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Nelson Triunfo enfrentou ditadura para dançar break na rua

Nelson Triunfo enfrentou ditadura para dançar break na rua

Para artista, hip hop é, desde o início, de resistência

Por Daniel Mello/Agência Brasil

Pioneiro do break no , o artista Nelson Triunfo conta que foi preso muitas vezes por dançar na rua. “Eu ia preso direto. Tinha um delegado no Bixiga [região central paulistana] que, quando eu chegava lá, ele falava: ‘poxa rapaz, você de novo'. E eu falava: ‘doutor, eu não gosto de vir aqui, não'”, lembra sobre quando levou o break para as ruas do centro de São Paulo.

Era 1983, quando Triunfo e seu grupo começaram a dançar na Rua 24 de Maio, aproveitando o calçamento com pedras grandes que permitiam os passos deslizantes. O artista já dançava há algum tempo nos bailes paulistanos, como o Chic Show, quando teve contato com a estética do hip hop. “O pessoal de uma TV chamou a gente para imitar o pessoal da Soul Train [programa de TV norte-americano]”, conta.

No local onde os dançarinos de break começaram a se apresentar ao ar livre foi colocado, em 2014, o Marco Zero do Hip Hop, monumento composto por duas pedras no chão. Durante a entrevista para o programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, havia uma van da Polícia Militar sobre o monumento.

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Precursor do breaking no Brasil, Nelson Triunfo fala sobre a cultura hip hop no país – Rovena Rosa/Agência Brasil

“Antigamente ali era um jardim”, diz Triunfo apontando para o outro lado da rua. “E a gente sentava nele e aqui a gente dançava tudo isso. Mas, você vê o que é a desinformação, uma cidade como São Paulo, cultural, se alguma pessoa vem dos Estados Unidos ou de algum lugar para ver o Marco Zero, vai encontrar um carro em cima do Marco Zero”, reclama.

A presença da viatura não é só simbólica de como a polícia tratava o hip hop na década de 1980, mas também reflete o momento. Triunfo diz que, após a instalação de uma grande base da Polícia Militar na esquina da Rua 24 de Maio com a Dom José de Barros, deixaram de acontecer as festas de hip hop e reggae que eram realizadas semanalmente. “Toda quinta tinha o encontro, a Batalha do Point, aqui. Eles também acabaram”, lamenta.

Mesmo assim, a região continua sendo frequentada pelos artistas que fazem palco da rua. Enquanto a reportagem conversava com Triunfo, os dançarinos Rodrigo Chaw e Roberto Orlandi passaram carregando uma caixa de som e animando o ambiente. “Hoje, são eles que continuam o movimento na rua, nos trens. Eles vivem disso”, diz o veterano a respeito dos artistas mais jovens, que improvisaram uma apresentação com saltos mortais e giros de cabeça no chão.

Essa pulsão mostra, na visão de Triunfo, que o hip hop foi, desde o início, uma cultura de resistência. “Quando era a época do militarismo [ditadura] essas manifestações não podiam acontecer e, mesmo assim, a gente fazia elas acontecerem, era uma resistência”, enfatiza.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista com Nelson Triunfo.

Agência Brasil: Para começar com essa conversa sobre hip hop sobre break, queria que você me mostrasse onde está o Marco Zero do Hip Hop aqui em São Paulo.
Nelson Triunfo: Primeiro, nós começamos em São Paulo dançando na frente do Mapping [antiga loja de departamento, no centro paulistano], do Theatro Municipal, na Praça da Sé, na Praça da República. Teve um lugar que nós descobrimos que não precisava usar aquele papelão [para deslizar no chão]. O lugar tinha umas pedras enormes de granito. Esse lugar virou, a partir de 1983, 1984, um lugar onde todos os dias, menos no domingo, a gente se encontrava. Então, hoje, esse [lugar] é o Marco Zero do Hip Hop que eu vou te mostrar. [Caminha alguns passos e chega ao local onde há uma van da Polícia Militar].

Infelizmente, eu não vou poder mostrar para você, porque está debaixo do carro. Isso aqui é o Marco Zero, debaixo do carro, debaixo do pneu. Ali, está vendo as pedras? Então, essa pedra aqui é onde tudo começou. O marco zero de uma cultura maravilhosa, que nós temos campeões mundiais. Eles ganham medalhas e tudo. [A entrevista é interrompida pela passagem de dois jovens com uma caixa de som. Junto com Triunfo, eles dançam em uma breve apresentação improvisada.] Hoje, são eles que continuam o movimento na rua, nos trens. Eles vivem disso. [Diz em referência aos jovens dançarinos].

Agência Brasil: Então, o hip hop ainda é uma cultura viva por aqui?
Triunfo: Assim é o hip hop. Se a gente ficar aqui, de vez em quando, uns [artistas] vão passar por aqui. Precisamos recuperar a cultura do centro, porque ela hoje está no Brasil inteiro. Mas foi aqui que ela começou, justamente quando aqui se parecia um pouco com um deserto. Quando era a época do militarismo [ditadura] essas manifestações não podiam acontecer e, mesmo assim, a gente fazia elas acontecerem, era uma resistência.

Agência Brasil: Essa viatura em cima do Marco Zero então é simbólica que a polícia continua em cima do hip hop?
Triunfo: Toda quinta-feira tinha o encontro, a Batalha do Point, aqui. Eles também acabaram. Você gostaria de ver isso aqui parado, sem nada, ou gostaria de ter um pessoal aqui, cantando, rimando e outros aplaudindo? São Paulo com algo de mais alegre. Porque não é só de trabalho e de estudo que vive o homem. Nós precisamos também de lazer. Nós precisamos de cultura, certo?

