei que se tratou, sem dúvida, de uma nota bastante veemente e contundente, um protesto em ira contra a forma como se sentem em relação à maneira como algumas feministas brancas tratam as mulheres e os povos indígenas.

E sim, eu sei, é importante contextualizar, é importante entender e interpretar corretamente tanto o que foi dito, o modo como foi dito, e a quem foi dirigido esse manifesto. E, de fato, o que me motiva a escrever esse artigo não é necessariamente a nota em si, que eu compreendo e considero uma manifestação absolutamente legítima, mas o modo como se deu a reação à mesma, tanto da parte de parentes indígenas, quanto dos não-indígenas que leram a mesma, e acabaram tecendo considerações a respeito da mesma.

Algumas das quais bem óbvias, outras tantas carentes de sentido, e, é claro, muitas delas nada mais do que a reprodução exata dos comportamentos que a Nota denunciava, quais sejam, deslegitimação e incompreensão do lugar de fala, do contexto do mundo, das experiências de vida, e da realidade com a qual se está lidando.

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Eu sempre penso que o óbvio, por ser óbvio, não precisaria ser dito, mas eu cada vez mais sei que isso é um ledo engano, tão insustentável que não pode jamais se recorrer a ele. Infelizmente, o óbvio precisa sim ser dito, estampado em letras garrafais: quando se pensa em culturas indígenas deve se ter sempre em mente três coisas fundamentais.

Uma é a imensa diversidade de nações que compõe o mosaico das populações originárias que residem no Brasil hoje. A outra, é que qualquer consideração acerca desses conteúdos culturais tão diversos deve ser feita a partir de seus próprios conteúdos, e nunca a partir do ponto de partida da cultura e dos valores brancos. A terceira, que para mim é provavelmente a mais trágica é que não se pode sequer pensar em tratar os povos indígenas e suas culturas sem perceber que nossa história, nossos valores, nossa cultura e nosso mundo são sobreviventes, e estão atravessados por cinco séculos de Genocídio.

Isso, meus caros,  não pode nunca deixar de ser levado em consideração, qualquer que seja a sua apreciação sobre o que e quem somos, sobre como vivemos e sobre o modo como reagimos às tentativas de intervenção externas, mesmo pretensamente bem intencionadas.

É nesse sentido, primeiramente, que eu compreendo a reatividade das parentas autoras da Carta ao modo messiânico salvacionista das feministas com as quais elas tiveram contato. Entendo perfeitamente aquilo que ali denunciam: a maneira que chegam, as reações que têm aquilo que para as parentas não é considerado nada além do que valores culturais que elas reconhecem como legítimos e necessários ao equilíbrio do mundo – e acreditem, equilíbrio do mundo é uma das coisas mais fundamentais para nós indígenas, e vocês nem fazem ideia da quantidade de mediações que precisamos fazer cotidianamente para que esse equilíbrio seja mantido – e, por fim, o modo como a visão distorcida e baseada em preceitos brancos acaba por gerar consequências funestas.

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É também nesse sentido que eu entendo também até o que não foi dito na carta: sei exatamente qual ‘vertente’ feminista a qual pertencem essas feministas brancas com as quais as parentas tiveram contato.

Sei, porque depois de um certo tempo a gente aprende a reconhecer pelo discurso qual é o grupo de filiação e afinidade dentre as muitas que compõe isso que costume ser visto sob a unidade de ‘feminismo’.

E sim, apesar de muitas vezes saber que nós indígenas somos vistos como ‘uma coisa só’, eu não vou devolver na mesma moeda, e vou sim reconhecer que existem sim vertentes feministas que possuem discursos diversos, alguns até consideravelmente inclusivos, e que existem também grupos que são basicamente nada mais do que grupos de ódio integrados exclusivamente por mulheres – e que têm uma visão bastante excludente do que constitui ser mulher.

