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Como o afeto entre homens gays é gerida pelas normas de gênero

Como o afeto entre homens gays é gerida pelas normas de gênero

Como o afeto entre homens gays é gerida pelas normas de gênero

O homem gay que goza de uma respeitabilidade social também, necessariamente, circula nos espaços de poder econômico…

Por Leonam Lucas Nogueira Cunha/via Brasil Popular

Proponho uma reflexão sobre a aliança afetiva entre as pessoas. Se nos detivermos a mirar, veremos quão surpreende é a maneira como os afetos se constroem e se estabelecem e, se em algum momento chegamos a pensar que “o afeto não é atravessado pelas normas de gênero”, deixaremos a ideia de mão. Nada mais falso que isso. Até porque o afeto não é algo que simplesmente surge; isto é, o desejo pode ser algo um tanto inexplicável dada sua tamanha complexidade, mas a pergunta fundamental é: quanto do nosso desejo pode ser construído e formatado por normas culturais e aprendizagens sociais?
O afeto carrega em seu íntimo fortes intervenções do que se articula e se propõe como “belo”, como “amável” e como “desejável”, e todos esses adjetivos só têm sentido levando em conta o contexto sociocultural do qual fazem parte e no qual emergem. Assim, é impossível atribuir um significado a um desses adjetivos fora de um entorno cultural.
Em alguns círculos de pessoas LGBTQIA+, pode ser comum haver um tom crítico quando algum relato sobre as relações afetivas de um homem gay remete a padrões hegemônicos e faz-nos pensar por que alguns homens gays, constituindo um grupo social ainda tão discriminado, terminam assumindo uma postura demasiado conservadora (no modo de vestir, de se expressar, de pensar politicamente, de projetar os anseios da carreira, de amar, etc.). Esse modelo conservador sob o qual vivem tantos homens gays (que também se trata de um modelo sociocultural) nos remete ao que, no âmbito dos estudos queer, podemos chamar de “homonormatividade”. Ou seja, padrões normativos de viver como homens gays, que criam um estândar para o que seria um gay “respeitável” e um gay “palatável” por uma sociedade reacionária que tem a heterossexualidade compulsória como um dos seus pilares.
É possível que não nos demos conta, nem a devida dimensão de importância a como os homens gays, hegemonicamente, se relacionam. Essa tendência homonormativa atravessa essas vidas e projeta as alianças que se dão entre elas. Nesse espaço, as normas de gênero fecham o cerco e fazem o seu espetáculo: gays bastante masculinos, brancos, com seus músculos, penteados, barba feita e looks bem postos, que só se atraem por gays bastante masculinos, brancos, com seus músculos, penteados, barba feita e looks bem postos. Percebem como as normas de gênero atuam sobre esses corpos? Fazem criar a imagem de homem gay desejável como aquele que reforça ao máximo os ideais de uma masculinidade hegemônica. Isso, portanto, sugere a pergunta: quanto do nosso afeto se consolida por estratégias de opressão?
Nesse sentido, se essa dinâmica acaba projetando-se como a regra, inevitavelmente outros grupos de homens gays passarão a não ser alvos do nosso desejo. Em geral, são os gays com fortes marcadores de feminilidade, com uma voz não tão grave, que não fazem uso de uma linguagem adaptada pelo masculinismo, que são muito expressivos (os julgados “escandalosos”), que pintam as unhas, usam eyeliner ou compram algumas peças nas sessões femininas das lojas. E também, numa sociedade definida em termos étnico-raciais, há deslocamentos de raça e etnia nessa afetividade gay; assim, os gays negros, indígenas, não brancos tornam-se “menos desejáveis” para os homonormativos. E se adicionarmos a esse nó uma questão de classe, a homonormatividade se revela também classista: o homem gay que goza de uma respeitabilidade social também, necessariamente, circula nos espaços de poder econômico; é um empresário, é um arquiteto que modela o seu apartamento com móveis planejados, é um professor universitário cuja sexualidade, dentro do seu departamento, passa praticamente desapercebida e ele é quase visto como ‘hétero’. E tudo isso, ainda, entrelaça-se com a indústria da beleza, que espezinha os sujeitos e os transforma discricionariamente: a barba (marcador de gênero) tem de estar bem aparada, o cabelo tem de ser cortado pela barbearia cool do bairro que serve chope (marcador de gênero) enquanto se está esperando, o abdome e o peitoral têm que seguir à risca os estereótipos corporais (marcador de gênero).
Dessa forma, as normas de gênero se inscrevem nos sujeitos, alterando os seus corpos, e fabricam os homens gays que podem ser alvo do “afeto”. E os entrecruzamentos são pouquíssimos: poucas vezes vemos um casal de homens gays em que um deles é engenheiro mecânico e o outro é vendedor de loja de departamento (as riquezas têm que se acumular dentro de um mesmo núcleo para que não se dispersem); ou em que um deles está em dia com a academia e o outro é super afeminado e tinge o cabelo de azul turquesa (o reino masculinista precisa de uma reafirmação constante, se não se desintegra). Normalmente, o que se encontra visibilizado como “casal gay”, que constitui o que acaba se tornando como o casal gay “respeitável”, é uma união necessariamente monogâmica, com idealizações de futuro familiar, com um cachorrinho, com uma carreira de vento em popa e corpos impecavelmente bisturizados pelos estereótipos de masculinidade.
E o resto se torna gente menos amável, menos alvo do desejo, menos possível para desenvolver uma relação afetiva. Não é completamente esdrúxulo que essa construção pré-encaminhada da afetividade ocorra; afinal, as pessoas constantemente (e até inconscientemente) reproduzem estruturas sociais perversas, ao mesmo tempo que essa reprodução é em algum nível sempre uma produção. Entretanto, será que realmente não podemos em alguma medida desconstruir o nosso desejo e afastá-lo dessa herança racista, classista e masculinista?
 
*Leonam Lucas Nogueira Cunha é poeta, professor, tradutor, advogado, mestre em Estudos de Gênero e Doutor em Estado de Direito pela Universidade de Salamanca.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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