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Lula ignora “afetações de Zelensky” e defende paz

Lula ignora “afetações de Zelensky” e mantém defesa da paz

Após chineses, africanos e até aliados, o presidente ucraniano se volta contra Lula, “porque ele precisa desqualificar seus argumentos e isolá-lo”, diz a especialista Ana Prestes.

Por Cezar Xavier/Portal Vermelho

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), encerrou a Cúpula da Amazônia nesta quarta-feira (09) com um pronunciamento enfático, delineando a posição brasileira e de outras nações detentoras de florestas tropicais nas condições climáticas. O líder petista fez um chamado aos países alcançados para que adquirissem promessas de financiamentos climáticos e adotem medidas efetivas para mitigar as mudanças climáticas.

Lula destacou que o Brasil e outras nações amazônicas não estão buscando financiamento simplesmente para si mesmos, mas sim para proteger e regenerar os ecossistemas naturais que foram prejudicados pelo desenvolvimento industrial ao longo de décadas. Ele enfatizou que os US$ 100 bilhões anuais prometidos pelos países ricos desde 2009 para o financiamento climático de nações em desenvolvimento “já não corresponde às necessidades atuais. A demanda por mitigação, adaptação e perdas e danos só cresce”, disse o presidente. “Quem tem as maiores reservas florestais e a maior biodiversidade merece maior representatividade”, concluiu.

Lula afirmou que os serviços ambientais e ecossistêmicos fornecidos pelas florestas tropicais devem ser remunerados de maneira justa e equitativa. Segundo o presidente, quem tem as maiores reservas florestais e a maior biodiversidade merece maior representatividade no Fundo Global, e que é “inexplicável que mecanismos de financiamento, como o Fundo Global para o Meio Ambiente, que nasceu no Banco Mundial, reproduzam a lógica excludente das instituições de Bretton Woods”.

Ele também criticou a falta de representatividade de nações como Brasil, Colômbia, Equador, Congo e Indonésia no fundo, observando que países combinou como Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha, Itália e Suécia ocupam assentos individuais. Essa disparidade foi identificada por Lula como “neocolonialismo verde”, em que medidas discriminatórias e barreiras comerciais sob o pretexto de proteção ambiental ignoram as políticas domésticas das nações com florestas em seus territórios.

Ao final, o presidente brasileiro convocou outros países detentores de florestas tropicais a se unirem a esse esforço conjunto. A Declaração Conjunta adotada durante a cúpula foi apontada como o primeiro passo para uma posição unificada na 28ª Conferência das Partes (COP28) ainda neste ano, com vistas à COP30. Lula enfatizou a importância de trocas de experiências entre nações da África e da Ásia, visando à proteção das florestas e seu manejo sustentável.

Enquanto os olhos se voltam para a COP28, espera-se que as palavras do presidente Lula e o apelo por financiamentos planejados inspirem a cooperação internacional e ações concretas em direção a um futuro mais sustentável e equitativo para as nações detentoras de florestas tropicais e para o mundo como um todo.

Leia a íntegra do discurso do presidente Lula na Cúpula da Amazônia

É uma alegria participar deste encontro numa data de grande simbolismo, em que acolhemos convidados especiais. Hoje comemoramos o Dia Internacional dos Povos Indígenas, estabelecido pelas Nações Unidas em 1995.

Depois da excelente Cúpula dos Países Amazônicos realizada ontem, agora temos o privilégio de dialogar com outros países detentores de florestas tropicais e países e organizações parceiras.

Quero iniciar falando não de florestas, mas apenas de uma árvore.

Uma árvore majestosa tão conhecida pelos habitantes de Belém.

Para nós, brasileiros, essa árvore tem o nome de sumaúma.

Ela está presente, com outros nomes, em todos os países amazônicos e em todos os países com florestas tropicais aqui representados.

Na Bolívia, é chamada de mapajo [maparro]; no Equador, ceibo; na Guiana, kumaka.

Na Bacia do Congo, é conhecida como fromager [fromagê], enquanto na Indonésia se chama kapok.

A sumaúma é um símbolo do vínculo que nos une.

Sabemos das expectativas que recaem sobre nós com relação ao potencial das florestas tropicais.

Mas nossas florestas não vão gerar soluções para o enfrentamento da mudança do clima se não forem capazes de gerar soluções para quem vive nelas.

Combater o desmatamento e fortalecer a fiscalização e a repressão aos ilícitos ambientais são medidas fundamentais, mas não suficientes diante dos desafios existentes.

No Brasil, os municípios onde há mais desmatamento também são os com os piores índices de saúde, de saneamento, de educação, de segurança alimentar e de violência.

São os que registram maiores índices de desigualdade.

A pobreza é um obstáculo à sustentabilidade.

Precisamos de uma visão de desenvolvimento sustentável que coloque as pessoas no centro das políticas públicas e inaugure um ciclo de prosperidade baseado na floresta em pé.

Esta Cúpula é o ponto de partida para que a nossa Amazônia e as demais florestas tropicais deixem, de uma vez por todas, de ser vistas como um problema, e se tornem solução.

São os produtos da sociobiodiversidade que vão gerar emprego e renda e oferecer alternativas à exploração predatória dos recursos naturais.

É conjugando atividade econômica com preservação que vamos diminuir as pressões sobre a vegetação nativa.

É valorizando as culturas locais que vamos promover o turismo sustentável.

É resgatando os conhecimentos e os saberes tradicionais que vamos fomentar a pesquisa e a ciência de ponta.

E é transformando as cidades em centros de inovação que vamos agregar valor aos produtos da floresta e alavancar o desenvolvimento tecnológico.

