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MULHERES TORTURADAS NA DITADURA: “UMA FERIDA QUE SANGRA SEMPRE…”

MULHERES TORTURADAS NA DITADURA: “UMA FERIDA QUE SANGRA SEMPRE…”

“Se o interrogatório é de longa duração, 

com interrogador “experiente”, 

ele te bota no pau de arara alguns momentos 

e depois leva para o choque, 

uma dor que não deixa rastro, só te mina.” Dilma Rousseff 

Por Zezé Weiss

Em 28 de dezembro de 1972, no auge dos chamados “Anos de Chumbo”, a jovem jornalista Maria Amélia de Almeida Teles, também conhecida como Amelinha, militante do PCdoB (Partido Comunista do Brasil), foi presa por agentes da ditadura. 

Junto com Amelinha, seu marido, César Teles, o companheiro de luta Carlos Nicolau Danielli, sua filha Janaína e seu filhinho Edson, de apenas 4 anos de idade, também foram levados para o Destacamento de Operações de Informação: Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). 

A família foi “recebida” pelo infame coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Ali, no prédio da rua Tutóia, 921, o maior centro de tortura da América Latina, Amelinha foi colocada na chamada cadeira do dragão – uma espécie de cadeira elétrica – na frente das crianças, que também ficaram presas, junto com ela, por quinze dias. 

Nas semanas seguintes, Ultra sumiu com os filhos de Amelinha. O coronel levou Janaína e Edson para a casa de um delegado e depois, nos seis meses em que Maria Amélia ficou no DOI-Codi, Ustra a deixou incomunicável, sem saber o paradeiro de suas crianças, “sem saber se estavam vivos ou não”. 

E essa, para Maria Amélia, é uma ferida que nunca cicatriza, que de vez em quando sangra, que sangra sempre. Há momentos em que você tem recaídas. É um trauma pra vida toda: sou sobrevivente, sou vítima, sou lutadora, sou militante, sou feminista, porque sou deste mundo e participo do que está acontecendo. A tortura te maltrata muito”.

Em 2012, a presidenta Dilma Rousseff instalou a Comissão Nacional da Verdade, com o objetivo de apurar as violações dos direitos humanos que ocorreram no período entre 1946 e 1988, o que inclui a ditadura militar (1964-1985). 

Guerreira, Maria Amélia de Almeida Teles se incorporou à Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. Dali, Amelinha montou seu front para dar visibilidade e exigir justiça para todas as mulheres torturadas pela ditadura militar no Brasil. 

Esta matéria registra um pouco dessa história e inclui parte do texto “Violações dos direitos humanos das mulheres na ditadura”, publicado por Maria Amélia Teles na Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, setembro-dezembro/2015.

Ditadura Nunca Mais!

VIOLÊNCIA CONTRA OS DIREITOS HUMANOS DAS MULHERES NA DITADURA

Uma parcela de mulheres entrou para as organizações de esquerda clandestinas e militou nas mais de 40 organizações políticas revolucionárias e de resistência. Houve mulheres que se integraram às guerrilhas urbanas e rurais, outras participaram de ações políticas, como a organização e manutenção da imprensa clandestina, a distribuição de material impresso e o cuidado de casas (chamados de aparelhos) que serviam de base para estruturar as organizações e as atividades.

Essas organizações políticas foram duramente atingidas pela repressão, tiveram suas direções eliminadas pela ditadura, até aquelas que não participaram da luta armada sofreram o extermínio de suas direções. Houve mulheres sequestradas, torturadas, estupradas, assassinadas e desaparecidas. O Projeto Brasil Nunca Mais analisou os casos de 7.367 militantes processados pela justiça militar, sendo que, destes, 12% eram mulheres. 

