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Jayanti Kirpalani: paz, sustentabilidade e espiritualidade

Jayanti Kirpalani: paz e sustentabilidade por meio da espiritualidade

Maura Campanili

Diretora da organização indiana Brahma Kumaris na Europa, líder espiritual e professora há mais de 50 anos, Jayanti Kirpalani é pioneira na defesa do cuidado com a terra a partir de uma base espiritual. Para ela, o materialismo e o consumismo afastaram o ser humano da natureza, que passou de lugar sagrado em todas as culturas, para algo a ser explorado. O resultado mais visível atualmente são as mudanças climáticas causadas por esse estilo de vida.

Jayanti nasceu em 1949, na Índia, e emigrou para a Inglaterra com seus pais nos anos 1950, quando passou a ter educação e influência cultural do Ocidente. Aos 19 anos, abandonou o curso de farmácia na Universidade de Londres e retornou à Índia, momento em que iniciou seus estudos de meditação e passou a se dedicar à Brahma Kumaris. A organização é um movimento espiritual voltado à transformação pessoal e à difusão de uma cultura de paz no mundo.

Representante da Brahma Kumaris na Organização das Nações Unidas (ONU) desde 1982 e nas conferências anuais do clima desde 2009, a indiana procura inserir princípios espirituais nas mesas de discussão de políticos, economistas, líderes empresariais e cientistas. Em janeiro de 2018, dirigiu sessões de meditação no Fórum Econômico Mundial em Davos. Fez o mesmo em dezembro, na COP-24, em Katowice, na Polônia.

Como foi o seu despertar para a espiritualidade?

Embora não tenha perdido meu contato com a Índia, onde ia com a família para passar férias desde nossa mudança para a Inglaterra, aos 19 anos, em 1968, resolvi passar mais tempo no país, conhecer mais sobre nossa cultura. Minha mãe já tinha contato com a Brahma Kumaris e procurei um dos seus centros de meditação atrás de algo que me ajudasse a tomar melhores decisões na vida. Passei seis meses estudando e buscando meu desenvolvimento pessoal. Lá, encontrei o fundador da organização, Brahma Baba, que me perguntou o que eu queria dizer ao mundo. Naquele momento, soube que minha vontade era ser uma professora espiritual e inspirar pessoas. E essa foi minha jornada.

Em janeiro de 1969, Baba faleceu e foi um momento de virada para a organização, quando duas mulheres passaram a ser as dirigentes. Isso foi possível porque, desde que a Brahma Kumaris foi criada, em 1937, existia a visão clara que, se quiséssemos um mundo de paz, precisávamos de igualdade entre os gêneros. Por isso, sempre houve treinamento de mulheres, como os que participei, para ser líderes. Essa postura era revolucionária na época na Índia e no mundo todo.

 

Você foi a primeira pessoa a levar a Brahma Kumaris para fora da Índia?

Sim. Em 1969, voltei para Londres pensando em iniciar as atividades da organização para a Europa. Passei dois anos fazendo contatos com várias organizações até que, em 1971, uma delegação da Brahma Kumaris foi até lá para apresentar sua filosofia para a comunidade ocidental e fundamos o primeiro Centro de Meditação fora da Índia. Em 1981, estávamos em 30 países com nossa filosofia de paz individual e mundial. Em 1986, quando coordenávamos atividades do Ano Internacional da Paz, da ONU, criamos em Londres o primeiro escritório internacional, do qual sou dirigente, para agilizar a comunicação entre os países. Hoje, estamos em todos os continentes.

Qual a afinidade entre a Brahma Kumaris e a ONU?

Somos filiados à ONU como uma organização não-governamental. Nosso propósito é a paz, o que também é a meta das Nações Unidas, por isso estamos conectados. Um ano antes do Ano Internacional da Paz, em 1985, houve o Festival Live Aid, para arredar recursos para a combater a fome na África. Vimos que as pessoas queriam doar mais do que dinheiro. Queríamos pedir algo mais valioso e as convidamos adoar tempo, minutos para orar, meditar ou ter pensamentos puros pela paz. Uma escola que decidisse dedicar três minutos de uma assembleia com mil alunos para isso, representaria três mil minutos de pensamento pela paz.

O Projeto Mensageiro da Paz surgiu daí. Era uma técnica simples para tornar as pessoas perceptivas de que podem fazer algo pela paz no mundo. A meta era que começassem a ter pensamentos pacíficos para experimentar a paz que existe em cada ser humano e iniciassem uma jornada em direção à paz. Chegamos a bilhões de minutos pela causa, em 60 países diferentes.

Com esse projeto ganhamos vários reconhecimentos da ONU e fomos considerados a entidade sem fins lucrativos que mais atuou pela causa naquele ano. A partir dali, passamos a desenvolver vários programas junto à ONU para mulheres, idosos, saúde, desenvolvimento sustentável. Nos últimos dez anos, estamos conectados com o tema de mudanças climáticas. Minha visita ao Brasil, desta vez, aconteceu porque era caminho para a reunião anual da Convenção do Clima (COP-25), que seria realizada no Chile. Com a mudança de local – a Espanha aceitou o convite da ONU -, vou daqui direto para Madri.

A campanha pela paz teve continuidade?

A ONU se interessou pelo nosso trabalho e pediu que continuássemos com ele, o que resultou no Projeto de Cooperação Global por um Mundo Melhor, que durou de 1988 a 1991 e chegou a reunir 128 países. Nele, perguntávamos para as pessoas: qual a sua visão para um mundo melhor? Como vê os relacionamentos nesse mundo? Como se vê nele? Quais os passos práticos que você pode dar para tornar esse mundo melhor uma realidade?