Agência Brasil: E como foi a formação do hip hop aqui em São Paulo, com a reunião dos quatro elementos – break, grafite, DJ e MC?
​Triunfo: Há 50 anos, os quatro elementos se formaram. Mas se formaram porque já existiam esses elementos, que foram crescendo. Em 1981, em 1982, eles há tinham começado no Bronx e ido para o centro de Nova York, com o movimento já em outro patamar. Nós também estávamos indo aqui em São Paulo, há 40 anos, porque se conta o início a partir de 1983, quando eu levei pela primeira vez o meu grupo para a rua. Nós também já tínhamos os quatro elementos.

Agência Brasil: Você fazia o que antes do hip hop?
Triunfo: A base de tudo, original, para quem não sabe, é o funk, que trouxe tudo, com o James Brown e as bandas de soul. Eu era do soul. Os primeiros raps que samplearam, fechados em quatro tempos, eram com a base do soul. Eram cantados em cima do soul. O b-boys [dançarinos de break] eram um som mais apressado. Break não quer dizer dança, break é o break [parada] da música. Quando dava aquelas rufadas de percussão, os caras adoravam dançar. Dançavam no break da música – break boy – cara que dança no break [intervalo].

Então, nós fomos para a rua em 1983, no início. Nós já dançávamos no [baile] Chic Show, o [estilo] robô, o wave, um pouquinho de lock. Quando nós fomos para o Black Rio, a gente dançava só soul. Então, nós fomos vendo algumas coisas lá fora e o pessoal e uma TV chamou a gente para imitar o pessoal da Soul Train [programa de TV norte-americano], que eram justamente os The Lockers [grupo de street dance fundado na década de 1970]. Só que eu nem sabia que tinha a ver [com hip hop]. Depois, [vieram as influências] do pop, do rock, do wave, que vinham mais de Fresno de Los Angeles [na Califórnia (EUA)], do que de Nova York, que eram o rap e o break.

Tudo isso foi chegando, e eu, como já estava preparado, disse: “É agora!”. Chamei o grupo, e disse: “Vamos para a rua”. Mas não era fácil. De vez em quando eu pegava um BO [boletim de ocorrência], ia preso. Eu ia preso direto. Tinha um delegado no Bixiga [região central paulistana] que quando eu chegava lá, ele falava: “poxa rapaz, você de novo”. E eu falava: “doutor, eu não gosto de vir aqui, não, são os homens que me trazem”.

Agência Brasil: Depois de todos esses anos, o que significa este Marco Zero para você?
​Triunfo: Aquilo é um símbolo, como se fosse uma um troféu de uma Copa do Mundo do Brasil. Para quem entende, para nós do hip hop, isso é o nosso troféu. É como se fosse em Meca [cidade sagrada para o islamismo], onde os caras que vão [fazer peregrinação]. Cada um tem suas crenças. Isso aí é a nossa pedra. Mas, poxa, já devia ter uma coisa bem mais bonita aqui ou ali, mostrando, como antigamente era o jardim que a gente sentava. Mas, por outro lado, estão acontecendo várias coisas maravilhosas, vários eventos que eu fui contemplando os 50 anos de hip hop, pelo Brasil todo. Estou viajando para aqui para acolá, tem muita coisa boa em São Paulo.

Agência Brasil: Você falou que dançou em vários lugares do centro, mas, por que vocês escolheram este lugar?
​Triunfo: Por causa da largura das pedras [do calçamento]. Em uma pedra dessas aqui, dá para você girar de cabeça, era muito legal para dar o backslide [andar de costas, deslizando os pés no chão] e ir embora. Movimentos de rodar a cabeça, as costas. Então, era um espaço que não tinha em outras pedras. As outras pedras [de calçamento] de rua eram pequenas, não tinha como você fazer isso. Essas pedronas era tudo o que precisávamos. Dançava gente aqui, ali e dali. Bombava essa rua. Era muito legal.

Agência Brasil: E como é a relação com o Largo São Bento, vocês passaram a dançar lá depois?
​Triunfo: No final de 1984 eu tive problema de saúde, dançando muito e não me alimentava. Eu fui dar um passeio, visitar meu pessoal [em Triunfo, Pernambuco]. Fui embora passar, uns dias lá com meus pais, minha irmã. Em 1985, começou o ano e os caras que faziam parte do grupo comigo voltaram para dançar aqui. Só que a polícia pegou pesado com eles. Não deu jeito, não deu certo. Aí, eles começaram a procurar um lugar para ensaiar. Foram no Bom Retiro, foram na [avenida] Tiradentes. Mas, descobriram a [estação] São Bento, que foi aquilo que deu certo.

Já foram chegando o Thaíde, o DJ Hum, o Mano Brown, um bocado de gente. Todo mundo fez parte ali da São Bento. Os próprios Gêmeos [grafiteiros], eu me lembro que o Marcelinho e o Alambique iam buscar eles lá no Cambuci [bairro da zona sul], na casa da mãe deles, que eles eram pequenos demais, não dava pra virem sozinhos. A São Bento estourou, virou aquele point nacional. Fui lá onde se fez o primeiro evento nacional de disputa de danças e de batalhas.

Edição: Juliana Andrade

Fonte: Agência Brasil Capa: Arte/Agência Brasil


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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