O Estado Maior do Exército fez um levantamento de presos políticos que se encontravam nos quartéis, num determinado momento do ano de 1970, e chegou a um total de mais de 500 militantes. Desse total, 56% eram estudantes, com idade média de 23 anos, 26% eram mulheres. Na Guerrilha do Araguaia, ocorrida no sul do Pará, entre 1972 e 1975, dos 70 guerrilheiros desaparecidos, 17% eram mulheres. 

As torturas praticadas nas mulheres, assim como nos homens, faziam parte da estratégia política de Estado. Ainda sob a ditadura militar, homens e mulheres denunciaram perante a Justiça Militar as torturas sofridas, mesmo que isso representasse um sério risco de que elas voltassem a acontecer. Segundo o Brasil Nunca Mais, 1.843 pessoas denunciaram frente aos tribunais as torturas a que foram submetidas, e nenhuma providência foi tomada, por parte da justiça militar ou de qualquer instância de poder, no sentido de investigar e impedir tais atrocidades. 

A participação de mulheres nas organizações políticas clandestinas, de um modo geral, foi para garantir a infraestrutura das ações políticas e militares; na imprensa clandestina, pegaram em armas, viveram a clandestinidade de diversas formas, com outros nomes, outras identidades, deslocaram-se para várias partes do país ou para outros países, engravidaram, fizeram abortos ou tiveram filhos e os amamentaram, e choraram as perdas de pessoas queridas e amadas. […]. 

GREVE, ABORTAMENTO FORÇADO E ESTUPRO

A greve de Contagem (MG) foi a primeira e, de certa forma, foi uma surpresa para a ditadura militar.  Foi deflagrada no dia 16 de abril de 1968 pelos metalúrgicos da Siderúrgica Belgo-Mineira. Esses trabalhadores foram acompanhados por outros de outras empresas como a Mannesmann, a Mafersa, a RCA Victor, a Acesita e tantas mais. 

CONCEIÇÃO IMACULADA DE OLIVEIRA

A liderança que conduziu a greve de Contagem com muito sucesso e que, até hoje, quase nunca é lembrada, foi uma mulher, Conceição Imaculada de Oliveira. Algum tempo depois, ela foi presa, grávida: A repressão não se esqueceu da Conceição, secretária do Sindicato de Metalúrgicos a que o ministro Passarinho (Coronel do Exército Jarbas Passarinho que àquela época era Ministro do Trabalho) queria encontrar na época da mobilização da massa operária.

Presa grávida, foi submetida a um aborto criminoso em uma sala comum do DOPS de Belo Horizonte (MG), na presença dos demais presos políticos e dos policiais. […] para assistir […] à cirurgia, praticada sem anestesia, sem nenhum cuidado higiênico e, inclusive, sem os instrumentos cirúrgicos necessários para uma operação. 

Quando, impotente, a vítima gritava, os torturadores faziam um alarido histérico e sádico, gritavam de alegria, diziam palavrões aos indignados espectadores mantidos sob ameaças dos fuzis.

Gilse Avelar, integrante do movimento popular de apoio às greves de Minas e levada à prisão junto com outras quatro mulheres: Loreta Kiefer Valadares, Delcy Gonçalves, Maria do Rosário Cunha Peixoto e Laudelina Maria Carneiro, relatou: 

[…] Em 23 de agosto de 1969, fui levada à presença do tenente-coronel Valdir Teixeira Góes, do 12º Regimento (12º RI localizado no bairro de Barro Preto, em Belo Horizonte-MG), que informou que eu seria entregue aos torturadores capitão Jesu  e  sargento  Leo,  ambos  da Polícia Militar, que se encarregariam de espancar-me, colocar-me  no  pau-de-arara,  divertir-se  com  meu corpo  e,  finalmente,  violentar-me  […].  Às 19hs fui conduzida até um posto policial isolado. […] depois de ser violentamente despida, até ficar totalmente nua, estive durante nove horas sob a sanha desses policiais, que se revezavam em combinações de torturas físicas, psicológicas e sexuais.