Cada um podia fazer o que quisesse. Por exemplo, uma família na Grécia tomou a decisão de pegar um cômodo da casa para ser uma zona livre de queixas. Engraxates mirins do Brasil, que brigavam muito entre eles, resolveram que iriam cooperar, emprestando seus equipamentos, como escovas, uns aos outros.

Por que a Brahma Kumaris se envolveu tão fortemente com as mudanças climáticas?

Trabalhamos junto à ONU com o propósito de mostrar que existe uma dimensão espiritual em todas as pessoas. Mas a consciência humana criou uma forma materialista de viver. Nos tornamos uma sociedade consumista. Materialismo e consumismo nos distanciam da natureza. A espiritualidade nos lembra que a natureza é algo sagrado, por isso é um tema tão próximo do que fazemos: ver a natureza como parte do sistema da vida e não algo a ser explorado. Como vejo uma floresta? Como madeira e dólares ou como um sistema sagrado? Todas as culturas costumavam considerar a natureza como sagrada, mas hoje a exploram.

Quando cortávamos madeira manualmente, para nossas necessidades, era algo trabalhoso e demorado. Uma motosserra acaba com uma floresta inteira rapidamente. Depois, precisamos de estradas para transportar a madeira e também para a grande quantidade de carros. O mesmo pode ser dito sobre quando queremos estar na moda e ter sempre um novo guarda-roupa. O consumismo significa usar todos os recursos da natureza e é o grande fator conectado às mudanças climáticas. Desde 1999, na COP-5, realizada em Bonn, na Alemanha, temos abordado o tema espiritualidade e mudanças climáticas.

A ideia é que, se trouxermos a consciência de volta para a espiritualidade e percebermos que nossa felicidade não depende de joias, roupas ou da casa em que moramos, poderemos simplificar muito a nossa vida. Deveríamos praticar mais o reduzir, reutilizar e reciclar, um conceito diferente da sociedade atual, que é dejogar tudo fora, inclusive relacionamentos.

Há dois anos, durante a COP-23, também em Bonn, a Unesco cunhou o tema Mudar mentes e não mudar o clima, quando trouxe à luz as consequências éticas das mudanças climáticas. Se as pequenas ilhas, que serão especialmente impactadas pela mudança do clima, submergirem, muitas culturas serão perdidas. A Unesco está alarmada e pedindo ações urgentes de todos para abordar esses questões.

Christiana Figueres, secretária-executiva da Convenção do Clima entre 2010 e 2016, e uma das principais arquitetas do Acordo de Paris, se tornou uma amiga próxima e, a partir de nossas conversas, entendeu o papel da religiosidade na questão climática. Em 2014, organizou um encontro em Nova York paralíderes religiosos no qual falou da necessidade do coração e não apenas da cabeça para a resolução desse enorme desafio (eles apoiaram o Acordo de Paris).

 

Resolver a crise climática, no entanto, exige ações práticas e urgentes. Como você vê essa questão?

Brahma Kumaris já plantou milhões de árvores em sua sede em Mount Abu, na Índia, uma comunidade de aproximadamente 25 mil pessoas. Em nosso retiro em Serra Negra, aqui no Brasil, plantamos 10 mil árvores para recuperar as matas ciliares. Na Índia, também somos os maiores utilizadores de energia renovável. Em 2011, começamos o projeto India One que, hoje produz 24 horas por dia de eletricidade solar, e nossa comunidade é autossuficiente em energia elétrica. Pregamos a dieta vegetariana e muitos dos nossos membros são também veganos. Sabemos que um quilo de proteína animal usa oito vezes mais água e terra do que um quilo de proteína vegetal, além do gado ter um grande impacto nasemissões de gases de efeito estufa. Além disso, o estilo de vida de um iogue é naturalmente simples. Acreditamos muito na mudança de consciência, mas também em mudanças práticas de estilo de vida.

O que considera ser sua missão pessoal como ativista?

Em primeiro lugar, desenvolver meu ser e plantar sementes de espiritualidade nas pessoas que encontro. Conforme aumentam os desafios e problemas no mundo, minha meta é que as pessoas encontrem recursos internos para que tenham força. Se estiverem dispostas a dar um passo a mais, podem conhecer Deus e pegar esse poder diretamente dele.

Como você mesma disse, os problemas estão aumentando, e hoje vivemos em um mundo polarizado, onde vemos vários retrocessos. Como agir nesse cenário?

Duas energias opostas estão em funcionamento. Uma é a energia negativa, da raiva, arrogância e ganância. E essa energia está nos trazendo para baixo. Do outro lado, há uma energia que nos leva para cima, como a do movimento ambiental, dos jovens se tornando ativistas pelo meio ambiente, das pessoas interessadas em estilos de vida mais holísticos na arquitetura, saúde, educação. Também há maior interesse na meditação e na dieta vegetariana.

Tudo isso se tornou visível nos últimos 20 anos, embora tenha começado antes. Cada um de nós tem uma escolha pessoal: continuo com essa maioria e perco minha força vital ou sou capaz de sair da zona de conforto e ir em busca do que acho verdadeiro? Embora essa energia em ascensão ainda seja minoritária, é a energia da verdade e está crescendo rápido. Acredito que vai alcançar um ponto de massa crítica muito em breve, pois vamos reconhecer que é a única forma de continuarmos.

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Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.
Fonte: Conexão Planeta

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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