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Linguiça Cuiabana: Delícia paulista do interior do Estado

Linguiça Cuiabana: Delícia paulista do interior do Estado

O primeiro almoço deste 2020 foi com tia Anízia Villas Boas na casa dos primos Meiri Cazarin e José Valtrudes Villas Boas, na fazenda deles, perto de Fernandópolis, no interior de São Paulo.

Por Zezé Weiss

No cardápio, uma deliciosa linguiça cuiabana, produção do próprio Valtrudes. De imediato lembrei que meu pai também fazia aquela linguiça, especialmente nos casamentos de então, lá pelos anos de 1960–70.

Sobre a história da iguaria só me interessei agora, e foi o primo quem me contou que essa famosa linguiça de carne de vaca (atualmente também feita com carne de porco ou frango) marinada no leite, na verdade foi criada por um fazendeiro de nome Zenha Ribeiro, na cidade paulista de Paulo de Faria, na região de São José do Rio Preto.

Uma de suas netas, Regina Maria Ribeiro Aziz Martins, declarou que o avô aprendera a fazer a tal linguiça de carne de vaca com umas “cuiabanas” e que, por isso, apesar de ser paulista, apelidou-a de cuiabana.

O fato é que a tradição de se produzir e comer essa delícia foi iniciada mesmo por Zenha Ribeiro, nos anos 1920, ali pertinho do Rio Grande, no noroeste paulista.

Valtrudes faz a cuiabana com alcatra, gordura de vaca,  leite fresco, sal, pimenta-bode e cheiro verde, sem o queijo que algumas receitas acrescentam.

Embora trabalhosa, o primo diz que é fácil de fazer. A dica é só na hora de assar: nunca furar a tripa para que a linguiça não resseque e nem fique murcha.

Copiei a receita:

INGREDIENTES:

1 peça de alcatra – 3 kilos de carne
2 1/2  a 3 litros de leite
8 pimentas-bode
1 1/2 kg de gordura de vaca
1 maço de cheiro verde (salsinha e cebolinha)

Sal a gosto
Tripa grossa para enchimento.

PREPARO

  • Corte a alcatra e a gordura de vaca  em cubos pequenos, de cerca de 1cm x 1cm.
  • Com uma  faca, corte/pique  as pimentas-bode  e o cheiro-verde.
  • Acrescente o tempero à carne e  misture o leite.
  • Junte a carne, a gordura de vaca e o leite temperado em uma vasilha grande.
  • Coloque na geladeira e deixe descansar por pelo menos 12 horas.
  • Depois da carne marinada, encha as tripas com um funil, não se esquecendo de colocar sempre um pouco de leite junto.
  • Asse a linguiça de preferência em uma churrasqueira. Não se esqueça de virar pelo menos uma vez para que os dois lados fiquem igualmente assados.

A linguiça cuiabana pode ser servida pura, como tira-gosto, ou com arroz branco, salada verde e farofa de banana. De todo jeito, é uma delícia.

P.S. O primo Valtrudes me explica, via zap, que usa gordura de vaca e que o alho fica de fora porque, se  demorar um pouco pra usar a linguiça rança. O primo explica também que é melhor picar o cheiro verde com a faca, em vez de bater no liquidificador porque senão a linguiça fica esverdeada. Esse meu primo sabe tudo!

Outro P.S. As fotos da linguiça em preparo e pronta são do primo Valtrudes.

https://xapuri.info/elizabeth-teixeira-resistente-da-luta-camponesa/

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

 

 

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