Loreta Kiefer Valadares declarou:

[…] Por ordem do tenente-coronel Góes, fui levada pelo capitão Jesu ao Colégio Militar de Belo Horizonte, onde fui submetida a torturas físicas, morais e sexuais perpetradas pessoalmente pelo capitão Gomes Carneiro, do Exército, na presença do tenente Marcelo. As torturas consistiam em carícias por todo o corpo, abraços e sussurros nos ouvidos, logo transformados em golpes de caratê no estômago, bofetadas e principalmente vários golpes de “telefone” nos ouvidos, que quase me deixaram surda […].

A MISOGINIA DA DITADURA

A participação das mulheres se deu por decisão delas próprias. Ao assumirem uma posição política de transformar a ditadura em liberdade, justiça e democracia, passaram a engrossar as diversas trincheiras de lutas, das ações de repúdio à ditadura, seja de luta armada ou não, o que irritou profundamente os militares que esperavam que elas fossem facilmente dominadas e controladas por eles. 

Eles não aceitavam que as mulheres pudessem exercer livremente o seu direito de escolha, inclusive de lutar contra a ditadura. Eles odiavam as militantes que fugiam do estereótipo da submissão, da dependência e da incapacidade de tomar decisão. A tortura foi amplamente usada contra mulheres e homens. No entanto, as mulheres foram submetidas de forma mais intensa à tortura sexual, como os estupros, as mutilações, inclusive com uso de animais vivos. 

Os militares, de início, subestimaram a capacidade das mulheres, mas, ao vê-las atuando na luta, inclusive com uso de armas, tiveram reações de ódio e repúdio. Isso porque as militantes políticas daquela época romperam com preconceitos e barreiras machistas. Tiveram até que enfrentar a própria organização política de esquerda em que atuavam. A esquerda também tinha preconceito e as discriminava. 

Assim, as militantes tiveram que subverter a ordem do estado ditatorial e a ordem interna de suas organizações políticas. Eram duas vezes subversivas. A ditadura as via como uma ameaça, daí se justificava a censura aos temas sobre mulheres, o que aconteceu no Brasil, na Argentina e em outros países da região.

Como assessora da Comissão da Verdade “Rubens Paiva”, tive oportunidade de ter contatos com documentos da repressão política (DOI-Codi, Cenimar, Cisa, Dops, entre outros) e também de ouvir relatos de militantes. 

Não era raro ver que as militantes mulheres recebiam um tratamento bastante diferente dos militantes homens.  Os documentos, quando se referiam à mulher, usavam expressões como “ativa fanática em subversão”, “bom grau de inteligência” “moça de muita valentia”. Eles nunca diziam que um homem era fanático, ou mesmo inteligente. A premissa básica é de que os homens são inteligentes, valentes e racionais, portanto, não seria necessário mencionar isso no relatório a seu respeito. 

A repressão tratou as mulheres como muito perigosas, pois elas queriam “superar os homens”, eram consideradas promíscuas porque eram capazes de abandonar seu “papel social” a ponto de aspirar ao poder político e participar da luta armada. 

O Relatório da Operação Sucuri, que trata da primeira campanha militar contra a Guerrilha do Araguaia, ao descrever a guerrilheira Lucia Maria de Souza (Sônia), a descreve como uma mulher de corpo bonito. Nenhum guerrilheiro recebeu uma descrição desse tipo. 

O USO DE ANIMAIS VIVOS NAS SESSÕES DE TORTURA E A MORTE DA GUERRILHEIRA

A repressão, ao combater as mulheres de esquerda, tratou-as com requintes de crueldade, e os torturadores faziam questão de afirmar como os interrogatórios eram feitos: “Aqui só morre quem a gente quer”, eles diziam. Eles usaram vários métodos de tortura. Usaram também animais e insetos vivos para praticarem torturas em homens e mulheres.  

