Pesquisar
Close this search box.

Madalena somos todas nós

Com a inconcebível história de Madalena Gordiano, infelizmente é possível constatar que a chaga do trabalho em condições análogas à escravidão permanece entre nós

Por Iêda Leal

 A chaga do trabalho em condições análogas à escravidão permanece entre nós.

É inconcebível, mas em pleno ano de 2021 estamos aqui tendo de abordar esse tema escabroso que é o trabalho análogo ao escravo. Sim, a humanidade parece um cão insano que insiste em morder o próprio rabo.

Dia 28 de janeiro é o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, que é a situação em que a pessoa está submetida a trabalho forçado, jornada exaustiva, servidão por dívidas e/ou condições degradantes.

A data não foi escolhida aleatoriamente. No dia 28 de janeiro, há 17 anos, ocorria a chacina de Unaí (MG), quando o fazendeiro Norberto Mânica mandou matar três fiscais do Ministério do Trabalho e o motorista da equipe, durante diligência na sua fazenda para apurar denúncia de trabalho escravo.

Mandante confesso do crime e condenado a 65 anos, 7 meses e 15 dias de prisão, o fazendeiro Norberto Mânica ainda aguarda trâmites jurídicos para cumprir a pena. Além dele, outros cinco condenados estão soltos, seja esperando decisão da Justiça para executar a sentença, em liberdade domiciliar ou em regime aberto. Um dos réus morreu, outro teve a pena prescrita e apenas um dos executores dorme na prisão, mas tem autorização para sair durante o dia. Impunidade revoltante!

E o que dizer do caso de Madalena Gordiano? Mulher negra mantida 38 anos em trabalho análogo à escravidão e só resgatada em novembro de 2020.  Os responsáveis por esse crime, que eram seus algozes e embolsavam sua pensão de quase R$ 8 mil, deixando-a praticamente à míngua, Dalton Cezar, professor universitário, e sua mãe, Maria das Graças Milagres. Até agora estão em liberdade. Mais impunidade?

Mais inacreditável ainda é que tenhamos um governo omisso pra combater tal descalabro, que só não é mais doloroso porque os servidores públicos, no caso os auditores do trabalho, seguem fazendo seu trabalho mesmo sem recursos e sobrecarregados.

Em 26 anos, cerca de 5,5 mil estabelecimentos foram auditados e mais de 53 mil trabalhadores resgatados. Atualmente, cerca de 250 estabelecimentos são fiscalizados por ano, embora o orçamento anual para isso tenha despencado de R$ 65 milhões anuais para algo em torno de R$ 25 milhões, ou seja, um recuo de mais de 60%. Não bastasse isso, faltam funcionários: desde 2013 não é realizado concurso público e com isso existe um déficit de 1,5 mil fiscais.

Embora as fiscalizações continuem, o número de trabalhadores resgatados tem diminuído, e a pandemia da Covid 19 está escancarando as mazelas que assaltam os trabalhadores e trabalhadoras cotidianamente.

Sempre alertamos e lutamos contra a Reforma Trabalhista de 2017, que rebaixou os padrões de dignidade e decência no mundo do trabalho. Para a Comissão Pastoral da Terra (CPT), que acompanha de perto esse triste fenômeno, ela abriu as portas para o trabalho escravo, porque muitos trabalhadores aceitam o inaceitável com medo de perder o pouco que conseguiram. E ainda há o medo de denunciar e ter de pagar as custas do processo trabalhista.

Portanto, cabe a nós, sociedade civil organizada, nos mantermos vigilantes. Em que pese a publicação da lista suja dos empregadores que lançam mão do trabalho em condições análogas à escravidão e ainda o pagamento de três meses de seguro-desemprego para quem é resgatado dessa situação, é flagrante a omissão do governo federal em combater essa chaga.

A vigilância tem de ser reforçada. Depende de todos. Portanto, use o Disque 100 se deparar com situações suspeitas de trabalho escravo.

Iêda Leal – Coordenadora Nacional do Movimento Negro Unificado


Salve! Pra você que chegou até aqui, nossa gratidão! Agradecemos especialmente porque sua parceria fortalece  este nosso veículo de comunicação independente, dedicado a garantir um espaço de Resistência pra quem não tem  vez nem voz neste nosso injusto mundo de diferenças e desigualdades. Você pode apoiar nosso trabalho comprando um produto na nossa Loja Xapuri  ou fazendo uma doação de qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Contamos com você! P.S. Segue nosso WhatsApp: 61 9 99611193, caso você queira falar conosco a qualquer hora, a qualquer dia. GRATIDÃO!

PHOTO 2021 02 03 15 06 15


 E-Book Caminhando na Floresta

Um livro imperdível sobre a experiência do autor na convivência com os seringueiros do Vale do Acre nos tempos de Chico Mendes.

COMPRE AQUI

Capa Caminhando na Floresta 1560x2050 px Amazon 1

Block

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Parcerias

Ads2_parceiros_CNTE
Ads2_parceiros_Bancários
Ads2_parceiros_Sertão_Cerratense
Ads2_parceiros_Brasil_Popular
Ads2_parceiros_Entorno_Sul
Ads2_parceiros_Sinpro
Ads2_parceiros_Fenae
Ads2_parceiros_Inst.Altair
Ads2_parceiros_Fetec
previous arrowprevious arrow
next arrownext arrow

REVISTA

REVISTA 115
REVISTA 114
REVISTA 113
REVISTA 112
REVISTA 111
REVISTA 110
REVISTA 109
previous arrowprevious arrow
next arrownext arrow

CONTATO

logo xapuri

posts recentes