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Kambô: oito mortes em seis meses…

Kambô: E chegamos a oitava morte em seis meses…

A culpa não está na aldeia, a culpa está na ambição humana. A ânsia do lucro, em geral, subtrai a prudência do agir. Por isso é que creio que, sem informação e conhecimento sobre certas medicinas, como, em último grau o kambô, esse triste quadro de mortes e demais situações (como coma e outras coisas do tipo) só aumentarão. O kambô é uma medicina maravilhosa, mas deve ser usada com muito cuidado. Jairo Lima

Por: Jairo Lima

Puke Shaya veio nos visitar hoje trazendo notícias de sua aldeia (Shane Kaya), sobre uma oficina de pintura que estão fazendo com a artista argentina Delfna Muñoz, que já vem há alguns anos trabalhando com os Huni Kuin, os Yawanawá e, mais recentemente, com os Shanenawa. É sempre bom quando pessoas positivas vem contribuir com as comunidades.

Vou me inteirando das ‘conversas’ do mundo indígena enquanto passo a vista nas notícias do dia vendo os horrores dos atentados internacionais, as tragédias nacionais e os dramas pessoais de nossa sociedade.

Vejo que fui marcado numa postagem recente sobre mais uma morte ocorrida no Chile, envolvendo o uso do kambô. Somando-se a essa tivemos, na semana anterior, outra morte, desta vez na terra da rainha Elizabeth. Creio que, com estes dois sinistros recentes já contabilizam-se oito mortes – conhecidas – nos últimos seis meses.

O que dizer sobre isso? Não sei mais o que escrever que não ‘chova no molhado’ no assunto mas, vamos lá, seguimos.

Certo dia vi em algum comentário que o ‘problema está na aldeia’. Discordo. O problema está nas pessoas, não na aldeia. Claro que tem indígenas vendendo as ‘palhetas’ de kambô, principalmente para atravessadores, alguns destes que não tem discrição alguma de ofertar seu ‘produto’ nas redes sociais, de maneira aberta, mesmo sendo essa prática considerada crime, de acordo com a Portaria da Anvisa de 2004.

O problema não está na aldeia, está no ‘mercado consumidor’, ou seja, na demanda pelo produto.Só se vende aquilo que é buscado. Não é problema de ‘índio bandido e capitalista’, é problema de ‘branco bixo-grilo-do-mal que quer ser xamã e ganhar dinheiro’, e dessa palhaçada generalizada, também chamada de ‘terapia espiritual’ (nome chique e ridículo), que anda se espalhando pelo mundo, gerando muita grana e um bocado de zumbi espiritual.

A cada dia vejo pelas redes sociais a profusão de dawa* babaca ostentando cocar na cabeça e com as fuças pintadas de urucum, se dizendo xamã, terapeuta, ou qualquer outra babaquice dessas, oferecendo seus serviços para todo tipo de viagem que se possa imaginar, até para – acreditem – ‘acompanhamento da concepção’!!! É, galera, acreditem, não foi alguém que me disse não, eu mesmo que vi o anuncio no Facebook.

Tem gente se travestindo, melhor, se apropriando, de aspectos culturais dos povos indígenas do Acre em busca de se dar bem: usam cocar, cantam, se pintam, passam rapé, etc. Tudo gourmetizado para a clientela, ávida pela ‘sabedoria’ do guru. Que idiota isso. E sabem o que mais dá grana a esses charlatões? Vos digo: aplicação de kambô.

O que acho mais pirado nisso tudo é a sacralização/misticismo que se cria em torno de certos costumes tradicionais, onde tudo passa a se transformar em ‘dieta’: dieta do rapé, do kambô, da sananga, da argila, etc. Aí inventa-se outro monte de besteiras ritualísticas, cheia de gestos, caras e sinais, onde até um ato simples, de passar um rapé em alguém transforma-se em uma ação que mais parece uma peça de teatro de quinta categoria.

O interessante é que esses dawa que se fazem passar por índio querem ser pajé, xamã, terapeuta e o escambau-a-quatro, ao passo que ativista pelos direitos indígenas poucos querem. Afinal, não dá dinheiro isso e, infelizmente, é esse papel higiênico do capeta que move nossa sociedade ridícula e dependente de superficialidades.

Menos, gente… menos…

Sei que muitos podem pensar: Mas, isso não é bom como reconhecimento da cultura indígena?
Respondo: Não. Não é, pois, interpretar a cultura em bases tão bizarras e grotescas, mais atrapalha que ajuda. Mais diminui que engrandece.

Voltando ao assunto do kambô o que digo é que há mercado para isso. Mercado esse em franca expansão, de um jeito que ‘o sapo’ (na verdade é uma rã) já é criado em cativeiro, facilitando, assim, os negócios, e evitando-se ter que adquirir na floresta amazônica.

Mortes ocorreram, e mais mortes ocorrerão. E, enquanto reina esse caos, não se iludam achando que cabe ao governo reprimir isso. Acredito que a repressão, pura e simples,  não é o caminho, já que criminalizar geral não é a solução. Não se pode tratar todos como bandidos, não adianta querer que o Estado ‘faça alguma coisa’ para reprimir de qualquer jeito, pois, os que mais vão se dar mal nisso são os que agem corretamente, acreditem.

É isso: Na repressão, quem se dá mal é quem menos merecia se dar mal… pensem nisso. Por isso, muito cuidado ao querer que o governo lance mão do peso do estado sobre o assunto, pois, em geral, dá merd***. Já pensaram nisso? Ver a polícia invadindo um ritual, mesmo que feito por indígenas num espaço na cidade, como as que têm em Rio Branco, Acre? Sendo espaços estes bem cuidados e com seriedade em seus trabalhos?

É preciso, sim, investir em pesquisas sobre essa medicina para que seja adequadamente utilizada fora do espaço das comunidades, por pessoas que não são dessa região, pois, até isso influi na reação e efeito colateral no corpo. É preciso informar os cuidados sobre seu uso, alertar sobre a utilização indiscriminada, apontar charlatões, evitar o comércio indiscriminado, ficar esperto.

A culpa não está na aldeia, a culpa está na ambição humana. A ânsia do lucro, em geral, subtrai a prudência do agir. Por isso é que creio que, sem informação e conhecimento sobre certas medicinas, como, em último grau o kambô, esse triste quadro de mortes e demais situações (como coma e outras coisas do tipo) só aumentarão. O kambô é uma medicina maravilhosa, mas deve ser usada com muito cuidado.

É isso, galera: não adianta achar que todo sapo vira príncipe. Alguns destes podem se transformar em algo bem feio e até matarem, acreditem…

Boa semana a tod@s!

* Não-índio

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Jairo Lima é indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC, com especialização em antropologia. Atua há mais de vinte anos junto aos povos indígenas do Acre e desde 2012 é servidor da FUNAI, na região do Juruá, Acre.

Conheça a página do Crônicas Indigenistas no Facebook (clique aqui). Lá encontrará, além de nossos textos, várias e diversificadas informações. Também temos o canal do YouTube: Crônicas Indigenistas – Música Indígena (clique aqui).


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

Uma resposta

  1. Felicito a Revista Xapuri por apresentar esses temas porque nós precisamos que as pessoas realmente entendam que “usar” a sabedoria ancestral dos povos indígenas tem consequências. Não basta usar “produtos” da floresta que os urbanóides irão conseguir a felicidade e/ou iluminação.

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