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Muvuca: mistura de sementes planta florestas

Muvuca: mistura de sementes planta florestas 

Implantação de tecnologia social supera diferenças e tem o potencial de curar feridas entre proprietários rurais, ambientalistas e comunidades tradicionais.

Por Tatiane Ribeiro/Instituto Socioambiental

O assumiu, durante a Conferência do Clima (COP 21), em 2015, o desafio de restaurar 12 milhões de hectares até 2030. O compromisso foi estabelecido no chamado que reuniu 195 países dispostos a tomar medidas para diminuir as consequências das mudanças ambientais, como o . Mas quais tecnologias de plantio podem tornar o cumprimento dessa meta possível?

Há alguns caminhos a seguir e a Associação Rede de Semente do Xingu (ARSX) escolheu um: a muvuca de sementes.

mistura de sementesO coletor Gilmar prepara muvuca de sementes no Projeto de Assentamento (PA) Jandira, no Mato Grosso

O nome pode soar estranho já que o termo ¨muvuca¨ remete à confusão, mas por trás da técnica de misturar sementes de várias espécies há muito cálculo e pesquisa. ¨Junto com o coletivo Mutirão Agroflorestal imitamos os povos ancestrais da América Central que plantavam uma mistura de sementes direto no chão¨, conta Eduardo Malta, coordenador técnico de restauração florestal do Instituto Socioambiental (ISA) e colaborador da ARSX.

A mistura de sementes agrícolas e florestais que compõe a muvuca segue a lógica da sucessão florestal. Mistura de sementes nativas e de adubação verde com areia que forma um insumo homogêneo propício para a formação da estrutura da floresta, a muvuca consegue colocar o dobro ou até dez vezes mais árvores por hectare e com metade do custo do que seria um plantio com mudas.

Para plantar e ter sucesso na restauração da área a longo prazo é preciso integrar espécies de ciclo curto, médio e longo. A alta densidade de árvores jovens e adubos verdes que tem sido observada nos estudos após a semeadura da muvuca cria um microclima úmido e protegido do sol e do vento para as sementes que vão germinando. A proximidade favorece a interação entre microorganismos presentes nas raízes das diferentes espécies e que complementam suas necessidades nutricionais, contribuindo para a vida e fertilidade do solo.

¨A composição com espécies de longevidade diferentes é importante porque há plantas de três meses, outras de seis, árvores que vivem dez, 30 e 100 anos e não pode ter um buraco nesse período”, explica Malta. Só assim, conta, espécies daquele bioma conseguem chegar na área que está sendo restaurada e a pode voltar a ser próxima a original.

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Sementes variadas compõe a muvuca

Troca de saberes

Para Malta, a principal inovação da muvuca é ser produto de uma cadeia produtiva de restauração ambiental que envolve diferentes atores: , produtores rurais, agricultores familiares e urbanos. Com a muvuca, os saberes dos indígenas e agricultores para produção junta-se a com a capacidade do produtor rural de plantá-las em diferentes sistemas. ¨Utilizamos técnicas de plantio dominadas pelos produtores da agricultura familiar e agroindustrial, como o plantio manual e o mecanizado com plantadeira ou calcareadeira¨, diz.

Os coletores também são importantes agentes de inovações das técnicas de produção. Com a prática são eles que apresentam formas mais eficientes e mais baratas usando ferramentas simples ou adaptadas de seu cotidiano. Cleusa Nunes de Paula, coletora do Projeto de Assentamento (PA) Macife, em Bom Jesus do Araguaia, conta que usa o martelo para fazer o beneficiamento da semente de sucupira: ¨Testo em casa e quando vejo que dá certo compartilho com os outros coletores.

A observação também confere conhecimento empírico aos coletores e aumenta a eficiência da semeadura. Ao plantar as sementes nos terrenos das suas casas eles percebem como as sementes germinam melhor, em qual ambiente nascem mais, em que ocasião demoram mais, entre outras informações. ¨Planto casadão () há 16 anos no meu lote, no começo erramos muito mas agora já sabemos como manejar para ter a melhor árvore e utilizá-la como matriz¨, conta João Carlos Ferreira dos Santos, coletor e morador do PA Dom Pedro, em São Félix do Araguaia.

