Inaiê, Dandalunda, Rainha do Mar. Nossa Mãe Yemanjá. Odò Yiá!  

Inaiê, Dandalunda, Rainha do Mar. Nossa Mãe Yemanjá. Odò Yiá!  

Iêda Vilas-Bôas e Reinaldo Filho Vilas Bôas Bueno

Em 2022, Yemanjá ou Iemanjá será uma das regentes do ano. Juntamente com ela aparem o Orixá Exu, Oxumaré e os Ibejis. Iemanjá vem para aliar a esperança da renovação nos conflitos do cotidiano. Yemanjá, a Orixá do mar amenizará os movimentos do mundo, é ela quem nos dará forças e autoconfiança para enfrentarmos os muitos obstáculos do ano que se inicia.

Iemanjá, orixá feminina, filha de Olokun, herdeira e protegida do soberano dos mares, recebeu dele a missão de cuidar das águas salgadas. A linda Iemanjá se casou com Olofin-Oduduá e com ele teve dez filhos, que posteriormente se tornaram também orixás. Assim, Iemanjá é conhecida por ser a mãe de todos.

O seu nome tem origem nos termos do idioma Iorubá (língua nigero-congolesa) Yèyé omo ejá, que significam “Mãe cujos filhos são como peixes”. É considerada a mãe de todos os adultos e a mãe dos orixás.

Conta a lenda que Yemanjá, depois de amamentar seus filhos, tenha ficado com os seios enormes e fora hostilizada por seu primeiro marido e também pelo segundo, que caçoaram do tamanho desproporcional de seus seios. A bela então se transformou em um rio que desaguava no mar. O rio que representa Iemanjá e sua história é o Rio Ogun, localizado no estado de Oxum, na Nigéria.

Iemanjá recebe muitos nomes: Dandalunda, Rainha do Mar, Janaína, Inaê, Princesa de Ayocá, Marabô, Maria, Mucunã, entre outros, e tem correspondência no sincretismo religioso com Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora da Piedade e com a Virgem Maria.

Para as religiões afro-brasileiras é a Soberana Rainha do mar. A que tem toda força, poder e magia. A que é o próprio mar, com suas variações: ora o mar atento, por se debruçar em ondas sobre si mesmo, com suas belas ondas indo e vindo, mostrando para nós o quão cíclicas são as coisas. Sempre vão. Sempre voltam.

Ora outra, a tempestade, a fúria em ondas gigantescas e avassaladoras.

Sua energia é representada pela força que vem do mar: forte, algumas vezes serena, dominante. O mar que com seu sal representa purificação e limpeza e que possibilita ligações entre tudo, pois sem o sal a vida não tem tempero.

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Dona dos dois polos e de pulsante vibração: a tranquilidade do mar ou as tempestades. Em sua polaridade mítica ela vai desde a guerreira e exigente mãe da maioria dos orixás até a mãe calma que acolhe, que educa, que transforma e ampara.

Iemanjá tem seu dia comemorado no dia 2 de fevereiro, em Salvador, capital do estado da Bahia, onde acontece a maior festa popular dedicada a Iemanjá. Milhares de pessoas se vestem de branco e fazem uma procissão, saindo das praias da Ribeira e que segue pelo mar até o templo de Iemanjá, localizado na praia do Rio Vermelho.

Ali, são deixados os variados presentes como perfumes, espelhos, pente, flores, bijuterias, sabonetes e alguns tipos de comida. Estes presentes enchem os barcos e são deixados em alto-mar. Os presentes são tidos como recusados quando não afundam ou quando são devolvidos à praia.

No Rio de Janeiro as festas em honra de Iemanjá se relacionam com a passagem de ano. E nas praias são celebrados cultos e rituais em que se saúda e festeja a Sereia Iemanjá.

Esses rituais se repetem em outras praias, lagoas e dentro dos inúmeros templos de Umbanda e Candomblé no Brasil. Seu dia da semana é o sábado. Suas cores representativas são o branco, o prateado, o azul e o verde

Iemanjá atua sobre a inteligência, a maternidade, a saúde mental e psicológica. É a mãe de todos os filhos, mãe de todo mundo. É ela quem sustenta a humanidade.

Ela é a Mãe também a quem recorremos por nossos amores e muito procurada pra ajudar a resolver conflitos, paixões, desejos, perto do amor, e até em alguns casos de vinganças, tudo pode ser trabalhado dentro dessa energia do mar, já que ele é multifacetado. E ela também o é, consequentemente, procurada para especiais casos de cura e limpeza. 

Ela tem sempre o encanto por sobre os amores – o canto da sereia; ela entende as dores, sana feridas, liga pessoas através de seu poder, abençoa gravidezes, ou, também, desliga relacionamentos. 

Iemanjá é considerada a “Afrodite brasileira”. Iemanjá é a padroeira dos amores e muito solicitada em casos de desafetos, paixões conflituosas, desejos de vinganças, tudo pode ser conseguido caso ela consinta. Iemanjá exerce fascínio nas pessoas.

Tem poderes sobre todos aqueles que entram em seu domínio. Venerada e respeitada por pescadores e todos aqueles que vivem no mar, pois a vida dessas pessoas está em suas mãos; segundo a lenda é ela quem decide o destino das pessoas que adentram seu império: enseadas, golfos e baías. Dona de poderes, a tranquilidade do mar ou as tempestades estão sob o seu domínio. É a rainha de todas as águas do mundo, seja dos rios, seja do mar.

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Iemanjá simboliza o espelho que reflete todas as diferenças, todas as condutas. Ela é a mãe que orienta, que mostra os caminhos, que educa, e sabe, sobretudo, explorar as potencialidades que estão dentro de cada um. E nos ensina que a guerra maior é a que travamos contra nós mesmos. Sussurra como brisa salgada vinda do mar em nossos ouvidos as respostas que sempre soubemos, mas que precisávamos ouvir. 

Iemanjá tem beleza singular, tanto que sua imagem sempre é representada como mulher extremamente bela – justamente pra que entendamos o desafio do arquétipo de ser mulher e da beleza, e ainda sobre o que se difere do comum. A imagem de mulher branca e de traços europeus que foram fortemente difundidos não faz jus a Iemanjá com descendência africana: é mais uma tentativa de colonização religiosa imposta aos afrodescendentes.

Por todo seu poder feminino, saudamos a Rainha do Mar! Odò Yiá, minha Mãe! Salve, Odociaba!!

Iêda Vilas-Bôas – Escritora. Reinaldo Filho Vilas Bôas Bueno – Escritor. 


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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