Sim, precisamente. Me refiro aos grupos conhecidos genericamente como RADFEM e TERF, mas que possuem sim outras designações, mas cujos discursos não diferem muito uns dos outros. E só abrindo um parêntesis, sinceramente até acho algo irônico a aproximação de tal tipo de feminismo dos povos indígenas, visto que, como já apontei em textos anteriores, existe uma familiaridade imensa entre nossas lutas e dores de um grupos mais odiados por essas vertentes, as mulheres e homens trans.

Só para recuperar o argumento, acontece o seguinte: tanto os indígenas, quanto as/os trans passam por dores e opressões em certa medida semelhantes, naquilo que se refere à negação de identidade, às vezes, até de humanidade, à falta de respeito, à carência de incompreensão por parte de poderes constituídos, à legação à uma existência marginal ao seio da sociedade branca.

A diferença está no fato de que a nós, essa sociedade branca foi imposta, e, no caso delas e deles, é a própria sociedade da qual fazem parte que nega a sua pertença.

Mas daí, entram as críticas e as relativizações sobre o conteúdo da já citada Nota das parentas… Os olhares preocupados, as ponderações sobre ser ruim atacarmos ‘nossas irmãs’, sobre ‘o inimigo é o patriarcado’, sobre ‘como o machismo está internalizado demais’. É importante frisar que essas manifestações partiram, como disse antes, tanto de mulheres e homens indígenas, bem como de não indígenas, cada um deles com a sua dose de ‘mansplaining’ sobre o caso (Como já abordei em outro texto, esse é um termo do inglês que se traduz como ‘homem explicando’, e significa o ato bastante comum sobretudo em homens de achar que uma mulher não entende bem de determinado assunto, e por isso, é preciso explicar para ela o que de fato está acontecendo, ou explicar para as pessoas o que ela realmente quer dizer, porque ela não é capaz de se expressar adequadamente).

Bom, sobre isso, vamos aos diversos poréns sobre esse tipo de posicionamento.

Primeiro de tudo, e antes de mais nada: Ninguém, em tempo algum ignora que homens indígenas podem ser machistas. Podem. Bastante. E contra isso luta-se sim. Muito. Agora a luta contra isso não necessariamente obedece à mesma lógica branca, e nem se pauta sobre as mesmas questões. E existirão casos em que as parentas não irão necessariamente nunca, em tempo algum, entender determinadas coisas como machismo. E não, isso não é uma questão de internalização de machismo necessariamente.

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É preciso ficar muito claro, muito, muito, muito mesmo, que quem tem de decidir, refletir e dar a palavra final sobre o que é ou não machismo são as mulheres indígenas, e essa reflexão e decisão deve ser feita de maneira o mais livre possível, sem alguém para conduzir e dizer o que e como ela deve pensar. Isso é arriscado? Tanto quanto viver é. Incerto? Tanto quanto pensar é. Pode demorar? Às vezes mais do que uma vida. E sim, pode ser que o resultado desse processo reflexivo conclua que não, aquela prática, costume, ou seja o que for, mesmo que ela aterrorize e ojerize o seu coraçãozinho branco, não seja nunca entendido como machismo pelas parentes que o vivenciam. E se de fato se quer levar a sério a descolonialidade do pensamento, é assim que tem de ser.

E é também necessário entender que muitas pautas de mulheres brancas simplesmente não são pauta para as indígenas. Seja porque nossas preocupações são outras, seja porque nosso contexto é diverso, existem coisas que não estão em nossas preocupações, e existem pautas que para nós são muito mais prementes e imprescindíveis.

Em segundo lugar, sobre o ‘patriarcado’, é algo que preciso repetir: não dá para sair por aí enfiando conceitos goela abaixo sem pensar em contexto. E patriarcado é apenas um deles. E é também necessário se entender o que é contexto indígena e o que é contexto indígena influenciado pelo colonialismo branco. Em muitos povos com os quais convivi, inclusive o meu, boa parte das manifestações machistas que testemunhei e sofri eram nada mais do que repetições de comportamentos ruins absorvidos do mundo branco.

