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Pedra do Tempo

Pedra do Tempo

Pedra do Tempo

Passa o tempo, passa a estrada, ou será que nada passa? O amor que é raio e centro, eternidade e momento. Tempo… Tempo… Tempo… (Caetano Veloso). A imagem acima é de autoria de Floriano Lins/Amazônia Real e mostra a indígena Itamirim…

Por Fátima Guedes/via Amazonia Real

Tudo a seu tempo! No justo momento em que a irracionalidade agredia a dignidade da Mãe Terra provocando desequilíbrios generalizados, o tempo covídico chega como estratégia natural educativa: a voz altiva da Sabedoria Cósmica ecoa em tons sensibilizantes apontando possibilidades de auto encontros, de redescobertas e/ou redirecionamentos de nossas práxis e de nosso mito original. 
 
Faz sentido… O tempo físico exigira da comunidade humana recolhimento e sapiência nos freios sobre abusos desmedidos e desvarios.
Por esse olhar, o tempo me abrira portais indeléveis revelando-me essencialidades de minha ancestralidade, muitas até ignoradas, por conta de deculturações colonialistas introduzidas em nossa brasilidade. Entre os últimos portais, diga-se, importantíssimos, em abril deste ano, a Sabedoria Cósmica me dirigiu um chamado: vivenciar Diálogos com a Floresta, na Aldeia Tupi Guarani – Tabaçu Rekó Ypy*, região de Peruíbe/São Paulo.
 
O conjunto de experiências compartilhado com aquela comunidade sobrepõe-se a traduções meramente verbais: sincronias de forças espirituais, mentais, físicas e emocionais selaram as vivências daquela egrégora.
Foram quatro dias de encontros, reencontros com nossa natureza essencial e de autodescobertas.
 
Reafirmo: em cada código do tempo imaterial, resgato memórias ímpares, significativas; respostas lúcidas, porém silenciadas nos ritos alienantes assimilados em minha historicidade colonizada; reconexões com a natureza divinal presente na unicidade dos seres.
 Durante aquela mística acolhedora, a magia do tempo me reportara à Aldeia dos Índios Xucuru (Pernambuco) durante a Caravana Agroecológica e Cultural do Agreste Pernambucano, em 2017 – Semeando Vida através da Agroecologia, organizada pela Universidade Rural do Estado de Pernambuco.
 
Os rituais Tupi permitiram-me reconexão com Mãe Sacarema, Matriarca dos Xucuru que me trouxe seu testemunho sobre relações humanas com os Encantados: Os Encantados são as fontes inspiradoras para o exercício ético de nossa missão no mundo. Precisamos estar ligados com os Chamados…
 
Nessa sintonia, nesse diálogo espiritual descobrimos nossa missão no Planeta Terra, e modos justos de relacionamentos com todos os seres, indistintamente.
Absorta em pensamentos imateriais, encontro entre meus pertences (mera coincidência) o poema Chamado, de autoria própria, produzido em 2002: as emanações absorvidas do tatá ruçu*, no centro da oka ruçu*, reconfiguram lembranças de Mãe Sacarema. Pensamentos voam: – a coincidência do poema em meus pertences de mão seria uma inspiração dos Encantados, abrindo-me portas para o encontro na Aldeia??? 
Dissolviam-se cortinas temporais: sentimentos Xucuru e Tupi Guarani se entrelaçavam além do tempo histórico (2017/2022) reafirmando o sentido daquele chamado. O testemunho se confirma com a presença de Itamirin* / Werá*, casal Morubixaba* da Aldeia Tabaçu Rekó Ypy.
 
Em tons legitimamente originais, o casal reconstruía naquele breve espaço memórias esquecidas registradas apenas em acervos idôneos. Fora visível, já na apresentação do casal, a harmoniosa relação entre os diversos, entre masculino/feminino, citada nas antigas sociedades matrifocais: o poder de comando é igualitário. Alcançamos tal compreensão, quando o Morubixaba Werá compartilha solidariamente a fala com Itamirin.
 
A bela Morubixaba, plena de sapiência e altivez personifica-se, então, no Sagrado Feminino bem diante de nossos olhos. Por fim, certifico-me do porquê de nossa presença naquele Encontro: Chamado do Grande Espírito*. 
 
A sublimidade desse interlúdio me leva ao encontro de respostas sobre minha fêmea missão:
A selva me chama pra apagar a chama que destrói o verde /e ascender a chama que constrói o verde e dá vida à selva […] Chama que me chama / Ilumina a picada que sai na clareira / Caminhantes me aguardam pra acordar a semente / que adormece esquecida na aridez do canteiro / O tição agoniza nos braços da cinza / A panela se esfria…/ Chama que me chama / Acorda esta chama / pra chamar os que dormem nas cinzas da selva. (GUEDES, 2002, p. 49)
Os Anúncios da Morubixaba, sensibilizantes e ao mesmo tempo revolucionários, chegam-me como concessões místicas de reconexão e recomposição de minha fêmea natureza com os mistérios divinais. Hora de descolonizar; reinventar-se; ajustar-se ao mito e aos ritos originários esquecidos…
 
Reconheço-me, portanto, poeira inquieta; singelo instrumento, talvez, pequeno canal receptor/transmissor de chamados, na desafiante reinvenção de outro mundo possível e digno para todas as formas de vida que se abrigam no colo da Grande Mãe.  

