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Paranoia na Praça dos 3 Poderes

As pulgas paranóicas da Praça dos Três Poderes

Por Laurez Cerqueira

  • , se alojando atrás das orelhas dos presidentes dos poderes da República, despertando sensações conspiratórias.

Pulgas paranóicas chegaram às orelhas de Jair Bolsonaro, transformaram as noites do Palácio da Alvorada em um inferno, quando ele soube que Rodrigo Maia, David Alcolumbre e Dias Toffoli, estavam juntos, em New York, num seminário, sabe-se lá tramando derrubá-lo. O vice, Hamilton Mourão, na China, sendo recebido pelo primeiro-ministro Xi Jinping, para corrigir o estrago feito pelo governo nas relações entre os dois países.

O vice disse, em entrevista, que o Brasil não pode ficar fora da “Nova rota da seda”, contrariando o alinhamento incondicional de Jair Bolsonaro com os Estados Unidos. Sinalizou que adotará posição pragmática em relação à disputa comercial e tecnológica entre a China e os Estados Unidos, e ao padrão 5G de internet. Pela terceira vez, o Brasil vai sediar, em novembro, a cúpula do BRICS.

Câmara e Senado viraram as costas para o governo, organizam a própria pauta, o Supremo Tribunal Federal e o Congresso se posicionaram para ceifar decretos inconstitucionais, Medidas Provisórias, assinados com a famosa “caneta Bic”, manuseada pelo presidente como se fosse um brinquedo de poderes mágicos. O governo enviou ao Congresso 27 proposições, e só uma foi aprovada: a reforma administrativa.

Os decretos sobre a ampliação do porte de armas, reprovado em nota técnica, pelo Ministério Público; a venda das subsidiárias da Petrobras está sendo barrada pelo STF;  a  recusa da Medida Provisória, pelo Senado, que desfigura o Código Florestal é mais uma pulga que salta na Praça dos Três Poderes.

Ou seja, a “caneta Bic” não pode assinar documentos inconstitucionais, fora da lei e da ordem jurídica do país, a torto e a direito.

Jair Bolsonaro sentiu o cerco se fechando. Percebeu que o afastamento dele virá, não se sabe quando nem de onde partirá. O tempo político está sendo monitorado, para o momento certo.

Logo após desembarcar em Brasília, vindo de Dalas, uma viagem sem agenda oficial, com as pulgas paranóicas atrás da orelha, Jair Bolsonaro, impulsivamente convocou manifestações em apoio ao próprio governo e anunciou que iria se juntar aos seus leais escudeiros nas ruas. Em seguida, temendo um fiasco e o estabelecimento de um confronto aberto com os demais poderes da República, foi desaconselhado pelos assessores que cuidam dele a não participar. Mas o estrago já estava feito. A harmonia e a independência dos três poderes, como determina a Constituição, haviam sido quebradas.

Manifestantes foram insuflados aos berros nos carros de som com todo o ódio que os fascistas têm à democracia, a pedir o fechamento do STF e do Congresso Nacional. Exibiram um boneco do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, como pessoa nefasta, e do ex-juiz Sérgio Moro, que anda em baixa, desmoralizado, como “super-homem”.

Rodrigo Maia deve ter até hoje uma pulga paranoica atrás da orelha lhe dizendo que a prisão do seu sogro, Moreira Franco, vulgo “Gato Angorá”, incluído na lista de propinas da empreiteira Odebretch, foi uma trama do “funcionário de Bolsonaro”, Sérgio Moro, com o juiz Marcelo Bretas.

Esse nó, Rodrigo Maia deve carregar na garganta como o nó da própria gravata, que lhe provoca o conhecido gesto de afrouxá-la com o dedo, esticando o pescoço.

Mas a fotografia da porção fascista que foi às ruas nos atos do dia 26 de maio, mobilizada por robôs a todo vapor, mostrou que a adesão é fraca, insuficiente para sustentar o governo, e está em queda.

O propalado apoio à Reforma da Previdência e às medidas de licença para matar, do ex-juiz Sérgio Moro, foi manipulado nos estúdios e redações das TVs, rádios, jornais e revistas, que fazem o jogo do sistema financeiro, da manutenção da imagem da operação Lava-jato, do golpe de estado, e da prisão do ex-presidente Lula. Afinal, Sérgio Moro e João Dória podem ser as opções da direita, que restaram dos escombros do golpe de estado, caso uma condenação da chapa Bolsonaro-Mourão, pelo TSE, seja anunciada em edição extraordinária.

