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Panelas de Barro da Raposa

Panelas de Barro da Raposa

“É preciso concentração e respeito para moldar a argila, pois é presente da Vovó Barro.” Esta maravilha de texto e fotos foi publicada por Enoque Barroso no Facebook. Viva as mulheres que fazer as panelas de barro da Terra Indígena Raposa Serra do Sol!

Por Enoque Raposo

Quanto trabalho se têm para produzir as panelas de barro?
 
É fácil? Não, não é fácil. É cansativo.
 
Acorda-se cedo, antes do raiar do sol, e inicia-se uma caminhada serra acima. São 4 horas subindo a montanha para chegar à área de onde se extrai a argila adequada.
 
Contudo, não basta o esforço, é preciso conhecimento para reconhecer a argila perfeita. Só olhos muito treinados conseguem fazê-lo. Ao leigo, é tudo terra e pedra.
 
Faz-se as rezas, pede-se licença à Vovó Barro (Ko'ko Non) para colher a riqueza que ela oferece.
 
A produção das panelas de Barro da Raposa não é só material, ela permeia o campo do sagrado, como sempre é nas culturas indígenas.
 
Com a permissão da Vovó Barro, um espírito da natureza, colhe-se a argila e a ensaca. Agora é descer a serra carregando as sacas de 7 a 10 kg. Depois de uma hora de caminhada 7 kg tornam-se 50.
 
Chegando em casa, pila-se o barro, que depois é peneirado. O pó fino e seco é usado pelas artesãs para preparar a massa.
 
Há tempos, as mulheres faziam tudo isto em um quarto fechado, pois não poderiam ter contato com homens enquanto trabalhavam a cerâmica. Ainda hoje, não podem estar menstruadas, nem para colher, nem para mexer com o barro.
 
É preciso concentração e respeito para moldar a argila, pois, é presente da Vovó Barro.
 
Colocando em prática conhecimentos e habilidades aprendidas com a vó, que aprendeu com sua avó, que aprendeu com sua avó, moldam belíssimas peças, conhecidas como Panela de Barro da Raposa.
 
Pole-se com pedra. As peças ainda cruas são perfeitas, lisas, brilhantes.
 
Depois são . Não em fornos como convencionalmente se queimam as cerâmicas, mas numa fogueira no terreiro da casa. É preciso saber fazer o fogo, é preciso conhecer o ponto de queima da cerâmica.
 
A panela de barro da Raposa fica em brasa, o barro fica vermelho como brasa. Esperam o fogo baixar e tiram as cerâmicas para esfriarem no tempo. Está quase pronta, é só curar para cozinhar.
 
É na panela de barro que se prepara a damurida, feita de pimentas de toda sorte e peixe. É na panela de barro que se prepara o caxiri, bebida fermentada que traz alegria.
 
Interessante pensar sobre quanto esforço (trabalho), conhecimento e habilidade são necessários para a produção do artesanato. Contudo, há os que ignoram esta característica exclusiva e tratam o produto artesanal como se fosse industrializado. Querem regatear o preço.
 
Quanto esforço (trabalho), conhecimento e habilidade são necessários para se fazer uma Panela de Barro? Dá para mensurar isso em dinheiro? Se sim, quanto valeria?
 
Comunidade Indígena Raposa I, Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Gratidão! 🙌
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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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