Mercúrio do garimpo contamina peixes dentro e fora da Amazônia

Mercúrio do garimpo contamina peixes dentro e fora da Amazônia

Uma tecnologia barata, mas com um custo socioambiental altíssimo. Essa é a definição do uso do mercúrio na mineração do Brasil. Para os garimpeiros, é a forma mais rápida para separar o ouro do cascalho. Para a sociedade, representa uma série de danos que geram efeitos em cascata. “Não é justo que em nome da economia de uma atividade que não é sustentável, a gente coloque em risco não só o meio ambiente, mas toda a sociedade amazônica e brasileira”, resume o biólogo e doutor em ecologia Jansen Zuanon, também pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Por Alicia Lobato

O mercúrio, que serve de ímã para grudar os pedaços menores de ouro, tornando-os mais visíveis e fáceis de serem separados, ainda é usado em larga escala pelos garimpeiros ilegais. Essa atividade causa impacto em todo o ecossistema e na cadeia biológica do entorno: contamina as águas e degrada as condições de saúde de comunidades ribeirinhas, de cidades próximas, e se estende para além da região. Ao ver as cerca de 300 balsas alinhadas no rio Madeira, no município de Autazes (AM), pode-se imaginar o potencial do dano por causa da atividade. As imagens varreram o mundo.

As dragas funcionam da seguinte forma: as mangueiras são jogadas no fundo do rio e, por meio de bombas, a água é sugada, passando por uma esteira. É nessa etapa que o mercúrio é usado, separando o ouro das pedras e da lama. A água contaminada é devolvida ao rio novamente. A inalação do produto já é um risco, podendo causar danos nos pulmões. Mas quando despejado num curso d’água, onde encontra um ambiente sem oxigênio, ele se transforma no metilmercúrio, substância muito perigosa para o organismo humano. 

Os peixes carnívoros têm a maior probabilidade de serem os que vão acumular mais metilmercúrio no organismo, pois se alimentam de outros peixes pequenos que podem estar contaminados, como é o caso da piracatinga. Muitos pescadores utilizam a carne do boto ou do jacaré como iscas para capturar essa espécie de pescado que, por serem animais grandes, podem ter uma elevada contaminação de metilmercúrio. Mesmo não sendo tão consumidos na região, há um mercado em potencial para a piracatinga, principalmente, fora do país.

“Nós exportamos eles, legal ou ilegalmente, para outros países, mandando peixes contaminados com mercúrio para lá. É um caso de saúde pública, além de um caso de problema ambiental”, diz Zuanon, que é estudioso da ictiologia (ramo da zoologia que estuda os peixes).

A piracatinga é um peixe de couro que tem pouco consumo na Amazônia, mas encontra amplo mercado em outras partes do Brasil e em países como a Colômbia. No mercado de outras regiões, ele é conhecido como ‘douradinha’.

Nas pessoas, a contaminação pode causar desde dificuldades motoras, a problemas de visão e alterar outros sentidos, além de afetar o campo neurológico, comprometendo a memória. Algumas das pesquisas realizadas pela FioCruz, como reportou o site Infoamazonia, mostram que em crianças esses casos tornam-se mais graves. Em um estudo na Terra Indígena Sawré Muybu, no oeste do Pará, foram constatados sérios atrasos motores e anemia grave no povo Munduruku. 

Em novembro de 2020, a FioCruz e a organização WWF-Brasil realizaram um estudo que mostrou que 100% dos indígenas Munduruku haviam sido contaminados por mercúrio do garimpo. No dia 1º deste mês, o MapBiomas divulgou uma nota técnica sobre o garimpo no rio Madeira, mostrando que a área de garimpos terrestres na bacia do rio Madeira saltou de 3.753 hectares em 2007 para 9.660 hectares em 2020, um recorde histórico dos dados coletados há 36 anos.