LÚCIA MURAT

Lucia Murat foi presa política e torturada. Nasceu em 1949, no Rio de Janeiro.  É cineasta com diversos filmes premiados, entre eles “Uma longa viagem” e “Quase dois irmãos”. Aqui cito trecho de seu depoimento à Comissão Nacional da Verdade, no Rio de Janeiro, em 28/5/2013.

Foto: Domínio Público

Eu não sei bem o que se passou quando eu voltei. As lembranças são confusas. Eu não sei muito bem como era possível, mas sei que tudo ficou pior.  Eles estavam histéricos, eles sabiam que precisavam extrair alguma coisa em 48 horas, se não perderiam o meu contato. Gritavam, me xingavam, me puseram de novo no pau de arara. Mais espancamento, mais choque, mais água, e dessa vez entraram as baratas. Puseram baratas passeando pelo meu corpo, colocaram uma barata na minha vagina. Hoje parece loucura, mas um dos torturadores de nome de guerra “Gugu” tinha uma caixa onde ele guardava as baratas amarradas por barbantes e através do barbante ele conseguia manipular as baratas pelo meu corpo.

Há mais denúncias, no Relatório final da Comissão Nacional da Verdade, de uso de animais vivos: “Presos políticos foram expostos aos mais variados tipos de animais, como cachorros, ratos, jacarés, cobras, baratas, que eram lançados contra o torturado ou mesmo introduzidos em alguma parte de seu corpo.

Especificamente em relação aos camundongos, o torturador Lourival Gaeta, que atuou no DOI-Codi do II Exército, em São Paulo, durante a década de [19]70, explicava sua destrutividade uma vez introduzidos nos corpos das suas vítimas, com o argumento de que este animal não sabe andar pra trás. É de se imaginar que as vítimas submetidas a esse tipo de tortura feita por Lourival Gaeta deveriam morrer, em seguida, com hemorragia interna, pois os camundongos iam corroendo seus órgãos internos. Há ainda denúncias sobre esse torturador, que praticou outras formas de tortura, como violência sexual:

[…] Eu estava sentada na cadeira de dragão, nua, amarrada com fios de metal, levando choque no corpo todo, ânus, vagina. Enquanto isso, o Gaeta, que era um torturador, estava se masturbando e jogando esperma em cima do meu corpo nu… […] Num outro momento, estava sendo torturada em pé, nua, e caí no chão. Ele (o Gaeta) me pegou e me colocou numa cama de lona que estava na sala de torturas e começou a esfregar meus seios, apertar minha bunda […].

SONIA MARIA LOPES DE MORAES ANGEL JONES

Foto: Reprodução.

Sonia Maria Lopes de Moraes Angel Jones, de 27 anos de idade, foi sequestrada, juntamente com Antônio Carlos Bicalho Lana, 25 anos, pelos agentes do DOI-Codi/SP, em novembro de 1973. Ambos foram assassinados.

Sonia havia sido casada com Stuart Angel, também sequestrado, torturado, assassinado, cujo corpo nunca foi entregue aos seus familiares. Antes de ser assassinada, Sonia foi estuprada. O pai de Sonia Maria, tenente-coronel da reserva do Exército brasileiro e professor de matemática, João Luiz de Morais, denunciou seu assassinato sob torturas enquanto viveu. 

Minha filha foi morta nas dependências do Exército Brasileiro, enquanto seu marido Stuart Angel foi morto nas dependências da Aeronáutica do Brasil.  Tenho conhecimento de que, nas dependências do DOI-Codi do I Exército (SP), minha filha foi torturada durante 48 horas, culminando essas torturas com a introdução de um cassetete da Polícia do Exército em seus órgãos genitais, que provocou hemorragia.

Todas as investigações não confirmam exatamente a data da morte da Sonia, mas o atestado de óbito, feito a pedido do DOI-Codi/SP, informa que ela teria morrido em consequência de hemorragia interna por ferimento de arma de fogo, sem nenhuma referência aos sinais evidentes de tortura. Informações dadas à Comissão Nacional da Verdade por testemunha ocular, cuja identidade é mantida em sigilo, indicam que Sonia estava deformada e ainda foi torturada com um rato introduzido em sua vagina. 