Porque sim, como já dito antes, essa convivência forçada a que estamos submetidos faz dessas – tristes – coisas. Assim como um câncer, esses elementos externos se fixam, destruindo tecidos bons, e contaminando de morte enquanto não sejam extirpados. E, para retirá-los, as vezes é preciso intervenções violentas. Mas, mais uma vez repito que esses movimentos devem partir de fora para dentro, da reflexão e iniciativa daquelas que de fato se sentem vítimas e não de messianismos brancos, que quase sempre só pioram as coisas.

Em terceiro lugar, sobre ‘nossas irmãs’. Bom, esse é um ponto que sei bastante delicado, dentro de uma visão de que ‘mulheres não podem oprimir’. Gente, desculpem, mas esse conceito é tão pobre e ausente de verdade que tendo a achar que as pessoas não o dizem a sério. Olha, é preciso entender opressão tem a ver com exercício de privilégios e vantagens sociais e uma mulher branca vai sempre ter vantagens e privilégios contra qualquer outra que não seja branca.

Sendo assim, não ter um comportamento opressor é algo que precisa ser constantemente trabalhado, justamente porque algumas dessas práticas são quase automáticas. Nessa seara constante, o ponto de partida está sempre em reconhecer privilégios. Sei que as vezes esse exercício é dolorido, mas acreditem, vai doer bem menos em você do que a dor que você impinge no outro oprimindo-o.

E isso está em mim também. Porque, apesar de indígena, eu sou também fruto desse mundo. E passei muito tempo entre brancos para ignorar o quanto de privilégios tenho. Tenho sim. Em relação a minha própria família, meu próprio povo. Mesmo o fato de ter uma pele branca – fato esse que eu odeio durante boa parte do meu tempo livre – é uma vantagem do ponto de vista da sociedade não-indígena: Eu tenho ‘passabilidade’ branca, e, em um mundo onde ter cara de índio pode ser suficiente para sofrer um ataque racista, isso é privilégio sim, sem dúvida. A questão está em reconhecer, e não usar em desfavor de alguém.

Eu entendo que é canastrão demais ignorar o quanto o feminismo é branco e elitista, e que mesmo as suas vertentes mais abertas e inclusivas ainda são bastante exclusivas no tocante às suas adeptas. Por esse motivo, o feminismo branco tem tanta dificuldade para abarcar e envolver a própria diversidade inerente ao seu mundo, e de dialogar adequadamente com a mesma, dar voz e protagonismo a mulheres negras, pobres, ribeirinhas, quilombolas, pescadoras, ciganas, cristãs, não-cristãs, bissexuais, trans, somente para citar algumas. Imaginem então o que é para esse feminismo lidar com mais de 300 diferentes visões de mundo?

E, nesse processo de ‘não saber lidar com’ existe sim muito apagamento, muita invisibilização, muito silenciamento, muito ‘veja bem, você não entendeu’, muita falta de noção, muita violência e muito racismo. Deixar de dizer isso simplesmente porque as autoras de tais práticas são mulheres é, no mínimo, irresponsável. E, dentro da perspectiva que eu citei acima, de que é indispensável que quem detém privilégios reconheça tal condição e lute para não aplicar essa vantagem em desfavor de outrem, apontar e indicar que isto acontece é sim uma tentativa de chamada à reflexão.

Raial foto pintura jiboia

 

ANOTE AÍ:

Raial Orotu Puri (Andréia Baia Prestes Puri) é graduada em Direito e  doutoranda em antropologia pela UFPR. Mora no Acre onde atua na Divisão Técnica do IPHAN/AC e na Assessoria Jurídica da Federação do Povo Huni Kuin do Acre (FEPHAC)

As imagens desta matéria foram selecionadas por nosso parceiro Jairo Lima (www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br) Créditos das imagens:  Imagem 1: Blog do Netuno; Imagem 2: Petterson Silva; Imagem 3: Victor Gomes; Imagem 4: Blog do Netuno; Imagem 5: Josane Biscegli

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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