 

Quem sou?

Itaiara e Fatima Guedes1Itaiara e Fátima Guedes (Foto: Floriano Lins/Amazônia Real)

Nossa chegada à Aldeia era uma incógnita: o que buscamos aqui? Como dialogar com os hábitos culturais de nossas ancestralidades esquecidas? Como decodificar os ritos, os anúncios, considerando o memoricídio sobre os falares nativos? Inquietações várias mexiam com nossas limitações e com nosso emocional: Por que razões desafiamos restrições de isolamentos da Covid-19, distâncias geográficas, despesas aéreas e chegamos até aqui? …

Tudo ali nos reportava a dimensões superiores: o relaxante aroma do cachimbo* da Sábia Txai*; as bênçãos do Guia Espiritual Pitotó*; a mística dialógica do Txembo’ea *, Luã* Apiká*; o acolhimento amoroso de Ana Paula, Gwarapendju*; a originalidade sonora das canções nativas, os instrumentos musicais, as danças, os ritmos, a alimentação saudável, a medicina tradicional, as relações de cuidados das crianças e adolescentes entre si e com a diversidade dos seres…

Eram despertares indecifráveis sobre a missão universal de todos os seres que se abrigam no ventre da Mãe Terra – Amar. Sem distinção, humanos, flora, fauna, terra, águas, elementos do ar, somos unos e interdependentes…  
Essa sinfonia me conduzia às profundezas das sombras que segredam o mito que sou. Emoções eram bússolas apontando-me sinais…

Inesperadamente, vem ao meu encontro a pequena Itaiara*, de quatro anos de idade: encara-me, apresenta-se e, como se me descobrisse parceira de outras vidas, questiona-me:

– Quantos anos você tem? Fui tomada de profunda emoção… Os traços físicos da pequena Itaiara trouxeram-me a infância perdida, maculada por ritos abusivos, conflitantes a minha natureza essencial… A cada lágrima disfarçada descortinava-se o passado; meu olhar temporal revelava minhas raízes, meu mito ignorado… Itaiara percebeu meu estado emocional.

Segurou minha mão e completou: – Eu sou a Pedra do Tempo. É meu nome. Mais emoções…
Em princípio, uma septuagenária contagiada pelo chamado dos Encantados voltava no tempo e se encontrava na pequena e sábia Itaiara. A ressignificação da eternidade em Pedra do Tempo.

Após aquele encontro, a Pedra do Tempo sela nossos laços e reafirma nossos mitos. Tornamo-nos amigas… Senti o tempo perpetuando-se em movimento perene – horário/anti-horário, reafirmando a unicidade do ontem, do hoje, do amanhã.

Os registros aqui compartilhados são breves relatos do que foi possível captar durante o encontro na Aldeia Tabaçu Rekó Ypy, nação Tupi Guarani… Impossível traduzir em códigos verbais a plenitude daquela Sagrada Experiência. Trago apenas o que as palavras alcançam e conseguem dizer.

O renascer humano, físico, espiritual, afetivo, histórico refaz o que se desfez. Esse tempo perpetuar-se-á em sentimentos, gestos, atitudes, em formas variadas de vidas trazidas de nossa herança ancestral. A Pedra do Tempo é nosso testemunho.

Falares de Casa

Apiká – Pássaro que faz a travessia dos espíritos para a terra sem males.
Grande Espírito – Nhanderu 
Gwarapendju – Pássaro Sagrado. Em sua apresentação, Ana Paula se reconhece – aprendiz do tempo, dos bons momentos; aprendiz dos ancestrais e sempre busco a sabedoria com a verdade, com amor junto aos seres da floresta e do universo.

Produzo sabonetes e fumos de ervas e ajudo muitas pessoas a encontrarem o caminho da paz. No meu fazer estão presentes a sabedoria da cura, da alegria e do cuidado. 

Itamirin – Pedra pequena
Itaiara – Pedra do Tempo
Luã – Deus sol 
Morubixaba – Líder maior
Nhanderu – Grande Espírito
Oka ruçu – Centro de reuniões e encontros da aldeia. Grande oca.

Pitotó – Xamã (Ancião). Registro cartorial, Elias Samuel dos Santos Auá Dju (homem fiel). Pitotó é um pequeno pássaro também conhecido no nordeste como Pixoxó.

O codinome do Xamã vem de criança, quando imitava o canto do pássaro: pi-to-tó!!! Nos rituais de cura, o Xamã também imita o canto do Pitotó.

Tabaçu Rekó Ypy – O renascer da grande aldeia
Tatá ruçu – Fogueira eterna
Txai – Avó de todos
Txembo’ea – Professor
Werá – Raio

https://xapuri.info/lei-maria-da-penha-10-anos-cumpra-se/

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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