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O dia e a noite do trabalhador brasileiro

O dia e a noite do trabalhador brasileiro 

Nunca como atualmente, no Brasil e no mundo, tanta gente vive do seu trabalho, mas nunca como atualmente, no Brasil e no mundo, tanta gente trabalha sem direitos garantidos…

Por Emir Sader

Uma sociedade cuja riqueza toda é resultado do que fazem diariamente os trabalhadores, cada vez os reconhece menos, cada vez garante menos seus empregos, seus direitos, seus salários minimante dignos.

É em torno das atividades de trabalho que a maioria esmagadora dos brasileiros e da população de todo o mundo vive. Entre acordar bem cedo, gastar algumas horas em um transporte muito ruim, cumprir a jornada de trabalho, retomar o mesmo transporte de volta, chegar em casa e recompor as energias para recomeçar a mesma jornada no dia seguinte, passa a vida de milhões de brasileiros e de bilhões de pessoas em todo o mundo.

Para a grande maioria, vive-se ou se sobrevive para trabalhar. Nem resta tempo para muito mais. Isso, quando há trabalho.

Porque o que mais caracteriza hoje o mundo do trabalho, em qualquer parte do mundo, em proporções maiores ou menores, é o trabalho informal, sem carteira de trabalho, com empregos precários ou intermitentes, como define a nova e cruel legislação no Brasil. Isto é, trabalho sem garantia de continuidade, sem férias, nem licença por problemas de saúde, nem décimo terceiro, nem nada que está presente nos contratos formais de trabalho.

A própria identidade de trabalhador vai se enfraquecendo, na medida em que a maioria deles tem várias atividades ao mesmo tempo para poder compor o orçamento. Tantos dentre eles mudam a atividade de um mês para outro, se viram como podem, juntando muitos trabalhos no mesmo dia.

A organização dos trabalhadores, para poder defender suas reivindicações, por sua vez, também se enfraquece, deixando-os cada vez mais fragilizados diante das ofensivas contra seus direitos elementares. A reforma aprovada no Congresso, a rigor, abole todos os patamares de negociação, deixando que o imenso desemprego faça com que os trabalhadores tenham de aceitar o negociado, isto é, a necessidade imediata de sobrevivência, para aceitar empregos em quaisquer circunstâncias.

Uma das imagens mais tristes nas nossas sociedades é a figura do desempregado, que sai cedinho batendo de porta em porta na procura de uma fonte de sobrevivência e que em grande parte dos casos recebe uma negativa, isto é, diz-se para ele que nem pelo miserável salário mínimo ele pode ser contratado, que ele não vale nem esse montante irrisório. E tantas vezes, este cidadão esconde da família que está desempregado, finge que durante essa perambulação inútil, esteve trabalhando, mas não pode dispor dos recursos mínimos para sustentar sua família.

E não há para quem reclamar. O direito à propriedade privada está destacado na Constituição e quem o violar sofre os rigores da lei. Mas quem perde o emprego e, com ele, as condições mínimas de vida digna para ele e para sua família não tem a quem apelar. Apesar de o direito de propriedade se referir a uma minoria da população e o direito ao trabalho se referir à grande maioria da sociedade.

Quando as forcas conservadoras tomam a ofensiva, quem paga o preço mais caro é o trabalhador. Vê ameaçados seu emprego, seus direitos, seu salário, sua educação, sua saúde. Este dia primeiro de maio – dia do trabalhador e não do trabalho, como alguns teimam em dizer – encontra a grande maioria dos trabalhadores, no Brasil e no mundo, em situação penosa, perdendo direitos e com muitas dificuldades para defendê-los.

No entanto, a maioria esmagadora da sociedade, embora possa não se identificar como tal, é trabalhadora, vive do seu trabalho. Uma atividade que diferencia os homens dos outros animais, porque só os homens transformam a natureza para sobreviver e, assim, se transformam a si mesmos.

Mas, nesta sociedade, o trabalhador não é dono do seu trabalho, aluga-o para poder sobreviver e não tem poder sobre o que produz, para quem produz, a que preço produz. Ele não se reconhece nos produtos que ele mesmo produziu. É um trabalhador alienado, que aliena sua capacidade de trabalho e é alienado pelo processo de produção, que faz com que ele seja alienado em relação aos produtos do seu trabalho.

Neste ano, em particular, a vida do trabalhador é um tormento. Se tem emprego, não sabe por quanto tempo mais vai poder mantê-lo. Se tem emprego, tantas vezes não tem carteira de trabalho assinada. O emprego deixou de ser fonte segura de sua manutenção, de condições de vida minimamente dignas para sua família.

Um dia do trabalhador que mais se parece uma noite, pela insegurança, pela ofensiva retrógrada em relação aos direitos básicos que o trabalhador precisa e merece. Que o próximo primeiro de maio seja de novo um dia de festa, de celebração de conquistas garantidas, de pleno emprego e de salário digno.

Emir Sader – Sociólogo –  Autor do livro “O Brasil que queremos. ”


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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