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No país do pibinho, só os bancos lucram (e muito!)

No país do pibinho, só os bancos lucram (e muito!)

 

Por Emir Sader

Como é possível que a economia não cresça há três anos (pelo menos), mas os balanços dos bancos apontem sempre recordes de lucros? Significa que não falta dinheiro, ninguém queimou dinheiro. Mesmo a fuga de capitais não basta para dizer que falta dinheiro no país. Ela ainda não é de dimensões suficientes para dizer que falta dinheiro no país.

Não falta dinheiro, mas ele está nas mãos de quem não faz investimento produtivo, que gera bens e empregos. Cada final de dia, quando se anuncia que a Bolsa de Valores de São Paulo cresceu não sei quantos milhões, não se gerou um bem, nem um emprego. Foram trocas de papéis de uma empresa para outra. Pura especulação financeira.

Então, de onde vem o enriquecimento ainda maior dos bancos? Se uma pessoa entra num banco, se dirige ao balcão e diz ao funcionário que quer abrir uma poupança com cem reais, logo ouve que se trata do melhor investimento do mundo, que no mês que vem ele volta e vai receber algo como 104 reais.

A mesma pessoa dá a volta no balcão, chama o mesmo funcionário e lhe diz que precisa de 100 reais emprestado. O funcionário pega a mesma nota e lhe oferece, dizendo que ele vai resolver sua vida com essa operação. Que volte no mês seguinte e lhe pague algo como 125.

É um cálculo aproximado, mas dá ideia de como os bancos ganham: pela diferença entre o que pagam e o que cobram. O que eles chamam de “spread” – palavra em inglês que ajuda a esconder o caráter do mecanismo – é um ganho puramente especulativo, de quem vive do endividamento de governos, de empresas e de pessoas. Daí vem a acumulação de riqueza do capital financeiro. E quanto mais endividamento, mais os bancos lucram.

O capital financeiro, que em outras épocas do capitalismo era uma capital de apoio ao capital produtivo, ganhou, no neoliberalismo, um papel central, protagônico, subordinando as outras modalidades de capital e passando a ser o eixo do processo de acumulação.  A atração da esfera financeira fez com que se desse, em escala global, uma gigantesca transferência de capitais da esfera produtiva à financeira. Esta, por sua vez, assumiu um caráter especulativo.

A taxa de juros muito mais alta que a taxa de lucros – proveniente do investimento produtivo – funciona como atração irresistível para os investidores. Os impostos baixos ou inexistentes que os governos estabelecem, para atrair capitais, é outro fator que explica a polarização da esfera financeira. E o terceiro fator é a liquidez praticamente total: se algo contraria o ânimo dos investidores, eles acionam um botão e transferem os capitais para outro país e outra bolsa de valores.

Por isso o capitalismo passou de um ciclo longo expansivo, do final da segunda guerra mundial até os anos 1970, para um ciclo longo de caráter recessivo, vigente desde então. Aquele, que tinha seu eixo em grandes empresas monopolistas de caráter produtivo, passou ao setor financeiro, de caráter especulativo. A espinha dorsal das economias atualmente é o capital financeiro.

O que acontece no Brasil, desde que foi restabelecido o modelo neoliberal, com o golpe de 2016, é o restabelecimento da centralidade do capital financeiro. São os bancos que se enriquecem, às custas do crescimento produtivo e das políticas de distribuição de renda dos governos do PT.

Essas as razões pelas quais a economia está em estagnação desde o golpe. A retração do Estado e a retração das políticas de indução da expansão econômica e das políticas sociais, liberando a ação do capital financeiro, levaram a essa situação. O país está mais pobre, mas o capital financeiro e o conjunto dos ricos estão mais ricos.

E tentam se valer da recessão para retomar sua agenda, como se o que se pudesse fazer seria aprofundar os projetos neoliberais, incluindo as privatizações.       Quando, aprendendo do que o Brasil viveu neste século, se deve caminhar na direção oposta. Retomar o papel ativo do Estado, como indutor do crescimento econômico e das políticas sociais redistributivas de renda. Quebrar a hegemonia do capital financeiro sobre a economia, com tributação das movimentações financeiras, com reforma tributária em que quem ganha mais, paga mais, com tributação às grandes fortunas e às heranças.

O Brasil precisa voltar a crescer e a distribuir renda. Esse caminho foi abandonado quando o golpe de 2016 terminou com a democracia e restabeleceu o reinado dos bancos e da especulação financeira. Democracia política e social caminham juntas e precisam voltar juntas para o Brasil retomar o caminho de um país menos injusto e desigual.

[authorbox authorid=”” title=”Sobre o Autor”]

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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