Senhoras e senhores,

As evidências científicas confirmam que o ritmo atual de emissões de gases de efeito estufa nos levará a uma crise climática sem precedentes.

O último mês de julho foi o mais quente já registrado na história e incêndios têm-se alastrado por vários países.

O planeta se aproxima de vários pontos de não retorno.

Os países das bacias da Amazônia, do Congo e de Bornéo-Mekong atuarão com determinação para preservar as três maiores florestas tropicais do mundo.

Mas não se pode falar de florestas tropicais e mudança do clima sem tratar da responsabilidade histórica dos países desenvolvidos.

Foram eles que, ao longo dos séculos, mais dilapidaram recursos naturais e mais poluíram o planeta.

Os 10% mais ricos da população mundial concentram mais de 75% da riqueza e emitem quase a metade de todo o carbono lançado na atmosfera.

Não haverá sustentabilidade sem justiça.

Tampouco haverá sustentabilidade sem paz.

Os gastos militares, que atingiram o recorde de 2,2 trilhões de dólares no ano passado, drenam recursos de que o mundo precisa para a promoção do desenvolvimento sustentável.

Diante dessas disparidades, é fundamental não perder de vista o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas.

Ele continua mais válido do que nunca, porque reflete equidade, justiça, ação e ambição.

As obrigações de apoio financeiro, de cooperação técnico-científica, de transferência tecnológica, que estão consagradas nas Convenções do Rio de 1992, não estão sendo cumpridas.

Desde a COP 15, o compromisso dos países desenvolvidos de mobilizar 100 bilhões de dólares por ano em financiamento climático novo e adicional nunca foi implementado.

E esse montante já não corresponde às necessidades atuais. A demanda por mitigação, adaptação e perdas e danos só cresce.

Quem tem as maiores reservas florestais e a maior biodiversidade merece maior representatividade.

É inexplicável que mecanismos de financiamento, como o Fundo Global para o Meio Ambiente, que nasceu no Banco Mundial, reproduzam a lógica excludente das instituições de Bretton Woods.

Brasil, Colômbia e Equador são obrigados a dividir uma cadeira do conselho do Fundo.

A República do Congo e a República Democrática do Congo são obrigadas a dividir uma cadeira com mais seis países.

A Indonésia é obrigada a dividir uma cadeira com mais dezesseis países.

Enquanto isso, países desenvolvidos, como Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha, Itália e Suécia, ocupam cada um seu próprio assento.

Sanar a falta de representatividade é elemento essencial de uma proposta abrangente e profunda de reforma da governança global que beneficie todos os países em desenvolvimento.

Os serviços ambientais e ecossistêmicos que as florestas tropicais fornecem para o mundo devem ser remunerados, de forma justa e equitativa.

A nossa perspectiva precisa ser levada em conta na negociação de um conceito internacional de sociobioeconomia que nos permita certificar produtos e gerar oportunidades para nossa população.

Os países detentores de florestas tropicais herdaram do passado colonial um modelo econômico predatório.

Um modelo baseado na exploração irracional dos recursos naturais, na escravidão e na exclusão sistemática das populações locais.

Os efeitos são sentidos por nossos países até hoje.

Não podemos aceitar um neocolonialismo verde que, sob o pretexto de proteger o meio ambiente, impõe barreiras comerciais e medidas discriminatórias e desconsidera nossos marcos normativos e políticas domésticas.

O que precisamos para dar um salto de qualidade é de financiamento de longo prazo e sem condicionalidades para projetos de infraestrutura e industrialização verdes.

Reformar o sistema também requer uma solução duradoura para o endividamento externo que aflige tantos países em desenvolvimento.

Na presidência brasileira do G20, que terá início dia primeiro de dezembro, colocaremos o desenvolvimento sustentável e a redução das desigualdades no centro da agenda internacional.

Temos apenas 7 anos para alcançar os Objetivos da Agenda 2030.

É hora de nossos países se unirem. É hora de acordar para a urgência do problema da mudança do clima.

Se não agirmos agora, não vamos atingir a meta de evitar que a temperatura suba mais que um grau e meio em relação aos níveis anteriores à Revolução Industrial.

A COP30, que também vai acontecer aqui em Belém, em 2025, será um marco tão importante como foi a COP21, em 2015, quando foi adotado o Acordo de Paris.

Todos os países vão apresentar sua segunda rodada de compromissos de redução de emissões. Talvez seja a nossa última chance de garantir um clima estável para o planeta Terra.

O Brasil vai liderar pelo exemplo, convidando a todos para irmos, juntos, de Belém a Belém.

Quero convidar especialmente outros países com florestas tropicais para se somem a esse esforço.

A Declaração Conjunta que adotaremos hoje será o primeiro passo para uma posição comum já na COP28, este ano, com vistas à COP30.

Junto com nossos companheiros da África e da Ásia, podemos aprofundar as trocas de experiências sobre a proteção das florestas e seu manejo sustentável.

Também podemos liderar a promoção de cadeias de produtos florestais livres de desmatamento e fortalecer ações globais em prol do Marco Global para a Biodiversidade.

Companheiras e companheiros, 

Quero terminar trazendo as palavras de um grande pensador indígena da Amazônia, o xamã Davi Kopenawa, um dos líderes do povo ianomâmi.

Ele escreveu um livro belíssimo chamado A queda do céu, e uma das coisas que ele diz é o seguinte: “Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham com eles mesmos”.

Em meu pronunciamento de ontem, falei que em Belém nasceria um sonho amazônico.

Estou certo de que, após este encontro, cada um aqui seja capaz de sonhar longe.

Muito obrigado.

Fonte: Portal Vermelho Capa: Fábio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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