Os manifestantes que, no Rio, desceram dos luxuosos apartamentos para a Avenida Atlântica, e dos bairros “nobres” de São Paulo para a  Avenida Paulista, no domingo de sol, com suas garrafas de espumantes refrescantes, têm Jair Bolsonaro como um “miliciano” ou, no máximo “um delegado de polícia”, protetor deles, de seus patrimônios, de seus negócios. Ele não gosta de pobre, já disse, é inimigo da classe trabalhadora, dos deserdados que engrossam os arredores das regiões onde vivem os abastados.

Não estão preocupados com Reforma da Previdência, com subtração de direitos trabalhistas, destruição do meio ambiente, corte de verbas da educação, privatização da saúde pública. Eles querem Lula preso, porque ele é o maior líder popular do país e um dos maiores do mundo. Cada vez mais reconhecido internacionalmente como preso político, até pelo Papa Francisco, manifestado em recente carta a ele.

Depois dos ataques ao STF, à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal, com tática militar da guerra híbrida, Jair Bolsonaro chamou os “homens de New York” (Maia, Alcolumbre e Toffoli), para uma conversa e um pacto de governabilidade, numa tentativa de busca de esteios para segurar o governo. As pulgas paranóicas pularam na Praça dos Três Poderes, rolaram de rir. Elas sabem de tudo. Afinal, vivem atrás das orelhas dos chefes dos poderes da República.

Os tempos político e da economia correm juntos, vão convergir e se encontrar na hora certa. A recessão econômica e o desemprego, a inércia do ministro Paulo Guedes, são as pulgas de venenos letais que estão matando o governo.

As pesquisas de opinião mostram rápida erosão do apoio popular e empresarial ao governo. A XP Investimentos, que costuma medir o grau de adesão do mercado, registrou uma queda brutal de 86% para 14%, do apoio de investidores. O recado está dado: com Jair Bolsonaro e seus patéticos ministros não dá para seguir viagem.

A recessão econômica é uma realidade, com queda de  0,2% no trimestre, 13,2 milhões de desempregados (12,5%) e 5 milhões em desalento ( pessoas que desistiram de procuram emprego), segundo pesquisa IBGE. Drástica redução da participação da indústria no PIB, (apenas 10%), queda de 0,7% no setor de serviços, 0,5% no setor agropecuário, 6,3% no setor extrativista, e aumento de 22,3% no lucro líquido dos bancos, chegando a 20 bilhões no trimestre (Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil).

A economia mundial deve retrair 0,2%, em 2019, segundo o FMI. A União Europeia reduziu a projeção de crescimento do PIB para 1,2%, com Alemanha liderando a baixa, com 1%. Estados Unidos, que cresceu 3,6% no ano passado, cai para 1,8%. China, reduziu para 6,3%, e a América Latina crescerá apenas 1,4%, com Argentina e Brasil puxando o índice para baixo.

Toda essa tragédia acontecendo sem que o ministro Paulo Guedes apresente  um plano de emergência para tirar o país da recessão. Talvez por ser banqueiro, ele esteja preocupado apenas com o lucro dos bancos e a entrega da previdência ao sistema financeiro. Chantageou o Congresso, disse que se a Reforma da Previdência não for aprovada, ele “pega o boné e vai embora”. Ou seja, é um governo de negócios.

As investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro, que avançam sobre o filho, Flávio Bolsonaro, e sobre outros membros da família, inclusive Michelle Bolsonaro, envolvidos em perigosas transações com o crime organizado, trazem à tona, a cada dia, novidades espantosas.

Os 37 imóveis da imobiliária, descobertos pelo Ministério Público, suspeita de ser uma lavanderia de dinheiro sujo, ligada a empresa MCA Participações, com sede no Panamá, conhecido paraíso fiscal, seriam frutos das transações de Flávio Bolsonaro com três norte-americanos: o corretor Glenn Dillard e dois investidores, Charles Eldering e Paul Maitinho. É o que a imprensa apurou e publicou nos últimos dias.

A quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico do filho do presidente e mais 85 pessoas e 9 empresas suspeitas de ligações com o crime organizado, ferroam, sem trégua, as orelhas de Jair Bolsonaro. Ele sente que desse cipoal pode surgir “o Fiat Elba” que derrubou Fernando Collor de Melo, e que pode também derrubá-lo.

Falta apenas o “objeto concreto”, como determina o Regimento Interno e o processo legislativo da Câmara dos Deputados, para fundamentar o Requerimento de Instalação de Comissão Parlamentar de Inquérito. Isso pode surgir a qualquer momento.

O tempo econômico e o tempo político vão convergir para esse instante decisivo. Jair Bolsonaro sabe disso, e mais ainda as pulgas paranoicas da Praça dos Três Poderes.

Block

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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