Os responsáveis pelas atrocidades vividas por Sonia, assim como sua morte, seriam o chefe de interrogatórios, Lourival Gaeta, que atuava no DOI-Codi/SP, e os integrantes de sua equipe.

GUERRILHEIRAS DO ARAGUAIA

Dos 70 guerrilheiros desaparecidos no Araguaia, 12 são mulheres. Seus nomes são: Áurea Eliza Pereira Valadão; Dinaelza Soares Santana Coqueiro; Dinalva Oliveira Teixeira; Helenira Rezende de Souza Nazareth; Jana Moroni Barroso; Lúcia Maria de Souza; Luiza Augusta Garlippe; Maria Célia Correa; Maria Lucia Petit da Silva; Suely Yumikom Kayamana; Telma Regina Cordeiro Correa; e Walkíria Afonso Costa.

Elas saíram de cidades grandes e se enveredaram na selva para conquistar justiça social, liberdades e o fim da ditadura militar. Fizeram um grande esforço pessoal, cada uma delas, para se tornarem guerrilheiras na selva amazônica, uma das maiores florestas, com uma grande biodiversidade, que exige uma adaptação enorme para sobrevivência.

 As mulheres se esforçaram e conseguiriam sobreviver não fosse a truculência das Forças Armadas, em particular do Exército brasileiro. Aprenderam a usar armas, a se rastejar na selva, a se orientar por dias e dias, a atravessar rios a nado, a subir em árvores, a plantar roça, a fazer partos, curativos e extração de dentes, a dar aulas para uma analfabeta e abandonada pelo Estado, a fazer caçadas, entre tantas coisas necessárias para sobrevivência na selva.

As guerrilheiras trabalharam também na costura de roupas para os integrantes do movimento, prepararam e organizaram depósitos de alimentação e medicamentos, e houve até uma delas, Walquiria, que cantava, tocava instrumentos (violão e acordeom) e compunha músicas.  Com tanta participação e empenho, não chegaram a ocupar cargos importantes na guerrilha, com exceção de Dinalva Oliveira Teixeira, que chegou a ser vice-comandanta. 

DINA

Dinalva Oliveira Teixeira, guerrilheira e uma das vítimas da Ditadura Militar do Brasil / Crédito: Foto por Memórias da Ditadura pelo Wikimedia Commons

Dinalva Oliveira Teixeira foi a primeira e única mulher a ocupar cargo de chefia na guerrilha rural. Dina, como era conhecida, às vezes foi confundida com outra baiana, que também estava na guerrilha, a Dinaelza, que era conhecida como Maria Dina. As duas eram consideradas pelos militares mulheres muito valentes.

Em vários confrontos, Dinalva, chamada de Dina na guerrilha, conseguiu escapar e dar continuidade à luta. Num desses confrontos, ela levou um tiro de raspão no pescoço, mas conseguiu escapar, fugindo para o mato, enquanto os demais guerrilheiros foram mortos.

Correm pela mata do Araguaia os feitos de Dina, seus confrontos com equipes do Exército, e sua fama de boa atiradora e combatente destemida. […] Com sensação de derrota por não ter capturado os mitos Dina e Osvaldão e pressionado a encerrar um conflito que poderia ganhar impacto no exterior, o Exército mudou de tática no Araguaia.

Segundo Élio Gaspari, no livro A Ditadura Escancarada, […] a mitológica Dina foi assassinada grávida. […].  As informações sobre essa guerrilheira são de que ela teria sido sequestrada juntamente com outra guerrilheira, Luiza Garlippe, por uma equipe de militares sob o comando do major Curió, numa emboscada.  

