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Groenlândia é mais vulnerável ao aquecimento do que se pensava, diz estudo

Groenlândia é mais vulnerável ao aquecimento do que se pensava, diz estudo

Cientistas descobrem degelo maciço ocorrido há 400 mil anos, que elevou nível do mar em 1,4 metro.

Por Leila Salim/ O Eco

DO OC – Os efeitos futuros das na elevação do nível do mar podem ser ainda mais graves do que se pensava. Estudo publicado hoje (20/7) pela revista Science  revelou que o manto de gelo da Groenlândia sofreu derretimento maciço há cerca de 400 mil anos, elevando o nível do mar em 1,4 metro pelo menos. Até hoje, cientistas acreditavam que a ilha tivesse sido capaz de preservar grande parte da capa glacial que cobre 80% de seu território na maior parte dos últimos 2,5 milhões de anos.

A descoberta acende um alerta. O aquecimento natural ocorrido entre 424 e 374 mil anos atrás foi moderado e gerou, segundo os cientistas, um “derretimento drástico”  — e isso diante de uma concentração atmosférica de CO2 estimada em 280 ppm (partes por milhão, que mede a proporção de moléculas de CO2 em relação às outras moléculas na atmosfera). Hoje, a concentração do principal gás de efeito estufa é de 420 ppm.

Os efeitos do resultante da ação humana nas geleiras da Groenlândia já são visíveis desde os anos 1990. Atualmente, o manto de gelo da ilha — o segundo maior da Terra — é o que mais contribui individualmente com o aumento do nível do mar no globo. Cerca de 25% do total da água em excesso nos oceanos é advinda do derretimento do manto da Groenlândia.

O que a nova descoberta aponta é que a rapidez e intensidade desse processo podem ser muito maiores do que se avaliava. “Isso indica que o manto de gelo da Groenlândia pode ser mais sensível às mudanças climáticas causadas por ação humana do que se entendia anteriormente, e estará vulnerável a um derretimento irreversível e rápido nos próximos séculos”, diz o artigo.

A pesquisa foi liderada por Drew Christ, da Universidade do Estado de Utah, e Paul Bierman, da Universidade de Vermont, ambas nos Estados Unidos, e contou com 18 cientistas, filiados a 14 instituições de diferentes países. Os pesquisadores são categóricos: sem redução nas emissões de gases de efeito estufa e contenção do aquecimento global, há indicação de degelo massivo na Groenlândia.

O aquecimento até aqui já “contratou” um degelo irreversível. No ano passado, estudo publicado na revista Nature Climate Change apontou que, mesmo que as emissões de gases de efeito estufa parassem imediatamente, o derretimento do manto de gelo da Groenlândia acrescentaria 27 centímetros ao nível do mar. A nova descoberta mostra que esse aumento pode ser muito maior.

Futuro quente, com indundações e sem gelo

A pesquisa publicada hoje analisou sedimentos de um núcleo de gelo coletado em uma base secreta que o exército dos EUA mantinha no noroeste da ilha durante a Guerra Fria, literalmente dentro do gelo. A base, denominada Camp Century, foi construída nos anos 1960, para testar uma ideia insana de transportar mísseis nucleares por baixo do gelo groenlandês sem que os soviéticos soubessem e posicioná-los mais perto da Rússia.

No Camp Century foi feita uma perfuração no gelo para estudar sua composição química e seu movimento. Do buraco, de 1,3 km de profundidade, foi extraído um cilindro de gelo (“testemunho”, no jargão dos glaciologista) e, embaixo dele, uma amostra de pouco mais de 1 metro de solo congelado. Essa amostra de sedimento ficou perdida por décadas num freezer nos EUA e só foi redescoberto em 2017, acidentalmente. O núcleo encontrado continha sedimentos, folhas e musgos, que seriam vestígios de um tempo em que o local da cidade subglacial americana era uma paisagem sem gelo (talvez uma floresta boreal, aponta a pesquisa).

A partir daí os pesquisadores buscaram entender há quanto tempo essas plantas existiram naquela área. Eles utilizaram técnicas avançadas de luminescência e análise de isótopos para determinar a época e a duração do período em que o noroeste da Groenlândia ficou sem gelo.

A luminescência é um método científico que permite determinar a idade dos sedimentos analisados e, assim, entender como eventos geológicos se desenvolveram no passado. Já a análise de isótopos (que são variantes de um mesmo elemento químico) fornece informações sobre o ambiente em que os sedimentos foram encontrados, e permite que variações climáticas passadas sejam analisadas através do entendimento de mudanças nas temperaturas e nível dos oceanos.

Assim, descobriu-se que há “apenas” (em termos geológicos) 416 mil anos o gelo naquela área havia desaparecido. Modelagens computacionais mostraram que, para que o local do Camp Century descongelasse, o manto groenlandês precisaria ter perdido gelo equivalente a uma elevação de 1,4 metro no nível do mar.

“Até recentemente, os geólogos acreditavam que a Groenlândia fosse uma fortaleza de gelo, majoritariamente não derretida por milhões de anos. Dois anos atrás, utilizando esse núcleo de gelo redescoberto no Camp Century, essa equipe de cientistas mostrou que provavelmente o derretimento havia acontecido há menos de um milhão de anos. Outros cientistas, trabalhando no centro da Groenlândia, coletaram dados que mostraram que o gelo naquela região derreteu pelo menos uma vez nos últimos 1,1 milhão de anos. Mas, até esse estudo, ninguém sabia exatamente quando o gelo havia desaparecido”, diz o artigo.

Segundo os autores, o estudo apresenta evidências diretas de que o sedimento encontrado abaixo da camada de gelo foi depositado por água que fluía de um ambiente livre de gelo. Esse “passado sem gelo” se deu no período chamado de Estágio Isotópico Marinho 11, considerado de aquecimento moderado e ocorrido entre 424 e 374 mil anos atrás. “É a primeira evidência sólida que grande parte do manto de gelo da Groenlândia desapareceu quando a região aqueceu”, declarou Paul Bierman. A compreensão do passado da Groenlândia é, segundo a pesquisa, crucial para a previsão de como o seu imenso manto de gelo irá responder ao aquecimento global no futuro e o quão rapidamente irá derreter. Segundo Bierman, o passado da Groenlândia indica um futuro quente, com inundações e majoritariamente sem gelo para a Terra, “a menos que possamos diminuir drasticamente a concentração de CO2 na atmosfera”.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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