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MAIS OU MENOS ESTADO?

MAIS OU MENOS ESTADO?

MAIS OU MENOS ESTADO?

Fechando uma era em que o Estado tinha um papel central e anunciando outra em que mudaria radicalmente de lugar, Ronald Reagan dizia: “O Estado deixou de ser solução, para ser problema”.

Começava a era neoliberal, em que os debates centrais se dariam tendo o Estado como tema decisivo. No período histórico do pós-guerra até os anos 1970, o Estado foi motor da expansão econômica e garantia dos direitos no Estado de bem-estar social. O neoliberalismo promoveu o Estado mínimo e a centralidade do mercado.

O período histórico começado no pós-guerra foi aquele em que houve maior crescimento econômico em toda a história do capitalismo – Eric Hobsbawn diz que foi a “era de ouro do capitalismo” -, ao mesmo tempo em que foram os anos em que mais melhoraram as condições de vida da massa da população. Na Europa houve três décadas de pleno emprego, entre outras conquistas sociais.

Cresciam os EUA, assim como as outras locomotivas do capitalismo então, a Alemanha e o Japão, assim como cresciam os países socialistas e os latino-americanos. Naquele período o eixo da expansão econômica eram grandes conglomerados internacionais, de que os da indústria automobilística foram os mais expressivos.

O esgotamento do período desenvolvimentista promoveu a abertura dos mercados nacionais, a liberalização do mercado de capitais e, com ela, uma gigantesca transferência de capitais do setor produtivo para o setor financeiro. Porque, como dizia o Marx, o capitalismo não está feito para produzir, mas para acumular.

O eixo da economia capitalista passou a ser assim o capital financeiro. Um capital financeiro distinto, não o que financia a produção, o consumo ou a pesquisa, mas o capital financeiro que vive da compra e venda de papéis, que vive do endividamento de governos, de empresas e de indivíduos. Quando começou a crise econômica internacional em 2008, Obama anunciou que era preciso salvar os bancos, senão suas telhas cairiam na cabeça de todos.

Os bancos se salvaram. Quem quebrou em seguida foram os países, como a Grécia, Portugal, Espanha, Itália. Enquanto os bancos se enriqueceram como nunca. Quanto maior endividamento, mais os bancos se fortalecem.

Hoje no Brasil, por exemplo, não faltam capitais. Basta ver o balanço dos bancos privados, como seus lucros aumentam exponencialmente. Os recursos estão na bolsa de valores, na sonegação das grandes empresas, nos paraísos fiscais. Mas quando se anuncia, ao final de cada dia, o movimento da bolsa de valores, são cifras astronômicas, porém não se produziu nem um bem, nem um emprego. Ao contrário, se intensificou a concentração de renda, se colocou em movimento capitais na esfera puramente especulativa.

Essa situação é produzida pelo enfraquecimento da regulação estatal do mercado econômico e suas desastrosas consequências sociais, entre elas, altos níveis de desemprego. Menos Estado significa mais mercado. Mais mercado significa mais capital financeiro e mais especulação financeira. Com mais recessão.

Quem prega a retomada do crescimento econômico, que precisa da garantia dos seus direitos sociais, quem quer o Brasil com uma política externa soberana, demanda mais Estado, menos liberalismo econômico. O mundo foi menos injusto, quando foi menos liberal.

Quem precisa do Estado é a grande maioria, relegada e excluída pelo mercado. Menos Estado favorece a especulação financeira, a recessão econômica e a exclusão social. Democracia social, econômica e política só podem existir com um Estado regulador, que legitimamente representa toda a sociedade, com governantes legitima e democraticamente eleitos.

Emir Sader , Sociólogo, Autor do livro “O Brasil que queremos. ”

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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