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indígenas taxa de suicídio

Taxa de suicídios entre indígenas

Taxa de suicídios entre indígenas é três vezes superior à média do País

A não demarcação de terra, o preconceito e a interculturalidade são alguns dos fatores para analisar ocorrências

Lilian Campelo
 
indígenas taxa de suicídio
Foram registrados 15,2 suicídios por 100 mil indígenas, 44,8% deles eram jovens entre 10 e 19 anos; taxa média nacional é de 5,8 óbitos / Foto: Thiago Gomes / Fotos Públicas
Podem ser diversos os fatores que levam alguém a tirar a própria vida, e quando se trata de povos indígenas o tema é ainda mais amplo, visto que existem cerca de 305 etnias com 274 línguas. Pelo segundo ano o Ministério da Saúde aponta que o registro de óbitos por suicídio é maior entre indígenas quando comparado a branco e negros.
De acordo com a pasta, a mortalidade por suicídio é alta entre os homens indígenas, 23,1 mortes por 100 mil habitantes enquanto que a taxa para homens brancos é de 9,5, e negros 7,6 mortes. Entre as mulheres indígenas a taxa também maior (7,7), na comparação com brancas (2,7) e negras (1,9).
Alarmante ao compararmos com a média nacional. O Brasil registrou uma média de 5,8 óbitos para 100 mil habitantes, a maioria entre os 15 e 29 anos de idade. Na população indígena foi quase três vezes maior que a média nacional, 15,2 registros por 100 mil, sendo 44,8% jovens em idade entre 10 e 19 anos.
O que estaria elevando essas taxas nas populações originárias? A Organização Mundial de Saúde (OMS) esclarece que são diversos os motivos, conflitos interpessoais, transtornos mentais, problemas familiares, abuso de sustâncias, e os contextos social e cultural em que se encontra o indivíduo e/ou a população são alguns dos aspectos que devem se levados em conta para a ocorrência de suicídio.
Considerando a pluralidade sociocultural dos povos indígenas, Thiago Fiorott, indigenista especializado e ouvidor na Fundação Nacional do Índio (Funai), argumenta que é preciso analisar as especificidades, características e peculiaridades culturais dos vários povos.
“A gente precisa avaliar as dimensões da espiritualidade, da cosmologia, até mesmo aspectos externos que influenciam as condições de vida dessas comunidades, que vivem uma eterna busca, luta pela efetivação dos seus direitos e para afirmação da sua identidade perante a nossa sociedade envolvente. Essas questões todas, que precisam ser observadas na temática, que é uma temática do adoecimento mental”.

Particularidades

O ouvidor acrescenta que devido aos vários determinantes é necessário verificar a forma como cada comunidade resistiu e vem resistindo a essa colonização que existe até hoje. “Ela tem uma forma própria, e isso precisa ser olhado de forma específica para tentar entender cada caso na questão do suicídio”.
Pelo segundo ano consecutivo, o Ministério da Saúde indica taxas elevadas de letalidade na população indígena. A base de dados é do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e refere-se a óbitos por suicídio de indígenas que vivem em contextos urbanos e em terras e territórios indígenas registrados entre os anos de 2010 e 2016.
São Félix do Araguaia (MT), Campo Grande (MS), Palmas (TO), Rio Branco (AC), Boa Vista (RR), Curitiba, (PR), São Luís (MA), Cruzeiro do Sul, Governador Valadares (MG), Florianópolis (SC), Atalaia do Norte, Tabatinga, Lábrea, Tefé, São Gabriel da Cachoeira – esses cinco últimos da região do Amazonas -, foram os municípios que apresentaram maiores índices e que serão prioritários para ações de prevenção do suicido, segundo o a pasta.

