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O doído tempo das biópsias

O doído tempo das biópsias

O doído tempo das biópsias

Missão AntiCâncer: Biópsias, Diagnóstico, Tratamento, e Mais Biópsias…

A íngua  que mudou minha vida apareceu na manhã de Natal do ano da graça de 2014.  Na casa do Jaime Sautchuk, na Reserva Particular de Patrimônio Natural Linda Serra dos Topázios, no município de Cristalina, no estado de Goiás.

Dormimos  cedo na noite do dia 24. Acordei animada na manhã do dia 25. Decidi tomar um banho frio para, em seguida, pegar a estrada rumo a São Francisco de Sales, no Triângulo Mineiro, onde, há 61 anos, minha avó Maria Feliciana  enterrou o meu umbigo debaixo de um velho pé de manga, em um local chamando Porto Mansinho, na barranca de uma curva do Rio Grande.

Voltando à água fria: abri o chuveiro e, na primeira ensaboada, senti um caroço grande, do tamanho de um limão,  debaixo da minha axila esquerda. Não doía, só incomodava um pouco. Decidi continuar a jornada rumo ao emaranhado de minhas raízes, quase mil quilômetros longe das terras do Bem-Querer, onde, pelo que me resta de vida nesta encarnação, finquei morada.

A Formosa, regressamos Joe eu na segunda quinzena de janeiro. Embora incomodando um pouco, o caroço continuava sem doer. Fiz os exames de rotina não uma, mas duas vezes. Os resultados gerais eram todos bons. As radiografias registravam cístico atípico, aparentemente benigno. Foi a deixa pra eu deixar rolar, sem insistir no aprofundamento da pesquisa.

O câncer é uma doença traiçoeira. De dezembro a maio, eu não sentia nada além de cansaço e perda de peso. Os dois sintomas eram consistentes com o estresse pelo qual  meu organismo passava, com doença grave em casa e tensão ao nível máximo no trabalho. Eu dormia pouco, comia pouco, vivia irritada e com sono. Dadas as circunstâncias, era um quadro que me parecia normal.

A juripoca só começou a piar mesmo, como dizemos aqui no Goiás, foi no final do mês de maio. Meu corpo pesou como se no meu sangue corresse chumbo. Na vida, jamais tive “preguiça”. Pois de maio em diante, a danada me pegou de jeito.  Preguiça passou a ser meu nome, codinome, apelido e sobrenome. E comecei também a sentir náuseas e dores terríveis no braço direito.

Em uma manhã de sábado, a dor era tanta que procurei uma emergência de hospital. Nela, o médico me disse da improbabilidade de que a tal da íngua fosse um câncer. “Fique tranquila, câncer não dói”, me disse o bom doutor. Mesmo assim, por desencargo de consciência, sugeriu uma ida minha à Clínica da Mama.

Fui na mesma hora. Esperei paciente um encaixe para ser atendida. Ante a reticência da médica, pedi muito que ela solicitasse exames de urgência. Na verdade, insisti tanto que a moça acabou me mandando direto pra sala de radiografias.  Comecei naquela manhã de sábado a maratona de exames, biópsias,  e mais biópsias.

Um grande aprendizado desse processo é que no diagnóstico de um câncer, a pressa é da gente, não do sistema.  Os resultados  sempre demoram, os médicos nunca atendem na hora marcada, um exame leva a outro, os minutos parecem dias, e os dias, maior que o tempo. Depois de uma “eternidade”, uma vez mais os resultados vieram inconclusivos.

De novo, mais exames e menos respostas. Uma doutora decidiu então partir para as biópsias.  Devíamos tentar o diagnóstico por histoquímica, me convenceu a médica que não conseguia entender o que se passava naquela obtusa inconclusão de resultados.  Fiz uma, duas, três, até que, depois da quinta, no dia 30 de junho veio o diagnóstico do carcinoma.

Tem horas em que me pergunto se é bom ou ruim ter muito conhecimento. No caso do diagnóstico, saí da Clínica da Mama sabendo que estava  com câncer, mas sobre  a gravidade da situação, ou o que fazer com ela, eu não tinha a menor ideia. Claro que já havia perdido amizades e familiares para o  câncer, mas metástase era uma palavra sem concretude no cotidiano do meu viver. Essa era uma coisa que fugia do meu conhecimento.

As semanas seguintes foram de muitas descobertas e infinitos medos. O mais difícil foi buscar onde estava a matriz do câncer (eu não sabia que câncer tinha matriz e filial, nem que a filial se chamava linfonodo). Fiz o tal do petscam (o exame mais avançado disponível no mercado) e nada de encontrar o tumor primário, que é o que se espalha se não for combatido a tempo e a contento. Eu também não sabia nada sobre tumor primário, muito menos que tumor primário pode ser oculto.

Veio então o doído tempo de mais biópsias, com mais tentativas semanais de encontrar a raiz do problema. Às vezes, mais de uma por semana. Histoquímica, mais histoquímica, outra palavra nova no meu vocabulário. No total, foram outras cinco semanas de biópsias, cada qual esgarçando o meu corpo, cada qual mais penosa do que a anterior. Não que o processo doa mais do que o suportável. O que de fato dói e atormenta é a infindável espera do resultado por dias, por semanas.

O resto é história conhecida: ano e meio de dupla quimioterapia, com dois quimioterápicos chamados Taxol e Herceptin, todas as náuseas do mundo, um arroxear de olhos que nem casca de fruta de jabuticaba, umas dormências de lascar os pés e nas mãos, e às vezes também no pescoço, uma mastectomia bilateral radical, e a decisão de extirpar do meu corpo esses expansores que me atazanam  a vida 24 horas por dia.

Nos exames pré-cirúrgicos de agosto, a novidade: Um outro linfonodo, com as mesmas características do anterior, resolveu dar as caras, dessa vez debaixo da minha axila esquerda. De novo, o “cístico atípico”, só que dessa vez sem a ingenuidade do “aparentemente normal”. Como é muito pequeno,  com meio centímetro de diâmetro, já estou na quarta biópsia e o material recolhido semanalmente tem sido insuficiente para um diagnóstico.

Essa semana era pra ter saído, no dia 29, o diagnóstico definitivo. Fui pra Brasília ontem, dia 30, pronta pra o que desse e viesse, mais para o que desse do que para o que viesse.  Fui buscar o resultado, torcendo pro “atípico” ser inofensivo, mas não tive resposta nenhuma, não estava pronto o resultado.  Voltei pra casa com a mesma agonia do mês de julho do ano passado, e uma vez mais aqui estou eu sem saber o que fazer.

De tudo o que passei até hoje com câncer, o mais doído não é o tratamento, nem a iminência concreta da finitude da vida.  É o tempo das biópsias. É essa corda no pescoço sem hora para a degola.  É esse esperar sem fim pelo aceno da esperança. É esse embrulhar da vida, esse desacomodo geral, esse inquietar de tudo.  Nhanderu, meu Nhanderuzinho, mais do que coragem, dá-me paciência!

Nota: A imagem deste post é de minha amiga fotógrafa Joseane Daher, feita na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, em 1989. A jovem com o conga em cima da mesa sou euzinha, colhendo assinaturas em um abaixo-assinado pela punição dos assassinos de Chico Mendes. Hoje, sigo firme na defesa da justiça social, da democracia e de uma vida melhor para os  povos da floresta. Nesses dias de agora, o que me salva é a militância.

Atualização: Estamos na primavera de 2019. Depois de umas outras tantas biópsias, continuo por aqui, lutando, e lutando muito por #LulaLivre. Gracias a la Vida, que me ha dado tanto!


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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