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Povo Kalunga usa mapeamento digital para defender seu território

Kalunga produz seu próprio Mapa de Sociobiodiversidade

Kalunga: Maior Território Quilombola do Brasil produz seu próprio Mapa Georreferenciado de Sociobiodiversidade

Em meados do mês de janeiro, com um grupo de amigos, deixei Formosa numa manhã de sexta-feira rumo ao município de Cavalcante, no nordeste goiano, epicentro do maior território quilombola do Brasil, onde vivem cerca de 1,5 mil famílias do povo Kalunga, em 261.999,69 hectares.

Andávamos em busca de um bom banho na Cachoeira de Santa Bárbara, uma das mais lindas do Brasil, e eu, particularmente, de saber mais sobre a construção de uma usina hidrelétrica (PCH) em área sagrada para o povo quilombola, já em fase de audiência pública, à revelia da vontade dos Kalunga, por familiares do governador de Goiás, Ronaldo Caiado.

De Formosa, fi z contato com Vilmar Kalunga, desde 2014 presidente da Associação Quilombo Kalunga (AQK), que mora em Cavalcante, e com Ester Kalunga, vice-presidenta da AQK, moradora do município vizinho de Teresina de Goiás.

Vilmar veio me ver na manhã do sábado, na pousada onde nos hospedávamos. Com Ester nos encontramos na cidade, a caminho do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga – SHPCK, onde Vilmar novamente se juntou a nós para o almoço.

Naquela manhã de conversas produtivas, de imediato soube que a matéria da PCH dos Caiado, que pretendo escrever para a Xapuri, carece de mais tempo e mais pesquisa, razão porque penso voltar logo a essa cidadezinha acolhedora e pitoresca que é Cavalcante.

De toda forma, ganhei do Vilmar um lindo Calendário da Biodiversidade Kalunga, com imagens de 19 espécies ameaçadas, em risco de extinção, identificadas pelas próprias comunidades quilombolas. E essa virou a minha história.

Soube que, por coincidência, a AQK estava começando na- queles dias o projeto “Uso do Geoprocessamento na Gestão do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga – SHPCK”, por meio do qual o povo Kalunga fará, ele mesmo, o mapeamento da sociobiodiversidade do seu território.

Fomentado pelo Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (Critical Ecosystem Partnership Fund – CEPF) o projeto, aprovado em junho de 2018, contou, primeiro, com a formação de 24 jovens Kalunga e a contratação de um especialista sênior para, até julho de 2019, realizar pesquisa domiciliar em todas as residências de todas as comunidades Kalunga, localizadas nos municípios de Alto Paraíso, Cavalcante, Campos Belos, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás.

Kalunga Durval Motta CalendárioFoto: Durval Motta

O Calendário, explica Vilmar, faz parte da estratégia de engajar o povo Kalunga com os objetivos do projeto que, combinando entrevistas pessoais com tecnologias de geoprocessamento, pretende “conhecer com profundidade a realidade das comunidades, para promover a ocupação sustentável do SHPCK e fazer com que os Kalunga sejam reconhecidos, nacional e internacionalmente, como defensores do patrimônio cultural e de biodiversidade do território onde vivem há quase três séculos.

Nessa etapa, a AQK fará a associação dos levantamentos de campo com a base cartográfica e o mapeamento temático, realizado por meio de geoprocessamento e sensoriamento remoto. Será feito também o levantamento cadastral das atividades de garimpo, retirada ilegal de madeira e pesca predatória, e dos atrativos turísticos. Durante todo o processo, serão entregues os calendários em pontos estratégicos, como nas escolas, comércios, associações comunitárias, e em cada casa quilombola.

Eles servem, no dizer de Vilmar, para conscientizar as famílias e as comunidades sobre a importância da participação de todos para a gestão ambiental e preservação da biodiversidade de toda a área Kalunga. Em especial, o Calendário compartilha os resultados de um levantamento prévio da AQK, que identificou 19 espécies ameaçadas, encontradas na área Kalunga.

Segundo Ester Kalunga, as espécies-alvo de conservação foram priorizadas de acordo com o critério de grau de ameaça, focado em espécies que enfrentam risco extremamente elevado de extinção na natureza, exigindo ações urgentes de conservação.

Vilmar complementa: “se essas espécies puderam ser identificadas a partir da experiência centenária da nossa vida em harmonia com o Cerrado, a ampliação do conhecimento por meio deste projeto do mapeamento da sociobiodiversidade permitirá ao nosso povo Kalunga cuidar ainda mais da preservação do bioma que lhes serve de morada neste nosso combalido planeta Terra”.

MAPA DO TERRITÓRIO KALUNGA

Kalunga mapa

SOBRE A ASSOCIAÇÃO KALUNGA

A Associação Quilombo Kalunga (AQK) é uma organização civil, sem fins lucrativos e sem finalidade econômica, voltada para a defesa dos interesses e direitos de todas as comunidades formadas por moradores do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga (SHPCK), espalhadas entre os municípios goianos de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás. Fundada em outubro de 1999, a AQK é constituída pelas Associações Kalunga de Cavalcante, de Monte Alegre, de Teresina e do Engenho II, além da Epotecampo. Mais informações: (62) 3494-1062, aqkalunga@gmail.com e https://www.facebook.com/pg/ AQK-Associação-Quilombo-Kalunga.

ANOTE:

Zezé Weiss – Jornalista Socioambiental.

Participaram da visita a Cavalcante: Aloizio Mercadante, Athos Pereira da Silva, Joseph Weiss, Regina Barros e Thaís Maria Pires.

Contribuíram com informações e fotos para esta matéria: Calleb Reis, Durval Mota e Karin Villatore.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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