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Governo intensifica ação contra garimpo em território Yanomami após assassinato de indígena

Governo intensifica ação contra garimpo em território Yanomami após assassinato de indígena

Após morte de agente de saúde indígena e ataque contra equipes do Ibama e PRF, ministra do Meio Ambiente disse em coletiva de imprensa que ações em território Yanomami serão intensificadas.

Por Michel Esquer/O Eco

“A insistência em permanecer, mesmo com todos os esforços para o convencimento da saída pacífica, é uma demonstração de que existem forças muito poderosas economicamente por trás dessa ação criminosa”. Essa foi a afirmação da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Marina Silva, em coletiva de imprensa que tratou do atentado de garimpeiros contra a terra indigena (TI) Yanomami, em Roraima. O episódio resultou na morte de Ilson Xirixana, agente de saúde yanomami, e deixou outros dois indígenas feridos neste sábado (29).  

“O garimpeiro pobre não consegue fretar uma aeronave, um garimpeiro pobre não consegue ter um barco potente com um motor potente, um garimpeiro pobre não consegue fazer abastecimento de comida”, disse Marina na segunda-feira (1º), acompanhada das ministras Sônia Guajajara (Ministério dos Povos Indígenas) e Nísia Trindade (Ministério da Saúde), do presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, entre outros representantes do governo federal, que viajaram até Boa Vista (RR) depois do atentado.

Nas redes sociais, Marina Silva disse que entre 75% e 80% dos garimpeiros já foram retirados da TI Yanomami. Um sobrevoo foi feito sobre a comunidade Uxiu nesta segunda, onde o atentado foi registrado. Segundo a ministra, foi possível observar que vários garimpos foram desativados, “estão abandonados”. “Mas alguns, segundo dados do satélite e pelo que podemos observar, continuam ativos e precisarão ser desativados”, afirmou na coletiva. 

De acordo com a ministra Sônia Guajajara, a preocupação é que tudo aconteça da forma mais pacífica possível. “A gente não está de forma alguma incentivando esses conflitos. A gente quer amenizar essa situação, não queremos derramamento de sangue”.

Em nota, a Hutukura Associação Yanomami (HAY) e Texoli Associação Ninam do Estado de Roraima (Taner) disseram que o atentado que vitimou o agente de saúde aconteceu durante uma cerimônia fúnebre. Foi de um barco com seis garimpeiros que transitava no rio Mucajaí que teriam partido os disparos contra os yanomami. Segundo as organizações, as lideranças indígenas da comunidade Uxiu informaram que estão preparadas para atacar qualquer garimpeiro que se aproximar de comunidades nas margens do rio Mucajaí. 

“Isso significa que pode ocorrer a qualquer momento mais uma tragédia naquela região”, disse a nota publicada pela HAY e Taner.  

A ministra do Meio Ambiente afirmou que as ações contra o garimpo em território Yanomami serão intensificadas a partir de agora. “Vamos reforçar as equipes do Ibama, da PRF, da Polícia Federal (PF), com o suporte das Forças Armadas, que é fundamental o suporte logístico. Toda a parte operacional para que a gente possa dar uma resposta à altura”, declarou. 

Segundo o presidente do Ibama, o serviço de inteligência da operação que atua na TI Yanomami têm encontrado fortes indícios de que alguns pontos de garimpo ainda ativos estão sendo mantidos com o apoio de organizações criminosas. 

No domingo (30), por exemplo, o Ibama e a Polícia Rodoviária Federal (PRF) também foram atacados a tiros por garimpeiros, em outra região da TI. As equipes dos órgãos fiscalizavam uma área de garimpo ilegal no território Yanomami, um dia depois do atentado que vitimou indígenas na comunidade Uxiu, quando foram atacados. Quatro garimpeiros morreram, segundo o MMA. 

“Uma das pessoas que veio a óbito […] tinha um envolvimento muito forte com uma das organizações criminosas”, apontou Agostinho. “Isso tudo vai ser apurado dentro do inquérito conduzido pela Polícia Federal”, acrescentou. Um desses garimpeiros, segundo o Ministério do Meio Ambiente, é foragido da Justiça no estado do Amapá. 

O presidente do órgão ambiental endossou que a orientação, neste momento, é de intensificar o trabalho até que acabe com a ilegalidade na área. “O Ibama não vai sair da terra yanomami tão cedo enquanto a gente não ver esgotado essa atividade ilegal naquela região”. 

Sônia Guajajara reafirmou que a ofensiva contra a ilegalidade dentro do território não irá recuar. “O importante é que se entenda que essa ação integrada vai ser fortalecida e a gente vai continuar até que cessem todos esses conflitos. Até que sejam retirados todos os garimpeiros de dentro do território Yanomami”. 

Marina defendeu que o governo federal tomou as providências para que o processo acontecesse de forma pacífica. “O que não está acontecendo de forma pacífica não é em função da ação do governo. É em função da ação dos criminosos”, denunciou ao enfatizar que as barreiras instaladas na TI apenas impedem a entrada, e não a saída de garimpeiros. 

“É feito um processo de identificação prévia. Os [garimpeiros] que não são considerados criminosos perigosos tem um encaminhamento e os que são têm que ter um encaminhamento para as devidas penas legais”, disse a ministra. 

“A abordagem do governo está sendo o tempo todo humanitário. Mas não vamos confundir agora que as vítimas, que são os os indígenas, estão criando problema para os garimpeiros. São os garimpeiros que criaram um problema social, ambiental e um problema de destruição de um povo, de uma etnia”, concluiu Marina Silva. 

Mais oito corpos

A ((o))eco, a PF disse que está investigando a morte de outras oito pessoas, que tiveram os corpos encontrados na TI Yanomami depois do atentado de sábado. A instituição não informou se estes tratam-se de indígenas ou não indígenas.

Os corpos e o local onde estes estavam foram periciados nesta terça-feira (3). Junto com as demais forças de segurança que atuam na TI, a PF articulou a retirada dos corpos da região. A causa da morte está sendo apurada a partir de exames médicos legais e “coleta de outras informações que auxiliem na elucidação do ocorrido”.  

*Atualizada às 9h, do dia 03/05/2023, com resposta da Polícia Federal

Michel Esquer – Jornalista. Fonte: O Eco. Foto: Reprodução –  Terra Indígena Yanomami, em Roraima, em abril de 2021. Este artigo não representa a opinião da Revista e é de responsabilidade do autor.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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