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Oscar Romero

Oscar Romero: um santo na consciência latino-americana

Oscar Romero, santo na consciência latino-americana desde 1980

Independentemente da ratificação romana, para o povo salvadorenho, desde o dia de sua morte, em 1980, inequivocamente foi considerado santo, proclamado assim, num ‘sensus fidelium', pela consciência eclesial latino-americana.

Oscar Romero, conservador quando bispo-auxiliar em San Salvador, na pobre diocese de Santiago de Maria foi descobrindo, dolorosamente, os sofrimentos de seu povo humilde e voltou transformado, nomeado arcebispo da capital. Ali recebeu em seus braços o corpo ensanguentado do Padre Rutílio Grande e isso o confirmou em seu apostolado em defesa dos pobres e na denúncia à repressão. Durante cada semana ia ouvindo, com extrema atenção, camponeses que lhe transmitiam a dor de perder entes queridos e relatos de torturas e agressões. Anotava cuidadosamente tudo em pequenas folhas e depois, durante a homilia do domingo seguinte, relatava o que ouvira, proclamava os nomes das testemunhas e, num espírito de profunda espiritualidade e à sombra da palavra de Jesus, fazia um juízo claro e direto em nome da justiça ferida. Suas celebrações eucarísticas se alongavam cada vez mais, numa catedral repleta que o ouvia em silêncio e logo aplaudia seu pastor.

Conheci D. Oscar na reunião dos bispos em Puebla, em janeiro-fevereiro de 1979 e tivemos uma inesquecível conversação. Queria ouvir uma análise da realidade política, o que ele já conhecia, e muito profundamente, por iluminadas intuição e empatia. Com olhos cheios de lágrimas, relatou como estava em minoria entre o pequeno episcopado salvadorenho. Depois, fui visitá-lo no seminário San José de La Montaña, em setembro desse ano. Perguntei-lhe como mover-se numa situação política tão ambígua e me respondeu, com voz cansada porém firme:“Tudo o que tenho a fazer é tentar interpretar meu povo e ser fiel a ele”. Nada tão terrivelmente simples e difícil.

Ao voltar, escrevi um artigo sobre seu apostolado: “no momento em que a opção preferencial pelos pobres virou discurso oficial e está sendo cuidadosamente recuperada e interpretada pelos ricos, esse homenzinho incômodo e valente, oportuna e inoportunamente, vem lembrar que a Fé tem sempre algo a dizer lá no centro do engajamento político mais complexo. Não foi assim que sempre agiram os profetas?” O texto ainda estava no prelo, em algumas publicações, quando o mataram e escrevi um adendo:“mais um mártir, ele que tinha ido lendo a lista interminável de mártires … com quem o povo tinha se identificado cada dia mais profundamente. Estava na lógica das forças repressivas que essa voz tinha que ser calada … essa voz não se calou, mas fica ainda mais presente nas consciências e na prática do povo de El Salvador”.

Sua voz foi se fazendo, pelo ano litúrgico de 1979-1980, cada vez mais clara e direta. Em seu último sermão, que podemos ouvir em gravação inesquecível ele, que normalmente falava manso, lançou um grito que ecoa até hoje:“Em nome de Deus, em nome deste povo sofrido, cujos lamentos sobem até o céu cada dia em maior agitação, lhes suplico, lhes rogo, lhes ordeno: cessem a repressão”. Pouco antes se dirigira aos soldados, indicando que não poderiam cumprir ordens injustas. Isso foi demais para os poderosos e assim, na segunda-feira seguinte, celebrando missa numa pequena capela, no momento em que ofertava o vinho que seria logo sangue de Cristo, um tiro certeiro o fez debruçar-se já sem vida sobre o altar e seu sangue se uniu ao vinho que ia ser consagrado.

Imediatamente Leonardo Boff e eu preparamos um livro com suas homilias, a partir de outubro de 1979 e fiz uma introdução para situá-las no clima terrível de seu país.

Pedro Casaldáliga escreveu um poema para a publicação:

E soubestes beber

o duplo Cálice do Altar e do Povo,

com essa mesma mão consagrada ao serviço.

 

América Latina já te elevou à glória de Bernini…

no calvário novo

de todos os seus cárceres,

de todas suas trincheiras,

de todos seus altares…

na ara garantida do coração insone de seus filhos!

 

São Romero da América, pastor e mártir nosso,

ninguém

há de calar

tua última homilia.

Hoje, 14 de outubro de 2018, agora sim diante da colunata romana de Bernini, Francisco o proclamou solenemente santo. Já em março de 2015, indicara que Romero sofrera martírio “por ódio contra a Fé” e o assinalou como beato. Agora, com a enorme praça do Vaticano repleta de fieis, uma longa cerimônia declarou santos, além de Romero, Paulo VI, dois sacerdotes, duas religiosas e um jovem napolitano. A Igreja salvadorenha teria preferido que Francisco viesse a San Salvador para uma cerimônia mais significativa. Nesse domingo romano festivo e ensolarado, a memória de Romero ficava abafada por um cerimonial solene; seu retrato e dos outros santificados ornavam, com certo triunfalismo, a fachada da igreja renascentista dos papas. Seu nome foi mencionado de raspão na homilia papal, ofuscado pela menção à personalidade de papa anterior, Paulo VI. A igreja dos pobres submergia, contraditoriamente, na pompa da celebração. Acompanhando a cerimônia tentei trazer a memória daquele Romero humilde e firme que conheci. Em rápidos momentos senti-me ligado a ele, mas logo, uma solenidade presa a rubricas litúrgicas rígidas, me afastava de um possível momento de recolhimento. Como se sentiriam ali, naquele ambiente, os pobres camponeses de Romero? O eclesial das práticas populares se afogava num eclesiástico majestoso.

Foi um ato de reparação, ainda que tardio. Romero tivera um encontro afetuoso com Paulo VI, seu companheiro nesta celebração. Ao sair da audiência com João Paulo II, entretanto, estava silencioso e não ocultava certa tristeza.

Independentemente da ratificação romana, para o povo salvadorenho, desde o dia de sua morte, em 1980, inequivocamente foi considerado santo, proclamado assim, num “sensus fidelium”, pela consciência eclesial latino-americana.

Parafraseando o final de um poema de Simões Lopes Neto com a santificação do índio Sepé Tiaraju, podemos agora dizer:“Oscar Romero virou santo, amém, amém , amém”.

ANOTE AÍ

Fonte: Carta Maior

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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