O próprio major já confirmou isso em diversas entrevistas. Dina estava, portanto, totalmente sob o controle do Exército, era uma das últimas guerrilheiras que ainda sobrevivia às atrocidades perpetradas por essa instituição. O nome de Dinalva era um dos poucos não riscados na folha pregada na parede da Casa Azul (um dos centros clandestinos de tortura e de extermínio, mantido pelo Exército brasileiro). Era a “peça” que faltava para o Exército considerar extinta a guerrilha.  

Com a mulher que virava borboleta, pomba e cupim livre na mata, a vitória da repressão jamais seria assimilada pelos caboclos nos barrancos dos rios, garimpos e povoados, acreditavam os militares.  O mito Dina se comparava ao de Perpetinha, a menina sequestrada por índios no ciclo do caucho. Mais de cem anos depois do rapto, ela ainda deixava mensagem nos troncos das árvores: “Por aqui passou Perpetinha”.

Sabe-se pouco sobre o assassinato de Dina e o que aconteceu com a sua gravidez. Morreu grávida ou teria tido sua criança antes de morrer? O major Curió relatou, em entrevista no dia 4 de março de 2004, no Estado de São Paulo, que: […] a operação para tirar de combate os principais comandantes da Guerrilha do Araguaia, Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, a Dinalva de Oliveira Teixeira, a Dina, foi definida numa reunião do presidente Garrastazu Médici com o Alto-Comando do Exército.

O Exército brasileiro tinha medo da Dina viva, pois ficaria com sua moral abalada se não tirasse a vida da guerrilheira.

O ESTUPRO DE UMA ADOLESCENTE

Filha do General Zerbini (cassado pelo golpe militar de 1964) e de Terezinha Zerbini, mulher que se destacou na luta pela anistia aos presos e perseguidos políticos, Eugênia Zerbini tinha 16 anos de idade, em 1970, quando sua mãe foi levada presa para a OBAN.

Isso aconteceu no dia 11 de fevereiro de 1970, quando homens à paisana, portando metralhadoras, foram até sua casa buscar Terezinha porque ela estava sendo acusada de dar apoio à subversão. Um deles se apresentou como sendo “Capitão Guimarães”.  Dois dias depois, Eugênia foi à Oban levar roupas íntimas, escova de dente e outros objetos de higiene pessoal para sua mãe. 

EUGENIA ZERBINI

Ao chegar lá, ela falou que […] era filha do General Zerbini e queria falar com o oficial do dia […]. 

Logo em seguida veio alguém. Assim, ninguém usava crachá, ninguém! Ele veio e fomos para uma sala.  A única coisa que me chamou a atenção era uma sala muito nua, não tinha nada de referência, não tinha folhinha, não tinha uma imagem, não tinha nada para se ter referência. Nem a fotografia do Garrastazu Médici que, em todos os lugares públicos estava.  Ele disse: “O que você veio fazer aqui?”.  Eu disse: “Eu vim trazer essas coisas para a minha mãe”. E ele: “O que a sua mãe fez?” Aí, até hoje eu me arrependo, eu falei: “Vocês devem saber melhor do que eu, porque vocês a prenderam e não eu”. Eu acho que eu não devia ter dito aquilo.  Ele respondeu: “Ah! Pois não”.  Levantei e aí ele me agarrou e eu fui violentada ali.  […].  Não tive coragem de contar para ninguém, nem para o meu pai, nem para minha vó […]. A gente sente vergonha… […] Agora que tornei público isso, fiquei mais leve.  Sei que não foi a mim, eles estavam fazendo isso para atingir meu pai e minha mãe.  E eu fui um veículo que estava à mão.

Eugênia ficou em silêncio por 43 anos, de 1970 até 2013. Ela tinha 60 anos à época do depoimento prestado na audiência da Comissão da Verdade “Rubens Paiva”, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, em 9/4/2013. Na ocasião, ela pediu à Comissão da Verdade para identificar o funcionário que ocupava o cargo de “oficial do dia” na OBAN (DOI-Codi/SP), no dia 13 de fevereiro de 1970, por volta das 15 horas. O Exército não deu nenhuma informação até o momento.

