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O Golpe do Corona

O Golpe do Corona
 
 
Rio de Janeiro, 17 de Março de 2020.
Pai.
O Coronavírus chegou no Brasil.
E como era esperado, o presidente resolveu brincar com coisa séria.
Falou que é histerismo, que ninguém precisa se preocupar.
Acontece que um dos primeiros casos foi de uma pessoa da comitiva dele, e depois outra, e mais outra, e agora já são 13.
Ele fez o teste e um de seus filhos disse que deu positivo, mas depois resolveu que foi negativo, e o filho veio dizer que não tinha dito o que tinha dito.
Se deu negativo mesmo, porque ele vai ficar em isolamento e fazer mais um teste?
Estranho…
O Coronavirus do presidente é tipo o envolvimento dele com a milícia. Um monte de gente em volta dele tem, menos ele!
E não acabou, não!
Quando era pra todo mundo estar se protegendo, os poucos que ainda apoiam ele foram pras ruas pedir o fechamento do Congresso e do STF, incentivados por ele!
Isso não é crime de responsabilidade?
É o momento de comprovarmos a teoria da seleção natural de Darwin.
Vamos aguardar.
Acontece que ele saiu, e foi cumprimentar as pessoas, podendo ter passado o vírus que ele tinha, e depois não tinha mais, pra outras pessoas.
Mas ele desconversou, e falou que se ele pegasse era problema dele!
Foi aí que caiu a minha ficha.
Ele fez outro exame hoje, será o segundo golpe da Fakeada?
Será que ele vai aparecer dizendo que pegou o vírus na manifestação, por “não abandonar seus eleitores”?
Aí vai se fazer de herói e coitadinho novamente?
Será?
Um beijo do seu filho “Vidente”,
Ivan

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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