Identidade

No Mapa da Violência de 2014 – Jovens do Brasil – São Gabriel da Cachoeira (AM) já era apontado como um dos que precisava de atenção e cuidado à saúde psicossocial dos povos indígenas. Segundo o relatório, entre 2008 e 2012, foram registrados 68 óbitos de indígenas, destes 51 eram jovens.
Adelina Sampaio, coordenadora do departamento de juventude na Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), disse que estão sendo realizados trabalhos de prevenção nas comunidades indígenas por meio do comitê da juventude, reativado esse ano.
Entre as ações, uma pesquisa está sendo elaborada para traçar um planejamento mais pontual nas comunidades. A apresentação dos dados será durante o II Congresso de Jovens, prevista para ocorrer de 12 a 15 de dezembro. Uma das propostas é solicitar ao poder público a criação de um centro de acolhimento para tratamento psicossocial.
Dentre as conclusões preliminares do levantamento, Sampaio antecipa que a pesquisa indica o suicídio entre adolescentes de 12 a 20 anos, e homens no máximo de 40 anos de idade. A falta de oportunidades e perspectivas contribuem para o evento, segundo a coordenadora. “O município não oferece oportunidade como mercado e trabalho, lazer, não tem estrutura para receber essa juventude”.
São Gabriel da Cachoeira, na região do Alto Rio Negro, ao norte do Amazonas, por exemplo, abriga 23 povos indígenas compondo 95% da população do município. De acordo com a representante do FOIRN, muitas aldeias da região estão em processo de esvaziamento, migrando para a cidade em busca de saúde e ensino. Grande parte são jovens, que, segundo ela, sem trabalho e tendo de viver entre dois mundos, acabam encontrando na bebida o refúgio para suas angústias.
Comunidades indígenas das etnias Hupd’äh e yuhupdëh, de recente contato, também já registraram sete casos de suicídio, segundo Sampaio.

Território

Os Guarani-kaiowá, muito presente no Mato Grosso do Sul (MS), apresentam altas taxas de mortes por suicídio. A antropóloga Lucia Helena Rangel, assessora do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), explica que na cultura indígena da etnia o jovem para se tornar homem precisa fazer uma roça para a sua esposa. Contudo, confinados entre plantações de monocultura onde não conseguem mais realizar seus costumes, muitos alteram seus documentos para trabalhar em lavouras.
“Sem a terra, o menino não pode fazer o ritual e não pode cumprir a parte mais importante que é fazer o roçado. Virar homem e casar, então vai dificultando a vida e a reprodução dessa sociedade”.
O Ministério da Saúde destaca que a não-demarcação da terra não é a única razão, mas “pode ser um dos determinantes sociais que impactam na saúde e na situação de vulnerabilidade a que os povos indígenas estão submetidos”.
Rangel e Fiorott acreditem que o fenômeno do suicídio é multifatorial, mas também têm acordo de que a questão deve ser considerada.

Prevenção

O ouvidor da Funai ainda enfatiza que o grande desafio posto para a sociedade é vencer o preconceito. Ele considera que no mês em que se discute e reflete sobre o tema é necessário haver também uma maior abordagem com a população não indígena.
“Esse tema é oportuno inclusive para trazer essa reflexão para nós, enquanto sociedade, porque a gente além de estar promovendo o preconceito, sofrimento e o adoecimento até o suicídio de algumas populações indígenas, está deixando de ter a oportunidade da convivência e da contribuição dessas populações com uma sociedade mais justa e democrática”.
Em nota, o Ministério da Saúde informou que irá investir R$ 6,5 milhões em prevenção ao suicídio. Desse total, informa que foram destinados R$ 1,44 milhão de incentivo financeiro para a implantação de Projetos de Prevenção ao Suicídio nos estados do Amazonas, Mato Grosso do Sul, Roraima, Piauí, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
A pasta afirma que irá implementar a agenda estratégica de ações de prevenção do suicídio em populações indígenas, que abrange, entre outras ações, o mapeamento e acompanhamento das pessoas em risco de suicídio, qualificação antropológica de profissionais e participação nos comitês estaduais de prevenção do suicídio.
Fonte: Brasil de Fato


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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