Foto: Divulgação.

MATERNIDADE

As militantes foram mulheres diferentes, despojadas. Muitas tiveram suas crianças na clandestinidade. Crianças que, em muitos casos, não puderam ter seus nomes verdadeiros e não sabiam os nomes de seus pais devido às perseguições sem trégua. Isso obrigava seus pais e suas mães a manterem identidade falsa inclusive para suas crianças. 

Muitas conceberam e pariram seus filhos em situações de extremo risco.  Foram mães inéditas. Houve mães cujas crianças nasceram sob a ameaça de tortura nas prisões. Nos países vizinhos, houve sequestro dos bebês pelos militares. Aqui no Brasil, houve, no Araguaia, pelo menos uma criança nascida em cativeiro e sequestrada. 

A maternidade foi um dos meios de tortura utilizados pela repressão política. Foi usada para enlouquecer e fragilizar militantes, o que causou, em muitas situações, o enfraquecimento afetivo e emocional às mulheres e às crianças. As mães, por serem violentamente reprimidas pela ditadura devido à militância política, eram obrigadas a assistir suas crianças serem submetidas às mais vis torturas psicológicas ou físicas.  

Muitas mulheres grávidas sofreram abortamentos forçados durante as sessões de tortura. Em outros casos, eram aplicados choques elétricos em seus órgãos genitais. Não bastassem as violências, foram também estupradas por vários agentes do Estado. Até mesmo seus filhos foram condicionados a verem suas mães sendo torturadas.

Houve mães que sequer eram militantes, mas seus companheiros eram e, portanto, suas crianças foram submetidas a sequestros, ameaças de torturas ou chegaram a ver o assassinato de seus pais sob tortura. 

As crianças foram atingidas porque suas mães, na maioria dos casos, romperam com os estereótipos femininos, saíram dos papéis impostos de submissas e frágeis e se empenharam em ações que eram consideradas “de homens”, como o manejo de armas, a elaboração de estratégias políticas de enfrentamento e resistência na tentativa de obter justiça, liberdade e democracia. 

Eram mulheres que já tinham conquistado mais independência e autonomia. Para isso, tiveram que superar muitas barreiras nos campos pessoal, familiar, profissional, cultural e político. Tornaram-se sujeitos históricos e políticos. Trouxeram para o plano político de suas organizações as questões pessoais do cotidiano, inclusive a gravidez, a maternidade, o abortamento. 

Aqui, refiro-me ao caso de uma criança que sabemos ter nascido em cativeiro, embora ainda não saibamos exatamente quem era sua mãe. 

LIA CECÍLIA

Lia Cecília é o nome da criança, hoje uma mulher adulta com 40 anos de idade, nascida em 1974 na região da guerrilha do Araguaia, filha do guerrilheiro desaparecido Antônio Teodoro de Castro (1945-1974), cujo nome de guerra era Raul. Sob o título: “Sou a prova de que mesmo na guerra existiu um grande amor”, na página 305 do livro citado acima, Lia deixa o testemunho de sua “infância roubada”, situação que ela enfrenta com altivez e dignidade até os dias de hoje. 

Ela, com mais ou menos seis meses de idade, teria sido deixada na instituição Lar de Maria, em Belém (no Pará) por um delegado de polícia, acompanhado de um soldado, que afirmava que o bebê teria sido sequestrado. Quando ela tinha mais ou menos três anos de idade, uma mulher, Eumélia Martins, resolveu ficar com ela. Somente por volta dos nove anos de idade, ela começou a conhecer sua própria história. 

Mas ela conheceu melhor quando saiu uma matéria no jornal O Estado de São Paulo, em junho de 2009, que tratava sobre crianças sequestradas na guerrilhado Araguaia. Ela enviou um e-mail para o jornal, que a colocou de imediato em contato com uma irmã do guerrilheiro desaparecido, Antonio Teodoro Castro. Fizeram o DNA e o resultado foi positivo. Assim, ela começou a descobrir uma parte de sua história. Da mãe, ela não tem nenhuma informação. 