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Na mesma nota técnica, o MapBiomas mostra que é totalmente possível monitorar, combater e eliminar a atividade realizada pelas balsas, já que imagens do satélite Cbers-4A, desenvolvido pelo Inpe, consegue localizar e rastrear essas embarcações. A iniciativa levantou imagens de satélite do dia 25 de outubro, portanto um mês antes do registro pela imprensa das mais de 300 balsas no rio Madeira. Na ocasião, já era possível observar 151 balsas de garimpeiros, em cinco aglomerações.

“O que assusta não é a técnica, mas a escala, a forma ‘consorciada’ de operar e a ‘convicção’ da impunidade frente à ilegalidade”, escreveram os pesquisadores liderados por Cesar Diniz, coordenador-técnico do Mapeamento da Mineração e da Zona Costeira do MapBiomas.

Segundo Jansen Zuanon, apesar de pesquisas que analisam os efeitos do mercúrio do garimpo nos peixes ainda serem raras, é possível afirmar por meio de estudos experimentais quais seriam essas reações. “Diminui a capacidade reprodutiva, causa alterações neurológicas que afetam o comportamento dos peixes que podem fazer com que algumas espécies não consigam fugir dos predadores ou tenham uma taxa de mortalidade maior do que a normal”, disse. 

A grande quantidade de balsas concentradas e as dragas acabam por “jogar aqueles montes de lamas e seixos que vão formando pequenas montanhas que chamam de ‘arrotos de draga’. Isso descaracteriza o fundo do rio e afeta negativamente tanto os peixes quanto outros seres aquáticos, e esse é o tipo de efeito mais permanente”, alerta Zuanon.

Antes mesmo de uma operação da Polícia Federal, que resultou na destruição de algumas dezenas de balsas, a maioria já havia se dispersado pelo rio Madeira. É comum que as balsas fiquem se locomovendo para outras áreas do rio.

Apesar de ser um risco que pode afetar todos que se alimentam de peixes, quem está mais próximo das áreas de garimpo são os que sofrem mais. “Os garimpeiros manuseiam o mercúrio manualmente, que entra em contato com a pele a partir do ponto onde é feita a queima. Esse vapor pode ser respirado por quem está fazendo a queima. A outra forma é pelo consumo, o organismo vai acumulando o mercúrio, principalmente peixes e outros animais que comem peixe, aí que entra um impacto muito maior”, diz o biólogo e também pesquisador do Inpa, Eloy Guillermo.

Muitos casos de contaminação por mercúrio do garimpo podem estar sendo subnotificados em postos de saúde, por falta de profissionais habilitados, como toxicologistas, para realizar essa identificação. Além disso, os sintomas da contaminação podem aparecer a curto ou a longo prazo, já que ao entrar no organismo ele se acumula no tecido, nos músculos ou nos ossos.

O geógrafo e mestre em ecologia Carlos Durigan acrescenta que a contaminação pode chegar ao sistema nervoso, ao fígado, à tireoide, que normalmente são associados a um outro problema existente. “Uma contaminação crônica que vai afetando a saúde, até hoje a ciência não sabe ao certo todos os efeitos, os estudos de contaminação são relativamente recentes”, afirma.

Para os especialistas ouvidos pela Amazônia Real, o garimpo não prejudica apenas o meio ambiente; é um trabalho que não segue nenhuma regulamentação, e que precisa ser interrompido imediatamente, como afirma Carlos Durigan. “É uma atividade que tem que ser banida.

Para explorar o ouro na Amazônia, temos que recomeçar do zero, construir uma nova agenda e discutir com especialistas para  promover alguns estudos para ver se é viável, possível”, afirma, alertando que atualmente ainda não existe nenhum modelo de exploração de ouro na Amazônia de forma sustentável.

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Alicia Lobato – Jornalista. Natural de Belém (PA) e vive em Manaus desde 2017. Desde 2019, integra a equipe da agência Amazônia Real www.amazoniareal.com.br onde esta matéria foi publicada originalmente.  Na agência, escreve reportagens que pautam a violência contra a mulher e o racismo. (alicia@amazoniareal.com.br). Capa: Amazônia Real. 


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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