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Rabada: o prato preferido de Lula

RABADA: O PRATO PREFERIDO DE LULA

Rabada: o prato preferido de Lula

Em abril de 2018, logo no começo do longo período de 580 dias que Lula passou preso em Curitiba, uma linda senhora, simples e terna, à época com 64 anos, cruzou os céus entre Brasília e o Paraná para tentar visitar o preso ilustre…

Por Lúcia Resende

Era Maria de Jesus Oliveira da Costa, conhecida como tia Zélia, proprietária de um restaurante singelo na Vila Planalto, para onde, nos anos 2000, o presidente costumava “fugir”, nas noites do Planalto para comer seu prato predileto, uma boa rabada, segundo tia Zélia.

Impossibilitada de visitar o presidente, a baiana nascida em Buritirama, região do Vale do , chegada em Brasília no ano de 1976, depois de uma viagem de 45 dias num pau-de-arara, cozinhou e contou para a militância da Vigília as “travessuras” do presidente para comer os pratos   do “Tia Zélia”, galinhada, buchada e rabada.

Vinda do mesmo nordestino, tia Zélia contou para a militância que muitas vezes ela tinha que apagar a luz do restaurante para despistar quem imaginava que o estava lá, aí quando ele chegava, ela o levava para a cozinha e fazia a comida dele. 

Há várias receitas de rabada circulando na internet. Todas elas usam o rabo da vaca cozido, cortado em pedaços suculentos e cheios de colágeno. O jeito de fazer varia, mas o resultado é sempre uma comida cheia de “sustança”, como se diz aqui em Goiás! 

Por aqui, gosto de refogar bem a carne, deixando dourar bem, com alho, sal e pimenta-do-reino (a gosto). Depois, acrescento cebola cortadinha, deixo refogar, acrescento tomate picado em cubos, refogo um pouco mais e cubro com água. Daí, deixo na pressão por cerca de 30 minutos. 

Já cozida, acrescento uma boa dose de cachaça, deixo ferver para engrossar o caldo. Para finalizar, acerto o sal, desligo o fogo, acrescento cheiro verde e agrião. Para acompanhar, arroz branco. Posso garantir, fica uma delícia.

A rabada da tia Zélia ainda não comi, hora dessas vou lá, pra conferir! 

No Paraná, no dia 18 de abril, sem poder ver o presidente, tia Zélia gravou em vídeo uma mensagem carinhosa para Lula: 

Meu querido presidente Lula, quero te dizer que estou em Curitiba, quero te deixar meu abraço. Quero te deixar meu carinho e quero te dizer que te amo muito, a tua veia te ama“. Agora que o amigo-presidente volta para Brasília e, muito provavelmente, vai escapulir algumas vezes do Palácio do Alvorada para se deliciar com o tempero de tia Zélia em sua cozinha da Vila Planalto, homenageio os dois, o presidente e a cozinheira, com minha própria receita de rabada. Bom apetite!

Lúcia Resende é professora e consultora parlamentar aposentada, cozinheira por paixão e revisora voluntária da .

 
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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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