Imagem: Reprodução/ Aventuras na História

TORRE DAS DONZELAS

Durante os 21 anos em que a ditadura militar esteve vigente no Brasil, entre 1º de abril de 1964 e 15 de março de 1985, estima-se que mais de 800 mulheres foram presas, torturadas, violentadas, seviciadas, assassinadas. Um grupo delas foram encarceradas no conjunto de celas femininas do Presídio Tiradentes (demolido em 1972), em São Paulo, conhecido por Torre das Donzelas.

Ana MérciaAna Maria AratangyDarci MiyakiDulce Maia, Elza LoboEva Teresa SkazufkaGuida AmaralIara Glória Areias Prado, Ieda Akseruld Seixas, Ilda Martins da SilvaJanice Theodoro da Silva, Leane Ferreira de Almeida Lenira Machado, Leslie BeloqueLucia Salvia Coelho, Maria Aparecida dos Santos,   Maria Luiza BelloqueMarlene SoccasNadja Leite Nair Benedicto, Nair Yumiko KobashiRobêni Baptista da CostaRose NogueiraSirlene BendazzoliTelinha Pimenta e Vilma Barban são algumas das grandes mulheres brasileiras que ficaram presas e passaram por torturas na Torre das Donzelas.

Uma delas, Dilma Rousseff, foi a primeira mulher eleita presidenta do Brasil. Governou o país entre os anos de 2011 e 2016. Em 2012, instalou a Comissão Nacional da Verdade (CNV). Uma vez mais em sua história, passou por um golpe parlamentar e foi destituída do poder em 2016. Deu a volta por cima e é hoje presidenta dos BRICS, o Banco dos Países em Desenvolvimento, criado sob a liderança de Lula em 16 de junho de 2009.  

DILMA ROUSSEFF

Arquivo Público de São Paulo (AFP)

Dilma Vana Rousseff nasceu 14 de dezembro de 1947, em Minas Gerais. Em 1967, aos vinte anos, entrou para o grupo Política Operária (Polop), depois Colina, que se fundiu com a Vanguarda Popular Revolucionária e formou a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária), que tinha como estratégia a luta armada. 

Dilma foi então treinada para atirar e recebeu conhecimentos sobre bombas. Em uma entrevista para a revista Isto É, em dezembro de 2005, admitiu que sabia montar e desmontar, de olhos fechados, um fuzil automático leve. “Tinha que ser rápido, muito rápido. E, se você quer saber, eu sei atirar”. 

Mas Dilma nunca assumiu ter feito parte de qualquer ação militar do grupo, que chegou a roubar um cofre com 2,5 milhões de dólares do ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros. A organização se dividiu em 1969 porque parte do grupo, incluindo a camarada Dilma, não concordava com a estratégia de luta. 

Dilma Vana Rousseff foi presa em 16 de janeiro de 1970, no centro de São Paulo. Ela tinha 22 anos. Na prisão, conforme relatou ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho, passou por terríveis sessões de tortura que incluíam palmatória, pau-de-arara e choques. Em 1972, quando deixou a prisão, pesava dez quilos menos.

Zezé Weiss – Jornalista. 

 

 

Maria Amélia Teles – Guerrilheira. Jornalista. Escritora. Memorialista da Resistência contra a Ditadura. Exceto pela introdução e pelo perfil de Dilma Roussef, todos os conteúdos desta matéria fazem parte do artigo “Violações dos direitos humanos das mulheres na ditadura”, publicado por Maria Amélia Teles na Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, setembro-dezembro/2015. Exclusivamente por limitações de espaço, blocos do texto original foram cortados. Recomendamos a leitura do documento na íntegra, que pode se acessado em: Periodicos.ufsc. Foto de capa: Domínio Público.

 
 
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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