Os coletores indígenas também implantam a muvuca no entorno das aldeias adaptando a técnica conforme aspectos culturais que interagem com o perfil das áreas em questão, considerando as demandas de uso do território caso a caso . Entre as dez aldeias do Território Indígena do Xingu (TIX) que trabalham na ARSX, quatro já fizeram plantios de muvuca: a Piyulaga, do povo Wauja, Moygu e Arayo, do povo Ikpeng e a Samaúma, dos Kawaiwete. ¨Fizemos o último plantio no ano passado em uma área que queríamos restaurar perto das casas e agora as plantas já estão grandes e vamos plantar mais porque o que a gente quer é fazer floresta mesmo¨, afirma Arikuta Wauja, articulador da ARSX no TIX.

Natureza e mercado

Além da diversidade de sementes a muvuca permite uma diversidade de aplicações. Em sistemas produtivos pode ser usada tanto numa horta agroflorestal, como para diversificar um milharal com feijão e árvores. Também pode formar sombra e madeira nos pastos, melhorar a cobertura do solo em entressafras de plantações como soja e feijão ou mesmo em roça de mandioca cuidando para ter espécies que colaborem com a produtividade. Para a restauração de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reserva Legais (RLs), geralmente a combinação inclui adubação verde e espécies nativas.

¨O pulo do gato da muvuca é que com uma operação só é possível implantar várias espécies. Nossas pesquisas apontam que o custo pode chegar a ser até três vezes menor do que o plantio realizado com mudas¨, conta Guilherme Pompiano, técnico em restauração florestal do ISA e colaborador da ARSX. Algumas espécies continuarão sendo plantadas como mudas, devido a características das suas sementes que não permitem secagem ou armazenamento. Portanto, as duas técnicas – semeadura direta e mudas – podem ser usadas ao mesmo tempo.

mistura de sementesA muvuca é uma mistura de sementes agrícolas e florestais com adubação verde

A composição do mix de sementes varia de acordo com o bioma onde será implantado e também com os objetivos de quem planta. Por isso também o preço da muvuca muda conforme a combinação de espécies escolhidas para arranjos de plantio e locais específicos. As sementes têm a precificação reajustada a cada ano acompanhando a disponibilidade na natureza e a demanda do mercado. ¨O valor de coletar uma semente específica varia de núcleo para núcleo coletor por questões logísticas e naturais e é preciso cobrir o custo mínimo que o coletor tem para fazer esse trabalho¨, explica Eduardo.

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Bruna, Breno e Heber, do ISA, preparam a muvuca | Tui Anandi-ISA

Outra vantagem técnica de utilização da muvuca é que as árvores plantadas têm o sistema radicular mais bem desenvolvido que as mudas, as raízes são mais profundas e conseguem sobreviver melhor à seca e a eventos extremos de mudanças ambientais.

A ARSX passou a vender as sementes em modalidade ¨muvuca¨ a partir de 2017 com a regulamentação da Instrução Normativa nº 17, de 26 de abril de 2017, estabelecida no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) que permite a venda de mix de sementes. Entre os principais clientes da Rede está o ISA, a Agropecuária Fazenda Brasil (AFB), a Borges Prudente e EcoBrasil, empresas que fazem restauração de matas nativas ao redor de reservatórios em Goiás, entre outras.

¨Mais de 5 mil hectares já estão em processo de restauração via aplicação de muvuca. Recentemente começamos a implantar nas áreas de restauração da empresa AES Eletropaulo, no Estado de São Paulo, e queremos expandir para outras regiões do país¨, aponta Eduardo.

Johannes van de Ven, diretor geral da Good Energies, organização não governamental que trabalha com a mitigação dos danos causados pelas , acredita no potencial da muvuca de reunir proprietários rurais e comunidades tradicionais e de contribuir na implementação do Código Florestal. ¨A restauração tem o poder de reconciliar pessoas e superar divisões desnecessárias. Nessa hora de tantas polêmicas, a muvuca pode curar feridas. Essa é uma oportunidade dessa tecnologia ocupar um espaço maior, chegar à outras áreas brasileiras e até outros continentes.¨

Fonte: Instituto Socioambiental


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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