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Os donos do Acre

Os donos do Acre

Em 1979 a superintendência local do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) deixou vazar um relatório preocupante, nomeando os pretensos novos donos do Acre. O documento registra 218 latifúndios por dimensão que somam 5,8 milhões de hectares, e 3.102 latifúndios por exploração, abrangendo 6,4 milhões de hectares (quanta desigualdade!). Finaliza afirmando que “80% das terras acreanas (16,4 milhões de hectares) se encontram nas mãos de latifundiários, grileiros e especuladores”.

Por Elson Martins 

O Jornal Varadouro, alternativo que nasceu para apoiar a luta dos seringueiros, ribeirinhos, posseiros e indígenas, em sua edição n. 19, de maio de 1980, publicou uma lista deles: Agropecuária Cinco Estrelas S.A.; Grupo Cruzeiro do Sul; Fazenda Boa Esperança, de José Bento e Pedro Bento Valias; Fazenda Morungaba, Agronorte e Condomínio Tarauacá, todos de Agapito Lemos; Condomínio Acurawa, trabalhando com três empreiteiras e 30 subempreiteiras sob a responsabilidade de um paraguaio de nome Pablo. Ao todo somam 1 milhão e 300 mil hectares em Tarauacá, no vale do Juruá.  A Paranacre (Cia Paranaense de Colonização Agropecuária e Industrial do Acre), também em Tarauacá, representada pelo grupo Viação Garcia e outros, dizia explorar pecuária e seringa em 600 mil hectares. No vizinho município de Feijó, a Cia de Desenvolvimento Novo-Oeste, do grupo Atlântica Boavista, havia adquirido 510 mil hectares. Também em Feijó, nas cabeceiras do Rio Envira, a Fazenda Califórnia (Grupo Atalla) detinha 427 mil hectares, mas procurava legalizar 604 mil. Na sede da fazenda eram vistos índios Kulina desempenhando atividade de vaqueiros.

Nos vales do Acre e do Purus a situação era mais tensa, porque o acesso às áreas conflitadas era facilitado, para agressores e agredidos. Em Xapuri, sobretudo, o capataz da Bordon, Tomás, reagia com violência aos “empates”. De tanto brigar com os seringueiros, a empresa desistiu do projeto no Estado. Em Brasiléia, terra de Wilson Pinheiro, a Fazenda Carmem (no Seringal Carmem) tentou “limpar” a área através de acordos desfavoráveis aos posseiros.

O caso mais escandaloso foi o da Coloama (Colonizadora Agropecuária São Paulo Amazonas S.A.) Seu projeto inicial, que previa a construção de uma cidade com prédios de até 12 andares para seringueiros, estava aprovado para ser desenvolvido no sul do Amazonas, mas houve um impedimento legal por localizar-se em área de 500 mil hectares a menos de 150 metros de uma estrada federal. O proprietário, Pedro Aparecido Dotto, de Jales (SP), não se aperreou: transferiu o projeto para Sena Madureira, no Acre, sem nenhuma modificação. Tinha a garantia de CR$ 40 milhões do Probor, Proterra e Basa, mas o Incra solicitou a anulação de seu registro de colonizadora e iniciou discriminatória judicial para impugnar a documentação dos imóveis. A colonizadora pretendia regularizar área de quatro milhões de hectares. 

Os fazendeiros contratavam peões e jagunços fora do estado, para não criar embaraços com laços familiares se o fizesse com os locais. E também porque uma boa parte dos seringueiros não concordava em cortar árvores seringueiras e castanheiras, muito menos tocar fogo na mata. A mão de obra era importada de Cascavel e outras cidades do Mato Grosso e Paraná. Essa gente era recolhida nas delegacias de polícia, por isso viajavam de ônibus, com roupa suja e de cabeça raspada. 

O pecuarista Benedito Tavares do Couto, de Mato Grosso, chegou a contratar um Boeing 737 para trazer 70 operadores de motosserra até Rio Branco. O delegado regional do Ministério do Trabalho, Humberto Brasiliense, acompanhou a equipe da Contag algumas vezes, para averiguar denúncias da existência de cemitérios particulares existentes nas áreas de desmatamento.

A força dos oito sindicatos criados pela Contag apareceu no empate que recebeu o nome de “Mutirão contra a Jagunçada”. Aconteceu em setembro de 1979, nas margens da BR-317, nas proximidades da cidade de Boca do Acre, ao sul do Estado do Amazonas. Posseiros da área estavam sendo ameaçados por jagunços mantidos por um rico pecuarista de São Paulo, interessado nas terras do Seringal Senápoles. Eles reclamaram que os jagunços usavam metralhadoras e rifles para matar animais domésticos e assustar as famílias com disparos ao anoitecer. Os sindicatos juntaram 300 homens para enfrentar os agressores. 

Os jagunços, em número de 12, correram para o mato e foram acolhidos por pecuaristas vizinhos que os transportaram de carro e de avião monomotor para outros municípios. Mas os sindicalistas prenderam o capataz e 45 peões, que só foram liberados após serem submetidos a uma espécie de tribunal montado no meio da estrada (BR-317). Eufórico com o resultado, Wilson Pinheiro deu entrevista à rádio de Brasiléia afirmando que os sindicatos não iriam, a partir daquele momento, permitir que nenhuma árvore fosse derrubada em todo o estado. 

A resposta dos fazendeiros foi imediata e raivosa: “Se é assim, vão aparecer muitas viúvas no Acre”! A primeira delas foi a esposa de Wilson, Terezinha Pinheiro, cujo marido foi assassinado de tocaia, na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, no dia 21 de julho de 1980. Como de outras vezes, a polícia encontrou dificuldades para identificar e prender os criminosos, mas afirmaram que os trabalhadores, quando voltavam do velório, mataram o principal suspeito, o capataz Nilo Sérgio, que encontraram na estrada entre Brasiléia e Assis Brasil. 

O metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva esteve no velório e discursou dizendo que “Tá na hora da onça beber água”; por isso foi indiciado pelo Ato Institucional n. 5, criado na Ditadura Militar, juntamente com João Maia, Chico Mendes, Joaquim Francisco da Silva (presidente nacional da Contag) e o líder metalúrgico Jacob Bittar, do ABC paulista.

 

Elson Martins Jornalista. Escritor. Acompanhou e documentou o movimento dos seringueiros nos tempos de Chico Mendes. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri. Foto: Divulgação/ Wikimedia Commons.

 
 
 
 
“Com muito orgulho, a Fetec-CUT/Centro Norte participa desta edição histórica da Revista Xapuri, nos 35 anos do assassinato do companheiro Chico Mendes, especialmente com a publicação desta matéria do jornalista acreano Elson Martins, que documenta a tomada das florestas do Acre pelo latifúndio nos anos 1970-1980.” Cleiton Silva – Presidente da Fetec-CUT/Centro Norte.
 
 
 
 
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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