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O COVID LEVOU JANUARIO GARCIA

O Covid levou Januario Garcia: O mundo perde uma biblioteca
 
Hoje perdi meu amigo Januario Garcia e o mundo perdeu uma biblioteca.
21 de Duzu de 5781
30 de junho de 2021
 
Por Mariza Hawa Soares
 
Sabe aquele momento em que a vida passa como um filme em sua mente?
 
Pois é, isso acontece em momentos de mudanças profundas do status quo. Neste caso específico, a mudança da presença física e material de Januario Garcia, meu eterno Griô Janu, para uma presença luminosa em minha memória e em meu coração.
 
Janu me ensinou coisas simples. Me ensinou a não me deslumbrar com os grandes palcos, mas também me ensinou a usufruir e exigir o melhor, quando assim fosse possível.
 
Me ensinou a não abaixar a cabeça diante de situações de racismo e preconceito. Ele sabia bem o que era isso! Me mostrou que essas situações estavam mais presentes no nosso dia a dia, no nosso trabalho, mais do que eu conseguia perceber.
 
Aos poucos fui aprendendo e, em muitos momentos, me vi defendendo meu fotógrafo-artista preferido, exigindo para ele, como sua produtora, o melhor espaço, o melhor quarto de hotel, a melhor sala de exposição, e o melhor orçamento.
 
Eu não sei por que ele me escolheu para ser sua amiga, sua produtora, sua confidente em alguns momentos, seu apoio em outros, mas serei eternamente grata por sua generosa amizade. Ele sempre dizia que eu fazia muito por ele e, eu sempre dizia: o que eu aprendo com você é muito maior.
 
Não consegui fazer metade do que eu achava que ele, sua história e sua obra mereciam, mas seguirei tentando.
 
Um professor! Um mestre! Um griô!
 
Nunca fugia de uma prosa, nunca deixava a gente sem história e sem esperança.
 
Janu às vezes ficava triste, mas sempre me dizia: é assim mesmo, vai passar e, quando eu ficava triste ou com algum problema ele dizia: vou pedir para meus guias espirituais cuidarem de você.
 
Janu sempre dizia que Raul Seixas não tinha medo de morrer, mas tinha medo de deixar de existir, ele me contou essa história tantas, mas tantas vezes que acho que esse também era seu pensamento e um pedido para que eu nunca o deixasse ser esquecido.
 
Vou fazer o meu melhor, Janu!
 
Ele sempre falava dos filhos e dos netos com um amor imenso, com um orgulho que fazia os olhos brilharem, ele falava pra mim: é claro que tenho que me orgulhar, sou um homem negro, fotógrafo, que conseguiu, junto com a Ana, claro!, criar e formar 4 filhos. E dava aquela gargalhada!!!! Ah!!! Moleque!
 
Ele sempre me contava a história e as dificuldades para formar os filhos, para ver seu filho estudar design na melhor escola do Rio, sua filha estudar pilates na escola referência no assunto, seu filho ser artista em São Paulo e o outro trabalhar com a causa indígena. Era muito orgulho para o coração do Janu!
 
Também me contou o encontro de sua filha com o marido italiano… ele sempre ria desse acaso do destino que uniu sua filha e o marido, e que lhe deu netos.
 
Me mostrava fotografia de todos os netos e babava! Falava que ainda ia ter que aprender italiano, só para falar com os netinhos na Itália.
 
Janu conheceu meu marido, também um homem negro, e me ajudou a entender tantas questões da cultura negra, do jeito de ser, da forma de ver o mundo.
 
Janu acolhia todos que lhe pedia apoio, se tivesse como, o sim era garantido.
 
Janu não tinha luxo. Seu luxo era sua disposição para fotografar, de forma remunerada ou não, sempre estava pronto!
 
Ah, tinha um luxo: suas boinas coloridas, várias, que se tornou sua marca registrada. Raro ver Janu sem uma delas, só em casa, quando a gente se juntava para trabalhar, comer e conversar.
 
Janu se preocupava com a Juventude, uma de nossas últimas conversas foi sobre como os jovens negros estavam se entregando para a morte, por não terem oportunidades e esperança, se entregavam ao tráfego, à ostentação com as armas e ao crime como formas de serem vistos e, talvez, ouvidos.
 
Ele andava preocupado com os rumos das coisas no Brasil, com o desvirtuamento da Fundação Palmares e com o descaso com as comunidades negras e pobres.
 
Durante a pandemia se isolou do mundo presencial como pode, se cuidou o máximo possível, mas não se isolou das pessoas, como sempre, destemido, encarou a tecnologia com suas lives, atendendo a todos os inúmeros pedidos que nos chegavam.
 
Alcançamos pessoas que nunca ouviram falar sobre Januario Garcia e seu trabalho.
 
Conseguimos organizar uma parte do seu acervo e, começar a dar o encaminhamento sempre sonhado, ele não acreditava muito que um dia ia conseguir, mas não deixou de sonhar. Quando viu que seria possível, vibrou! Vibramos muitas vezes durante a pandemia!
 
Foram algumas conquistas, pequenas para uns, mas enormes para nós dois: um site; um Instagram, sua história na wikipedia, um acordo com uma das maiores universidades do país para digitalizar e preservar seu acervo… foram algumas boas conquistas.
 
Meu coração tá apertado, doendo muito, minhas lágrimas não cessam…
 
Mas sei que tenho uma missão, vou contar sua história, Janu, vou seguir, como eu puder, mantendo a sua memória viva e a sua obra acessível.
 
Te honro!
Te reverencio!
 
Ps1. Em nome do seu filho Uirá Garcia eu deixo meu abraço a toda sua família e a seus inúmeros amigos, que também estão sentindo muito essa perda.
 
Ps2. Você sempre me pedia para dar crédito às fotos. Essa foto linda foi tirada por Heiner.
 
Mariza Hawa Soares – Amiga e produtora de Januario Garcia.

 

 

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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